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Israel ajusta o discurso e aponta à Turquia, Estado-membro da OTAN, após décadas contra o Irão

Homem em fato a discursar numa conferência com bandeiras de Israel e Turquia e símbolo da NATO ao fundo.

Durante anos, Telavive tratou o Irão como o principal adversário na região. Agora, contudo, o discurso israelita começa a deslocar-se para a Turquia, um Estado-membro da OTAN, num tom que tem subido de intensidade - embora, segundo especialistas, dificilmente produzirá efeitos comparáveis aos obtidos no confronto retórico com Teerão.

Em meados de fevereiro, Naftali Bennett, antigo primeiro-ministro de Israel (2021-2022), lançou o alerta: "Uma nova ameaça turca está a surgir", defendendo que o país deve vigiar Ancara e acusando-a de integrar um eixo regional "semelhante ao iraniano". Para os analistas, trata-se de mais um sinal de escalada verbal dirigida aos turcos.

Bennett, opositor de Benjamin Netanyahu e figura da Direita que poderá ter bons resultados nas legislativas previstas para este ano, insistiu na necessidade de um duplo foco: "Devemos agir de formas diferentes, mas simultaneamente contra a ameaça de Teerão e contra a hostilidade de Ancara".

Antes de uma visita do primeiro-ministro indiano a Israel, Netanyahu também procurou enquadrar a resposta num plano de alianças. O atual chefe do Governo israelita defendeu uma aproximação à Índia, ao Chipre e à Grécia - três países com relações tensas com a Turquia -, além de referir, sem especificar, Estados árabes, africanos e asiáticos. O objetivo, afirmou, é criar "um eixo de nações que partilhem a mesma visão sobre a realidade, os desafios e os objetivos, em oposição aos eixos radicais, tanto o eixo xiita radical, como o eixo sunita radical emergente".

Para os especialistas, a referência ao "eixo xiita" aponta de forma direta ao Irão e aos seus aliados. Já a menção ao "eixo sunita" é entendida como um recado sobretudo dirigido a Ancara e a Doha. Ambos são frequentemente associados a ligações com a conservadora Irmandade Muçulmana e, ao mesmo tempo, dispõem de margem para iniciativas diplomáticas que inquietam Telavive - desde tentar afastar a Arábia Saudita de normalizar relações com Israel até a possibilidade de uma aproximação entre turcos e cataris e os paquistaneses, detentores de arsenal nuclear.

O analista Steven Cook, do centro de estudos norte-americano Conselho de Relações Externas, sintetizou esse receio ao Observatório do Médio Oriente: "Há muito que Israel calibra a sua estratégia de defesa de acordo com as capacidades do Irão. Mas se a Turquia conseguir influenciar a Arábia Saudita ou consolidar a sua relação com o Paquistão, o mapa estratégico muda de um dia para o outro".

"Posição distinta"

Para Maria do Céu Pinto, professora de Ciência Política na Universidade do Minho, a eficácia deste tipo de pressão verbal tem limites claros: "A retórica anti-Ancara por parte de Israel teria, muito provavelmente, um impacto limitado. A Turquia é membro da NATO e mantém fortes ligações económicas e políticas com a Europa, o que a coloca numa posição distinta da do Irão". Na sua perspetiva, "Uma abordagem semelhante poderia agravar a tensão diplomática, dificultar as relações bilaterais e gerar desconforto entre aliados ocidentais, mas dificilmente isolaria Ancara ou alteraria de forma significativa o seu comportamento". A docente nota ainda que "o presidente turco Recep Tayyip Erdogan tem adotado um tom cada vez mais crítico em relação a Israel".

A mesma especialista chama a atenção para a multiplicação de dossiers em simultâneo: "Por outro lado, Israel já opera com várias frentes simultâneas. Israel dispõe de capacidade militar e institucional para gerir múltiplos desafios, mas isso não significa que o possa fazer sem custos". Entre os riscos, aponta um "possível desgaste económico e estratégico e uma menor margem de manobra noutras frentes". Ainda assim, observa que, "ainda assim, Israel tem demonstrado, por meio das suas ações recentes, uma crescente disposição para tolerar níveis mais elevados de isolamento internacional".

Outras divergências

Síria
A queda de Bashar Al-Assad e a subida ao poder, em dezembro de 2024, dos islamitas do Tahrir al-Sham na Síria foram lidas como um ganho para Erdogan. Além de passar a contar com um aliado em Damasco, Ancara terá conseguido enfraquecer os curdos - rivais históricos - com quem Telavive mantém boas relações. Do lado israelita, houve expansão da ocupação nos montes Golã e ataques ao armamento que restava do Exército de Assad.

Somália
Em dezembro do ano passado, Israel tornou-se o primeiro país a reconhecer o Estado da Somalilândia, no Corno de África, decisão que suscitou condenações de aliados turcos e somalianos.

Histórico da relação

Cooperação
O período mais favorável das relações ocorreu nos anos 90, quando existiu cooperação militar, incluindo exercícios conjuntos e até a modernização de caças de Ancara com apoio de Telavive.

Ataque à flotilha
Já com Netanyahu e Erdogan no poder, a morte de dez ativistas turcos às mãos de militares israelitas, em 2010, numa flotilha que transportava ajuda humanitária para Gaza, deixou marcas profundas na relação diplomática.

Reaproximação
A ligação foi retomada em 2016, mas o homicídio de manifestantes em Gaza, dois anos depois, levou Ancara a retirar o embaixador em Israel e a expulsar o representante israelita. Em 2022, sob influência dos Acordos de Abraão - através dos quais países árabes passaram a estabelecer relações com Telavive -, foram novamente nomeados embaixadores.

Guerra em Gaza
A campanha no enclave, que tem laços históricos com os turcos devido ao Império Otomano, levou a Turquia a cortar, em 2024, os laços comerciais com Israel. Apesar disso, em 2025, o petróleo do Azerbaijão vendido a Israel através da Turquia atingiu o maior volume dos últimos três anos.

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