À escala mundial, a supremacia militar dos Estados Unidos da América (EUA) mantém-se. No que toca a munições, isso fica patente no Irão através de armamento como os mísseis de cruzeiro de alta precisão Tomahawk, os mísseis balísticos Trident de segunda geração - capazes de atingir velocidades de até 20 vezes a do som - e os sistemas de defesa Patriot. “É por isso que custam muito dinheiro e levam muito tempo a produzir”, diz ao Expresso Mick Mulroy, vice-secretário de Defesa durante a primeira Administração Trump (2017-21).
A proposta orçamental para a Defesa prevê mais de 330 mil milhões de dólares (€280 mil milhões) destinados a aumentar a produção desse equipamento. “Republicanos e democratas trabalham em conjunto para aumentar a base industrial de produção de munições. Estão muito preocupados com as nossas reservas e como se comportariam num possível confronto com a China”, afirma Mulroy.
Pentágono, Tomahawk e produção de munições
Dados de ataques divulgados por Pete Hegseth
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, fez questão de sublinhar a contagem, quase ao detalhe, dos ataques até 8 de abril, dia em que entrou em vigor um cessar-fogo. “Foram atingidos mais de 13 mil alvos”, revelou. Cerca de um mês antes, a 2 de março, tinha descrito um “ataque maciço em vários domínios, com mil alvos atingidos nas primeiras 24 horas”. E, a 10 de março, voltou ao tema para atualizar a avaliação, caracterizando esse momento como o “dia mais intenso de ataques”.
O Pentágono pretende aumentar o seu orçamento anual de 900 mil milhões para 1,2 biliões de dólares
Uma sequência de vídeos com explosões, tornada pública pelo Pentágono, veio corroborar quão intensa foi a campanha. “Podemos destruir tudo o que quisermos, mas quanto custa ao contribuinte?”, questiona Philip Lohaus, ex-analista da Agência Nacional de Informação Geoespacial do Departamento de Defesa. “Muitos destes ataques são realizados com as nossas melhores armas. Estamos a usar uma quantidade incrível. Porque sou patriota, recuso-me a dizer o número, até porque não as podemos construir do dia para a noite.”
Um relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (em Washington), divulgado no final de abril, calcula que tenham sido disparados dezenas de milhares de mísseis e intercetores. A este volume somam-se ainda os fornecimentos anteriores feitos à Ucrânia e a Israel.
Hegseth admite que há desgaste e é precisamente isso que sustenta o esforço para reforçar as verbas. “A atual morosidade no fabrico é inaceitável. Este novo orçamento financiará a construção de fábricas”, assinalou no Congresso. “Lidamos com o que a antiga Administração deixou, uma capacidade produtiva que nos levaria anos a substituir engenhos como os Tomahawk.”
“Retórica do Rambo”
O general Ben Hodges, que comandou as forças dos EUA na Europa entre 2014 e 2018, critica o consumo de “anos de munições” na operação contra o Irão. “Perdemos arsenal importante e a guerra continua num impasse. O estreito de Ormuz está fechado. O regime iraniano mantém-se vivo e o material nuclear continua na posse de Teerão”, lembra ao Expresso. “Os americanos pagam um balúrdio para abastecer e continuam sem perceber os objetivos deste esforço.”
Nas últimas semanas, órgãos como o “The New York Times” e “The Atlantic” avançaram que Hegseth poderá estar a evitar levar a Trump números sobre este quadro inquietante, por o Presidente detestar más notícias. Já o vice-presidente, J. D. Vance, talvez o elemento da Administração menos entusiasmado com a guerra, tentaria transmitir essa informação, mas sem sucesso.
Hodges não suaviza a análise. “A credibilidade do secretário de Defesa foi posta em causa há muito tempo, pela falta de transparência e pela retórica igual à do Rambo, mais focada na letalidade do que nos efeitos estratégicos que o Pentágono deveria atingir. Não me surpreende que o vice-presidente esteja atento.”
O vice-presidente, J. D. Vance, é talvez o membro do Governo menos entusiasmado com a guerra
Partindo do pressuposto de que Vance possa desconfiar do que lhe é transmitido por Hegseth, o Expresso procurou assessores de outros governantes para perceber se existia tensão interna. Ninguém quis comentar. “Confiança é um dos elementos-chave do nosso poder nacional, na profissão de militar ou enquanto oficial das secretas”, lembra Lohaus. “Tem de ser protegida, pois dependemos uns dos outros para defender o país. Em vez disso, Hegseth tem perseguido e demitido chefes militares que contrariam a sua linha e chocado em público com aliados internacionais. Tudo isto põe em causa essa confiança vital.”
“Atenção à gama baixa”
As opções de Trump estarão a assentar num ecossistema informativo pouco transparente? “Há uma preocupação legítima”, admite Hodges. “Falamos de cerca de 15 mil alvos atingidos e de uma boa parte das nossas forças na região. Porém, tenho de presumir que a chefia militar tenha informado o Presidente.” Ainda assim, continua por esclarecer, com precisão, o volume de material usado e o plano para repor stocks. As fontes ouvidas sustentam que, enquanto persistir essa incerteza, os EUA passarão sinais de vulnerabilidade às rivais China e Rússia.
Kori Schake, que foi conselheira de política externa do candidato republicano às presidenciais de 2008, John McCain, pondera o risco. “A primeira incursão no Irão, no ano passado, usou 25% dos nossos intercetores e mísseis de longo alcance. A ofensiva em curso terá gastado 25% a 50%. As reservas estão em baixo.”
O foco das apreensões não é tanto o dossiê iraniano, mas a hipótese de um confronto no Pacífico, frente a um adversário que tem a segunda maior economia do mundo. “Este problema era conhecido há muito. Veio a público durante a discussão sobre a assistência militar à Ucrânia. Hoje, dadas as necessidades no Médio Oriente, estamos a retirar meios militares do Pacífico, onde são mais necessários para dissuadir um rival agressivo.”
Com um orçamento anual de cerca de 900 mil milhões de dólares (€765 mil milhões), comparável aos Orçamentos do Estado de países como a Alemanha e o Japão, o Pentágono ambiciona subir a fasquia no próximo ano fiscal. O objetivo apontado é de 1,2 biliões de dólares (cerca de um bilião de euros).
“Vemos os EUA a utilizarem mísseis Tomahawk [cujo preço unitário ronda os €850 mil] para abaterem drones muito mais baratos”, denuncia Schake. “Somos ótimos a investir na gama alta, mas temos de dar mais atenção à gama baixa. Estaríamos em melhor posição se a Administração tivesse relação mais próxima com a Ucrânia e aproveitasse o conhecimento acumulado em mais de quatro anos de conflito injetando-o nas nossas operações.”
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