Numa tarde abafada no Recife, o mercado cheira a mar e a óleo de fritura. Uma mulher de vestido florido inclina-se sobre um balcão de plástico e escolhe, uma a uma, entre montes de filetes finos e esbranquiçados. “Isto agora volta a ser seguro, a sério?”, pergunta ao vendedor - a meio caminho entre a brincadeira e a preocupação. O homem encolhe os ombros, toca no peixe com a faca e responde como quem repete um refrão antigo: “Este é o peixe do povo. Sempre foi, sempre vai ser.” Atrás dela, um rapaz revira os olhos. Já viu os TikToks, ouviu os médicos, apanhou os memes a chamarem-lhe “peixe da morte”.
À volta, a fila vai crescendo, discreta.
Porque este antigo “peixe de pobre” voltou à mesa. E quase ninguém concorda se isso é uma vitória - ou uma armadilha.
O regresso do peixe serra (cação/tubarão): o “peixe do povo” que nunca desapareceu
Nos anos 1990 e 2000, o peixe serra - tubarão, cação e outras espécies semelhantes vendidas sob um mesmo nome barato - foi, em muitos bairros do Brasil, peixe de desenrasque e de sobrevivência. Tinha espinhas, um sabor intenso, por vezes uma cor mais escura. Mas custava pouco, enchia a frigideira e dava para alimentar cinco ou seis bocas.
Depois começaram a surgir estudos e notícias a associarem a carne de tubarão a níveis elevados de mercúrio. Vieram as reportagens, os alertas (sobretudo para grávidas), os títulos assustadores sobre danos neurológicos, riscos prolongados e contaminação. Num ápice, o “peixe do povo” passou a vilão culinário.
Ainda assim, nunca saiu por completo das bancas. O que aconteceu foi mais subtil: mudou de forma, de embalagem e de narrativa. E, agora, reaparece em cuvetes de supermercado - um pouco mais “limpo” à vista, um pouco mais caro, selado em plástico, com códigos QR e aspeto de produto normalizado.
Na periferia de Salvador, a Dona Celeste, de 63 anos, continua a chamar-lhe pelo nome de antigamente: “o bife de pobre”. Lembra-se com precisão do dia em que a filha chegou da escola a dizer que a professora “proibiu” lá em casa comer aquilo. “Chorei na cozinha”, conta a rir, “porque então o que é que eu fazia para o jantar?” A família passou para nuggets congelados de frango e salsichas processadas - coisas que, naquela altura, pareciam “modernas”.
Hoje, a Celeste vê nutricionistas na televisão a discutirem o mesmo peixe e abana a cabeça. “Um diz que é veneno. Outro diz que é proteína. E a minha reforma compra metade do que comprava.”
A polémica nasce do choque entre verdades que coexistem. Tubarões e outros predadores grandes podem acumular metais pesados como o mercúrio, sobretudo em águas poluídas. O risco é real e, para grávidas e crianças pequenas, é particularmente sério. Ao mesmo tempo, muitos substitutos empurrados para famílias de baixos rendimentos são ultraprocessados, muito salgados, cheios de açúcar e longe de serem um sonho de saúde. Quando especialistas defendem, em tom absoluto, “nunca comer” certos peixes, muitas vezes falam a partir de um mundo em que salmão, bacalhau, pescada fresca ou tilápia estão sempre ao alcance. Para milhões de brasileiros, nem sempre estão. Por isso, esta discussão não é só toxicologia: é, também, classe social.
“As pessoas perguntam se o peixe é seguro”, diz uma nutricionista de São Paulo. “A minha primeira pergunta de volta é: seguro em comparação com quê? Com uma dieta diária de noodles instantâneos? Com a fome? No Brasil, risco nunca é uma ideia abstrata. Está sempre no prato de alguém.”
Um ponto que raramente entra na conversa (e que importa)
Há outra camada menos falada: a confiança. Quando um alimento é demonizado durante anos, a reputação não se recompõe apenas porque aparece em embalagem bonita. Entre o medo e o orçamento, muita gente acaba a decidir no momento em que olha para o preço - e não no momento em que lê um relatório científico.
E existe ainda o efeito “substituição”: retirar um alimento problemático da dieta não melhora automaticamente a alimentação se o vazio for preenchido por opções piores (mais baratas, mais práticas, mais industriais). Em termos reais, o dilema costuma ser entre riscos diferentes - e não entre “saudável” e “perigoso”.
Como o peixe serra virou oportunidade de negócio
Este regresso não acontece ao acaso; tem método.
Passo 1: trocar o nome. Algumas marcas deixaram de escrever cação ou tubarão no rótulo e passaram a usar designações vagas como “filetes de peixe branco” ou nomes comerciais inventados, com som inofensivo e moderno.
Passo 2: industrializar a apresentação. Congelação em escala, cobertura de gelo (glazing), cortes padronizados, embalagens “limpas”. O peixe que antes era vendido inteiro sobre gelo - com cabeça e dentes à vista - hoje parece um filete anónimo, igual a tantos outros na arca.
Passo 3: fabricar contexto. Receitas no Instagram, publicações patrocinadas com influenciadores de fitness, ideias de “jantar leve” que incluem discretamente a mesma espécie que, há pouco tempo, era tratada como tabu.
