A doença cardiovascular continua a ser uma das principais causas de morte e o colesterol LDL - muitas vezes apelidado de colesterol “mau” - é um dos factores de risco mais relevantes, por favorecer a formação de placas que estreitam as artérias e aumentam a probabilidade de enfartes e acidentes vasculares cerebrais (AVC).
Apesar de as estatinas serem a base do tratamento, há pessoas que, mesmo com doses elevadas e terapêutica optimizada, permanecem com risco elevado e sem atingir as metas recomendadas para o LDL. É neste contexto que surge um medicamento ainda experimental: a enlicitida, um comprimido diário que, segundo investigadores, consegue reduzir de forma muito acentuada o colesterol LDL.
Porque é que muitas pessoas com estatinas continuam com LDL acima do recomendado?
As estatinas diminuem parte da produção de colesterol no fígado e, por isso, são consideradas a pedra angular da abordagem farmacológica. Ainda assim, em muitos doentes, a redução obtida não é suficiente para cumprir as orientações clínicas.
De forma geral, um LDL de 100 é frequentemente considerado aceitável em pessoas saudáveis; porém, quando existe hipercolesterolemia significativa ou doença cardíaca, os médicos costumam recomendar baixar o LDL para pelo menos 70 - e apontar para valores ainda mais baixos quando o risco é muito elevado.
Enlicitida e os inibidores de PCSK9: uma alternativa aos injectáveis
Hoje, para obter reduções muito expressivas do LDL, recorre-se por vezes a medicamentos injectáveis potentes, designados inibidores de PCSK9. Estes actuam ao bloquear uma proteína do fígado (PCSK9) que limita a capacidade do organismo para remover colesterol do sangue.
A novidade é que a enlicitida pretende alcançar um efeito semelhante, mas sob a forma de comprimido, oferecendo uma via de administração potencialmente mais simples do que as injecções.
Apesar da eficácia dos inibidores de PCSK9, apenas uma pequena parte das pessoas que poderia beneficiar deles os utiliza. Mesmo com a descida recente dos preços, muitos doentes não gostam de administrar injecções e, segundo a cardiologista Ann Marie Navar, a prescrição destes fármacos pode ser mais trabalhosa para os médicos.
O que mostrou o estudo com mais de 2.900 doentes de alto risco
Num estudo de grande dimensão, mais de 2.900 doentes considerados de alto risco foram distribuídos aleatoriamente para acrescentar ao seu tratamento habitual um comprimido diário de enlicitida ou um placebo.
Ao fim de seis meses, quem tomou enlicitida registou uma redução do colesterol LDL que chegou a 60%, de acordo com resultados publicados na Revista de Medicina da Nova Inglaterra (NEJM).
A investigadora principal, a cardiologista Ann Marie Navar, do Centro Médico da Universidade do Texas (UT Southwestern), salientou que existem outros comprimidos que podem ser associados às estatinas, mas que nenhum se aproxima, em magnitude, da descida de LDL observada com a enlicitida.
Segurança, duração do efeito e uma condição prática importante
Os investigadores observaram que o benefício se manteve com apenas uma ligeira diminuição ao longo de um ano. Também não foram detectadas diferenças relevantes de segurança entre o grupo que tomou enlicitida e o grupo placebo.
Há, no entanto, um ponto prático a ter em conta: a enlicitida tem de ser tomada em jejum, condição que pode influenciar a adesão ao tratamento em alguns doentes.
O papel das estatinas (como Lipitor e Crestor) e a necessidade de terapêuticas adicionais
Medicamentos como Lipitor e Crestor, ou as suas versões genéricas mais económicas, continuam a ser muito eficazes para reduzir LDL e mantêm-se como primeira linha. Ainda assim, quando a resposta não chega para cumprir metas, os clínicos podem necessitar de intensificar a terapêutica com fármacos adicionais - área onde uma opção oral com impacto comparável aos inibidores de PCSK9 poderia alterar significativamente a prática.
Financiamento, processo regulatório e próximos passos
O estudo foi financiado pela Merck, empresa que pretende usar estes dados - descritos como parte do conjunto final necessário - para pedir a aprovação do medicamento. A FDA (autoridade reguladora dos Estados Unidos) incluiu a enlicitida num programa que prevê avaliações ultrarrápidas.
O que ainda falta provar: menos enfartes, AVC e mortes
No comentário publicado na mesma revista, o médico William Boden, da Universidade de Boston e do Sistema de Saúde da Administração de Veteranos da Nova Inglaterra, considerou que os resultados constituem “evidência convincente” de que o novo comprimido baixa o colesterol numa ordem de grandeza semelhante à das injecções inibidoras de PCSK9.
Ainda assim, Boden advertiu que não existem, por agora, dados que comprovem que a redução do LDL com enlicitida se traduz directamente em menos enfartes, menos AVC e menor mortalidade - um tipo de evidência que, por norma, exige seguimentos mais longos do que um ano. Para responder a essa questão, a Merck tem em curso um estudo com mais de 14.000 doentes.
Medidas não farmacológicas: o que pode potenciar os resultados
Mesmo com terapêuticas muito eficazes, a redução do risco cardiovascular costuma beneficiar de uma abordagem combinada. Alimentação com menor teor de gorduras saturadas, aumento de fibra, prática regular de actividade física, cessação tabágica e controlo do peso podem contribuir para melhorar o perfil lipídico e outros factores de risco, como a tensão arterial e a glicemia.
Além disso, a monitorização periódica do colesterol LDL e a revisão do plano terapêutico com o médico ajudam a garantir que as metas são atingidas e mantidas, sobretudo em doentes com risco elevado, em que pequenas diferenças no LDL podem ter impacto clínico ao longo do tempo.
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