Saltar para o conteúdo

Mafuko e o nascimento raríssimo de gémeos de **gorila-das-montanhas** em Virunga

Gorila adulto abraça dois filhotes na natureza enquanto dois guardas-florestais observam ao fundo.

Nas encostas húmidas de Virunga, onde a neblina costuma assentar ao romper do dia, um registo pouco comum deixou as equipas de investigação em suspenso. Entre árvores antigas e o rumor baixo da floresta montana, uma fêmea de gorila-das-montanhas foi observada numa situação que quase ninguém chega a presenciar - um acontecimento capaz de mexer com probabilidades, séries históricas e, sobretudo, com o futuro de uma das espécies mais ameaçadas do planeta.

Uma observação raríssima no Parque Nacional de Virunga

Numa clareira do Parque Nacional de Virunga, na região dos Grandes Lagos - junto à fronteira entre a República Democrática do Congo, o Ruanda e o Uganda - a fêmea Mafuko, com 22 anos, surgiu com duas crias recém-nascidas apertadas contra o corpo.

O episódio ocorreu em janeiro de 2026. Os guardas florestais estranharam de imediato o que viam: confirmaram com binóculos, avançaram com a prudência habitual e, já a curta distância, perceberam que não havia engano. Eram dois bebés machos, com poucos dias de vida, e pertenciam à mesma ninhada.

O nascimento de gémeos em gorilas-das-montanhas é tão pouco frequente que ronda apenas 1% dos partos documentados.

Num animal com reprodução naturalmente lenta, a gemelaridade é quase uma excepção estatística. Em média, uma fêmea de gorila-das-montanhas tem uma cria a cada quatro anos; muitas passam a vida inteira com apenas três ou quatro descendentes.

De acordo com dados reunidos por instituições como o Dian Fossey Gorilla Fund, gestações múltiplas são quase inexistentes nas séries de longo prazo. No próprio Virunga, o último caso confirmado de gémeos tinha sido registado em 2020. Antes disso, em 2016, a própria Mafuko dera à luz um par de gémeos que acabou por morrer ao fim de poucos dias.

Porque é que uma gestação de gémeos é tão exigente para uma fêmea de gorila-das-montanhas

Se, para humanos, criar gémeos já impõe um esforço físico e emocional considerável, para uma gorila que vive em terreno íngreme, sob chuva frequente, com deslocações diárias longas e num contexto de risco constante, a exigência multiplica-se.

Os gorilas-das-montanhas deslocam-se usando os quatro membros. Mesmo ao transportar uma única cria, a mãe tem de reajustar a postura para garantir apoio e, ao mesmo tempo, manter a cria segura. Com duas crias, esse equilíbrio transforma-se num verdadeiro desafio de “logística corporal”.

  • Cada trajecto tende a exigir mais paragens para reposicionar as crias.
  • Um escorregão ou tropeção pode magoar uma ou as duas.
  • Situações de conflito entre grupos e predadores oportunistas aumentam a vulnerabilidade dos bebés.
  • O gasto energético cresce, elevando a pressão para encontrar alimento num ambiente competitivo.

A amamentação acrescenta outra camada de dificuldade. Produzir leite para uma cria já consome muito; para duas, a factura metabólica aumenta de forma acentuada. Primatólogas como Tara Stoinski, citada em reportagens internacionais, têm sublinhado que esta carga fisiológica ajuda a explicar as baixas taxas de sobrevivência de gémeos em gorilas.

Em populações de gorilas em áreas próximas, cerca de um terço das crias morre antes de atingir a idade adulta, mesmo quando a gestação é única.

Nos primeiros dias após o nascimento, as equipas do parque reforçaram as rondas e a vigilância à distância, registando comportamentos, padrões de deslocação e sinais de stress. O princípio é permitir que a natureza siga o seu curso, mas sem ignorar que, para uma espécie com números reduzidos, cada indivíduo pesa no futuro colectivo.

Virunga: santuário natural sob pressão de conflitos e caça furtiva

Virunga não é apenas um nome num mapa. Criado no início do século XX, é a área protegida mais antiga de África e Património Mundial reconhecido pela UNESCO. No seu interior coexistem vulcões, florestas montanas e zonas húmidas, além de elefantes, hipopótamos, chimpanzés e, naturalmente, os emblemáticos gorilas-das-montanhas.

Ao mesmo tempo, parte do território vive num estado de instabilidade prolongada. Grupos armados, como o M23, disputam áreas estratégicas, exploram recursos naturais e colocam em risco comunidades locais. Por isso, em Virunga, os guardas florestais patrulham armados - não por escolha, mas por necessidade operacional.

Indicador 2008 2021–2026 (estimativas)
Gorilas-das-montanhas na natureza cerca de 680 mais de 1.000
Classificação na Lista Vermelha da IUCN “criticamente em perigo” “em perigo”
Gorilas em Virunga sem estimativa consolidada divulgada cerca de 350 em 2021

O aumento da população global - de menos de 700 para mais de mil indivíduos em pouco mais de uma década - não aconteceu ao acaso. Resultou de monitorização continuada, apoio veterinário, combate ao tráfico de animais e trabalho com as comunidades do entorno do parque.