O erro comum é assumir que, se voltou a estar à venda no supermercado, então “o assunto está resolvido”: processos fechados, ciência atualizada, águas mais limpas. A realidade é bem mais confusa. Organizações ambientais continuam a denunciar pesca ilegal de tubarão ao longo da costa brasileira. Investigadores continuam a encontrar, em algumas amostras, valores de mercúrio acima do recomendado. E as mesmas famílias que foram aconselhadas a evitar este peixe há dez anos são agora empurradas de volta para ele por etiquetas de desconto e por blogs de receitas.
Quase toda a gente conhece esse momento em que o valor na caixa fala mais alto do que o nutricionista na televisão.
Saúde pública vs. ambiente: por que a discussão não fecha
A conversa transformou-se numa espécie de novela alimentar nacional.
De um lado, especialistas em nutrição defendem que, para adultos saudáveis, um consumo ocasional pode ser gerível - sobretudo se houver variedade no peixe consumido e se se evitar oferecer regularmente a crianças.
Do outro, ambientalistas e ativistas de saúde pública insistem que normalizar carne de tubarão recompensa uma cadeia de pesca destrutiva, com impacto forte nos ecossistemas marinhos e nas comunidades costeiras.
Entre as duas posições, há uma maioria silenciosa que faz o que o Brasil sempre fez em tempos apertados: improvisa.
Quem ganha quando o “peixe de pobre” vira moda?
Há uma ironia amarga em ver um peixe associado durante tanto tempo à pobreza ser reembalado como proteína “fit” e tendência de prateleira. Em favelas costeiras, pescadores mais velhos contam histórias de vender carne de tubarão por quase nada, enquanto barbatanas e cortes valorizados seguiam para exportação e rendiam dinheiro a intermediários e exportadores.
Agora, com a classe média brasileira à procura de qualquer proteína que não seja carne vermelha, a mesma cadeia vê uma oportunidade renovada dentro de casa. O peixe sai da banca ao ar livre e entra no hipermercado climatizado. As margens mudam em conformidade.
E as famílias que dependiam dele ficam espremidas entre carteira, memória e receio.
Sejamos francos: quase ninguém lê todos os relatórios científicos antes de decidir o que fritar ao jantar. A maioria responde a três forças simples - preço, hábito e confiança. Quando a confiança é abalada por alarmes de saúde, não volta com facilidade. Muitas avós continuam a olhar de lado para o balcão do peixe, mesmo quando o médico diz que “uma dose de vez em quando” não faz mal. Já os mais novos, guiados pelas redes sociais mais do que pela tradição familiar, deslizam por opiniões aos gritos: “peixe tóxico, nunca mais” versus “é tudo fake news, come sem medo”.
E a verdade nua e crua é esta: polémicas alimentares raramente ficam só no prato; mexem com identidade, dignidade e com quem tem o poder de definir o que é “bom” e o que é “mau” para comer. Quando um antigo “peixe de pobre” passa a ser defendido por campanhas financiadas pela indústria e por blogues gourmet, muitos brasileiros mais velhos sentem que a história está a ser reescrita sem eles. E, em paralelo, os ecossistemas costeiros pagam o preço de uma pressão acrescida sobre populações de tubarões - um desastre lento, que não cabe num segmento de 30 segundos na televisão.
O regresso do peixe serra deixa perguntas incómodas no ar.
Quem lucra quando o perigo passa a ser vendido como “risco aceitável”? E quem fica a comer o que estiver em promoção às 20h, quando o mercado está a fechar?
Como comprar com mais segurança (sem entrar em pânico)
- Não ignore os rótulos: nome da espécie, origem e método de captura são pistas importantes, tanto para a saúde como para a sustentabilidade.
- Desconfie de “peixe branco” muito barato e demasiado genérico, sem indicação clara da espécie.
- Pergunte ao peixeiro o que está, de facto, a comprar; respostas vagas já são uma resposta.
- Quando for possível, varie os tipos de peixe; para crianças e grávidas, a prudência deve ser maior.
- Lembre-se de que feijão, ovos e legumes da época continuam a ser aliados fortes de proteína quando o peixe é uma incógnita.
Uma nota útil para leitores em Portugal
Para quem compra em Portugal, vale a pena saber que “cação” pode surgir em contextos culinários tradicionais e, por vezes, com designações comerciais pouco claras. Sempre que houver dúvida sobre a espécie, a origem e a rastreabilidade, a melhor proteção do consumidor é simples: pedir informação, escolher alternativas com identificação completa e diversificar a dieta. A regra prática que raramente falha é a variedade - tanto no tipo de peixe como nas fontes de proteína ao longo da semana.
Síntese rápida
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para quem lê |
|---|---|---|
| A polémica tem várias camadas | Risco para a saúde, dano ambiental e desigualdade de classe cruzam-se no mesmo filete | Ajuda a ir além de manchetes simplistas sobre comida “boa” ou “má” |
| Rótulos e perguntas contam | Nome da espécie, origem e respostas honestas do vendedor mostram o que está a comprar | Dá ferramentas práticas para proteger a família sem alarmismo |
| Ainda há margem de decisão | Alternar proteínas, moderar a frequência e variar o peixe muda o perfil de risco | Sugere ajustes pequenos e realistas que cabem num orçamento apertado |
Perguntas frequentes
- Pergunta 1: Este “peixe de pobre” é mesmo perigoso para comer?
- Pergunta 2: Com que frequência posso servir este peixe à minha família com segurança?
- Pergunta 3: Há sinais claros na embalagem de que é tubarão, cação ou espécie semelhante?
- Pergunta 4: Que alternativas acessíveis existem se eu quiser reduzir o consumo?
- Pergunta 5: Deixar de comprar este peixe ajuda realmente o ambiente ou é apenas simbólico?
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário