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Fósseis em caverna marroquina revelam ponto de encontro na evolução dos humanos modernos.

Explorador arqueólogo a examinar um fóssil na escavação, com caderno, pá e equipamento de análise.

Os ossos antigos encontrados numa gruta em Casablanca, Marrocos, poderão ajudar a esclarecer lacunas importantes na história da evolução humana.

A cavidade, conhecida como Grotte à Hominidés, guarda um conjunto de fósseis - maxilares, dentes e vértebras - datados de há 773 000 anos, uma fase muito próxima do período em que a linhagem dos humanos modernos começou a separar-se dos antepassados comuns partilhados com Neandertais e Denisovanos.

Grotte à Hominidés (Casablanca, Marrocos) e a evolução humana em África

Segundo análises detalhadas, os restos pertenceram a uma população africana antiga de hominíneos que viveu junto a este “cruzamento” evolutivo. O conjunto apresenta uma combinação em mosaico: alguns traços antecipam características observadas mais tarde em H. sapiens e em Neandertais, enquanto outros parecem mais arcaicos e herdados de membros anteriores do género Homo.

Este resultado contribui para fixar com mais segurança as origens da humanidade em África, reduzindo a incerteza gerada por fósseis europeus de Homo antecessor, que têm idades semelhantes e têm alimentado interpretações concorrentes sobre onde e como ocorreu a divergência inicial das linhagens.

“Os fósseis da Grotte à Hominidés poderão ser, neste momento, os melhores candidatos que temos para populações africanas próximas da raiz desta ancestralidade partilhada, reforçando assim a ideia de uma origem africana profunda para a nossa espécie”, afirma o antropólogo Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, que liderou o estudo.

Porque é tão difícil reconstituir a história evolutiva humana

A evolução humana é um percurso irregular: complexo, incompleto e, em grande medida, apagado pela passagem do tempo e pela degradação natural. Mesmo quando existem fósseis, estes tendem a ser fragmentários e ambíguos, e a interpretação fica muitas vezes limitada por um problema recorrente: a datação. Não é raro que muitos vestígios de hominíneos acabem atribuídos a intervalos temporais largos, precisamente porque faltam marcadores geológicos inequívocos.

Neste contexto, os fósseis da Grotte à Hominidés destacam-se - e é isso que os torna particularmente apelativos para os investigadores.

Datação precisa pela inversão Matuyama–Brunhes

De tempos a tempos, os polos magnéticos da Terra invertem-se. Esses episódios ficam registados nas rochas, porque materiais ferromagnéticos presentes nos sedimentos se reorganizam de acordo com o novo alinhamento do campo magnético. A inversão mais recente deste tipo é a inversão Matuyama–Brunhes, ocorrida por volta de há 773 000 anos, e que poderá ter durado pelo menos alguns milhares de anos.

Na Grotte à Hominidés, o registo sedimentar desta inversão aparece de forma extremamente nítida - e os ossos fossilizados foram encontrados na mesma camada que contém a assinatura da inversão magnética. Isto permite atribuir-lhes uma idade de 773 000 anos com grande limpeza e precisão, exatamente dentro do intervalo em que muitos antropólogos consideram que a divergência humana já estaria em curso.

Em termos práticos, isto significa que, graças ao contexto sedimentar, estes restos são de uma população que viveu num momento crítico da história humana - e, a partir daí, o passo seguinte foi perguntar: o que revelam os ossos sobre essa população?

O que os ossos mostram: maxilares, dentes, vértebras e um fémur

O material hominíneo identificado na gruta inclui dois maxilares de adultos e um maxilar de uma criança muito pequena. Além disso, foram recolhidos alguns dentes e vértebras, bem como parte de um fémur.

Apesar de serem poucos, estes fragmentos podem conter informação decisiva. Os maxilares, por exemplo, são descritos como compridos, baixos e estreitos, com uma articulação recuada - um conjunto de características que se afasta do padrão de humanos modernos e de Neandertais e que se aproxima mais de representantes antigos do género Homo, como Homo erectus.

Já os dentes, por contraste, apresentam dimensões relativamente pequenas, mais semelhantes às de humanos modernos.

A equipa recorreu a tomografia computorizada (TC) para analisar uma estrutura interna dos dentes, a junção esmalte-dentina. A forma dessa junção exibiu semelhanças com H. erectus e com H. antecessor, mas, ao mesmo tempo, mostrou-se claramente distinta de ambos.

“Nas suas formas e em traços não métricos, os dentes da Grotte à Hominidés preservam muitas características primitivas e não apresentam os traços que são típicos dos Neandertais”, diz a antropóloga Shara Bailey, da Universidade de Nova Iorque.

“Deste ponto de vista, diferem de Homo antecessor, que - em alguns aspetos - começa a aproximar-se dos Neandertais. As análises morfológicas dentárias indicam que diferenças regionais em populações humanas poderão já existir no final do Pleistocénico Inferior.”

O que isto sugere sobre H. antecessor e a linhagem africana

Tendo em conta a separação geográfica entre H. antecessor (Europa) e os novos fósseis marroquinos, os autores consideram provável que se tratasse de grupos distintos. No seu cenário, a população da Grotte à Hominidés pertenceria a uma linhagem-tronco africana que mais tarde daria origem a humanos modernos, enquanto H. antecessor representaria uma população-irmã relacionada, do lado eurasiático, na fase inicial de divisão das linhagens humanas.

Entretanto, o padrão em mosaico observado na Grotte à Hominidés aponta para um período de transição. No conjunto, a combinação de traços indica que estes fósseis devem ser colocados no ramo africano da linhagem evolutiva dos humanos modernos. É improvável que representem o último ancestral comum entre humanos modernos e os seus parentes, mas a proximidade temporal e morfológica é suficiente para oferecer pistas novas sobre como a divergência poderá ter acontecido.

Porque o Magrebe pode ser uma região-chave

Para além do valor dos fósseis, a localização no Magrebe acrescenta contexto a um tema central: o Norte de África pode ter funcionado como uma zona de ligação e circulação de populações ao longo do Pleistocénico, alternando entre fases mais húmidas e mais áridas que modificavam paisagens, disponibilidade de recursos e rotas de dispersão. Integrar estes cenários ambientais com fósseis bem datados ajuda a perceber não apenas “quem” ali viveu, mas também “como” mudanças ecológicas podem ter condicionado encontros, separações e continuidade populacional.

Este tipo de descoberta também sublinha a importância de combinar geologia e anatomia: quando a cronologia é robusta (como no caso do registo magnético), torna-se mais seguro comparar padrões morfológicos entre regiões e testar hipóteses sobre a estrutura das populações antigas - incluindo quando e onde surgiram diferenças regionais.

Implicações para a origem de H. sapiens e o clado Neandertal–Denisovano

“A origem de H. sapiens, e o momento exato da divergência das suas populações ancestrais em relação ao clado Neandertal–Denisovano, continuam a ser temas de debate”, escrevem os investigadores no artigo.

“Os nossos resultados não só são consistentes com a estrutura filogenética inferida a partir de dados paleogenéticos, como também destacam o Magrebe como uma região decisiva para compreender o aparecimento da nossa espécie, reforçando a hipótese de uma ancestralidade africana - e não eurasiática - de H. sapiens.”

A investigação foi publicada na revista científica Nature.

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