Um factor adicional, muitas vezes ignorado, é o papel do turismo de natureza quando bem gerido. Visitas controladas, com regras de distância e número limitado de pessoas, podem canalizar receitas para protecção, salários, infra-estruturas e programas comunitários - criando incentivos para que a conservação tenha benefícios concretos para quem vive perto do parque.

Também a saúde pública entra na equação. Como os grandes primatas são vulneráveis a infecções respiratórias humanas, protocolos como uso de máscara, quarentenas quando necessário e limitação de aproximação tornam-se medidas de conservação. Num cenário em que uma mãe já está sob pressão por amamentar duas crias, evitar doença pode ser a diferença entre sobrevivência e perda.

Mafuko e os gorilas-das-montanhas: de órfã a símbolo de resistência

A história de Mafuko ajuda a perceber por que motivo este nascimento atraiu tanta atenção. Ficou órfã aos quatro anos e sobreviveu a um ataque associado à presença humana. Mais tarde, foi integrada noutro grupo, conhecido como família Bageni.

Desde então, Mafuko teve sete crias no total, incluindo os gémeos de 2026. Num contexto marcado por caça ilegal, risco de doença e perda de habitat, uma fêmea com elevada contribuição reprodutiva torna-se relevante para a diversidade genética e para a estabilidade demográfica da população.

Os gémeos de Mafuko não são apenas uma raridade: são um teste vivo à capacidade de adaptação da espécie sob pressão.

Para a gestão do parque, cada nascimento reforça uma mensagem maior: conservar Virunga não é um tema apenas local. É proteger uma linhagem de grandes primatas com comportamento social complexo, aprendizagem avançada e sinais de luto - características que nos lembram, de forma desconfortável, o quão próxima é a fronteira entre “nós” e “eles”.

O que este nascimento pode alterar na conservação dos gorilas

Um par de gémeos, por si só, não reescreve as estatísticas globais. Ainda assim, acontecimentos deste tipo produzem efeitos indirectos importantes.

Por um lado, deslocam o foco mediático de uma região que, muitas vezes, só surge nas notícias por causa de violência armada. Por outro, podem facilitar a captação de financiamento para trabalho de campo - essencial para manter guardas florestais, veterinários e equipas científicas activos numa zona remota e perigosa.

Do ponto de vista prático, um caso de gemelaridade pode abrir (ou reforçar) linhas de investigação como:

  • estudos sobre a fisiologia de fêmeas que sustentam gestações múltiplas;
  • análises genéticas para avaliar se existe componente hereditária associada à gemelaridade;
  • acompanhamento detalhado do crescimento dos dois bebés e comparação com crias únicas;
  • avaliação do impacto deste esforço na saúde de longo prazo da mãe.

Com melhor evidência, torna-se possível afinar protocolos de gestão, clarificar prioridades em emergências e até apoiar decisões noutros parques com populações menores de gorilas.

Conceitos essenciais para interpretar o caso: taxa reprodutiva e mortalidade infantil

Dois conceitos aparecem repetidamente quando se fala de gorilas-das-montanhas: taxa reprodutiva e mortalidade infantil.

A taxa reprodutiva baixa significa que qualquer perda demora muito a ser compensada. A morte de um adulto por armadilhas ou caça furtiva não é “substituída” por um nascimento imediato: como há intervalos de quatro anos (ou mais) entre crias, a reposição populacional é lenta por definição.

Já a mortalidade infantil elevada funciona como um travão permanente. Se cerca de um terço das crias não chega à idade adulta, então tudo o que acrescente risco - como transportar e alimentar dois bebés num ambiente difícil - torna-se motivo de vigilância redobrada. É por isso que biólogos e equipas do parque acompanham Mafuko de perto, registando progressos e sinais de alerta.

O que pode acontecer aos gémeos nos próximos anos

Se a evolução for favorável, os dois machos deverão atravessar fases relativamente previsíveis. Nos primeiros meses, permanecerão quase sempre agarrados à mãe. Mais tarde, começam a gatinhar, a trepar ramos baixos, a brincar e a interagir com irmãos e outros membros do grupo.

A adolescência, nos gorilas, costuma trazer mudanças de comportamento e disputas de hierarquia. Frequentemente, machos jovens afastam-se do grupo natal e procuram formar o seu próprio bando. Dois irmãos gémeos podem, em teoria, manter-se juntos nessa etapa e criar uma aliança invulgar - algo com potencial para influenciar futuras dinâmicas sociais na população.

Para quem trabalha em conservação, imaginar estes cenários vai além da curiosidade: serve para planear a longo prazo. Quantos grupos o parque consegue sustentar? Que zonas exigem maior protecção? Quantos indivíduos em idade reprodutiva existem em cada área?

No fim, a imagem de dois pequenos gorilas-das-montanhas nos braços de Mafuko é um lembrete directo: mesmo num território marcado por armas, milícias e pressão sobre a natureza, a vida continua a encontrar espaço. A decisão humana, agora, é saber se esse espaço vai aumentar - ou desaparecer.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário