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Caso de tortura na esquadra do Rato: Mohamed detido no Martim Moniz e 24 polícias presos

Homem jovem sentado num banco numa sala com três polícias ao fundo perto da porta aberta.

Mohamed, cidadão argelino, foi imobilizado por populares no Martim Moniz, em Lisboa, depois de ter sido surpreendido numa tentativa de assalto por esticão. Sem falar português, acabou entregue à PSP e conduzido à esquadra do Rato. A partir daí, tornou-se uma das vítimas no processo de tortura que já levou à detenção de 24 polícias, entre os quais dois chefes.

Mohamed e a PSP: detenção no Martim Moniz e agressões na esquadra do Rato

De acordo com a investigação, no dia em causa, em outubro de 2024, o graduado de serviço era um chefe identificado pelo Ministério Público (MP) como Pedro Paiva. Segundo o MP, o responsável não só terá ignorado e encoberto as agressões infligidas ao alegado carteirista, como também terá agredido o suspeito.

O MP descreve que Mohamed permaneceu algemado de pés e mãos durante mais de 12 horas a um banco de madeira “como se estivesse crucificado numa cruz, impossibilitado de se mexer ou resistir”.

As agressões terão incluído murros e pontapés “na cabeça e em toda a parte superior do corpo”. Os suspeitos “desferiram pontapés com a biqueira das botas (...), atingindo-o nas canelas” e atingiram-no ainda com “várias bastonadas pelo corpo todo”. O imigrante, com problemas de toxicodependência, terá igualmente sido atingido com gás-pimenta quando estava algemado e sem capacidade de se defender. Para o MP, terão participado nas agressões seis polícias, incluindo o graduado de serviço, o chefe Paiva.

A procuradora Felismina Carvalho Franco sustenta que “o ofendido permaneceu algemado de mãos e pés várias horas, desde o fim da tarde em que foi intercetado até à manhã do outro dia, quando o levaram para Tribunal, algemado”.

Vídeos, fotos e mensagens no WhatsApp: “Grupo sem Gordos” e “Grupo dos 69”

Segundo o processo, imagens e gravações das agressões circularam entre polícias via WhatsApp, no Grupo sem Gordos e no Grupo dos 69. O agente Óscar, atualmente em prisão domiciliária, escreveu: “Sorte dele que o chefe Paiva ‘tava muito manso.”

Num dos vídeos, este agente surge a desferir um pontapé no tornozelo da vítima, na zona onde estavam as algemas, “provocando-lhe muita dor”.

Ambiente de “opacidade”

Nesta terceira vaga de detenções ligada a agressões, violações e tortura na esquadra do Rato e também na do Bairro Alto, foram detidos dois chefes: Pedro Paiva e Ricardo Magalhães. Este último, segundo o MP, terá estado envolvido em agressões a dois cidadãos egípcios que terão tentado interferir na detenção de um suspeito de tráfico de droga.

Também estes dois homens, que não falam português, foram levados para o Rato e agredidos com murros e pontapés “durante mais de uma hora”. O MP indica que ficaram algemados com as mãos atrás das costas “sem nunca lhes ter sido providenciado qualquer intérprete para que compreendessem o que lhes estava a acontecer”. O “castigo” por terem “interferido numa detenção da PSP” terá incluído “agressões com luvas de boxe”. Além disso, os dois terão ficado sem o dinheiro que traziam na carteira.

Para o MP, o chefe Magalhães era o graduado de serviço e, para lá de não ter travado as agressões, terá “desferido ocasionalmente socos e pontapés nos ofendidos”. Sobre esta atuação, o MP escreve: “Violou o dever de lealdade, zelo, competência, integridade de carácter e espírito de bem servir.”

No total, foram já detidos 24 polícias e ainda um segurança de uma discoteca, num caso em que um cliente terá sido agredido por ter dado a mão à “ex-namorada” de um PSP e por se ter envolvido numa luta com ele.

O despacho de indiciação do MP caracteriza um clima de terror, descrevendo que “os denunciados aproveitavam a vulnerabilidade das vítimas para, de forma violenta, perversa, descontrolada, descompensada, exibindo mesmo requintes de malvadez, praticarem as suas ações”. As agressões, segundo o MP, começaram em 2023 e apenas terão cessado após a detenção, pelos mesmos agentes, de uma mulher que não era sem-abrigo nem delinquente, na sequência de uma altercação numa cervejaria em Lisboa. Essa mulher foi espancada na esquadra do Rato, teve de ser hospitalizada e apresentou denúncia junto do DIAP de Lisboa.

O MP aponta ainda um cenário de opacidade: na fase de instrução, 20 polícias foram inquiridos como testemunhas e apenas um corroborou as suspeitas contra os colegas. O agente Beira Alta declarou ter visto dois homens agredidos “a chorar e muito receosos” e, embora tenha afirmado que “não” presenciou “qualquer agressão”, admitiu ter ouvido o arguido Guilherme Leme “a gritar muito alto com os ofendidos, dizendo ‘filhos da puta, deviam levar com o bastão, não mereciam viver’”. Ainda assim, o MP considera que terá efetivamente presenciado as agressões e que pressionou os dois homens a fazerem o que lhes era exigido: cantar o ‘Parabéns a Você’ depois de terem sido sovados e, até, violados com um bastão. Acabou por integrar a lista dos 15 agentes detidos esta semana.

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