Pouco mais de dois meses depois de ter sido confirmada a retirada, no Médio Oriente, dos navios de contramedidas de minas da classe Avenger, a Marinha dos Estados Unidos voltou a mexer no seu dispositivo: dois Littoral Combat Ship (LCS) configurados para guerra de minas seguiram em direcção ao Pacífico. Segundo a própria instituição, a presença destas unidades na Malásia corresponde apenas a uma paragem logística e não a um desvio operacional motivado pela ofensiva contra o Irão.
USS Tulsa (LCS-16) e USS Santa Barbara (LCS-32) em escala logística na Malásia (Marinha dos EUA)
As duas plataformas em causa - o USS Tulsa (LCS-16) e o USS Santa Barbara (LCS-32) - foram fotografadas a 15 de Março no North Butterworth Container Terminal (NBCT), na Malásia.
Em declarações ao meio especializado The War Zone, o porta-voz do Naval Forces Central Command (NAVCENT), o Comandante Joe Hontz, afirmou:
“O Tulsa e o Santa Bárbara estão a efectuar breves escalas logísticas em portos na Malásia. As forças dos EUA realizam rotineiramente escalas em portos malaios no âmbito das nossas operações, reflectindo a cooperação militar estreita e duradoura entre os Estados Unidos e a Malásia.”
Até ao momento, não foram divulgados pormenores sobre o tempo de permanência, nem foi indicado se houve destacamento de outros meios como substituição. Também não foi referido o paradeiro do USS Canberra (LCS-30), outro LCS que vinha desempenhando missões de contramedidas de minas no Médio Oriente.
Contexto: LCS em contramedidas de minas após destacamento no Barém
Importa recordar que tanto o USS Tulsa (LCS-16) como o USS Santa Barbara (LCS-32) estavam destacados no Barém desde o ano passado. O país foi um dos alvos de ataques iranianos após o início das hostilidades no âmbito da Operação Epic Fury.
Para assumir a função de contramedidas de minas, ambos foram adaptados com um conjunto de equipamentos específicos de guerra de minas, incluindo:
- Sonar rebocado para detecção;
- Drones navais de superfície configurados para missões de varrimento;
- Embarque de um helicóptero MH-60 Seahawk.
Críticas às capacidades: dimensões, casco metálico e limitações dos sistemas
Apesar de os LCS representarem um salto de capacidades face aos envelhecidos navios de contramedidas de minas da classe Avenger, estas plataformas têm sido alvo de críticas por parte de analistas e oficiais norte-americanos.
Entre as objecções mais citadas estão:
- Dimensão: o tamanho dos LCS é apontado como pouco ajustado às águas onde se prevê a sua actuação;
- Casco metálico: para guerra de minas, considera-se menos adequado do que a abordagem tradicional, na qual se usavam cascos de madeira revestidos a fibra de vidro.
Há ainda relatos de problemas em alguns dos meios associados à missão. Em ocasiões anteriores, os drones terão apresentado dificuldades no radar para detectar potenciais ameaças. Também o sistema de detecção de minas AN/AQS-20 terá registado falhas mesmo com mar relativamente calmo.
Um navio multimissão em tarefas de elevada exigência, incluindo o Estreito de Ormuz
Um ponto adicional é o próprio conceito do Littoral Combat Ship: foi pensado como um navio multimissão, e não como uma plataforma dedicada exclusivamente às contramedidas de minas. Para além dos aspectos técnicos, isto tem consequências relevantes para as guarnições, que precisam de formação especializada para operar com eficácia em ambientes particularmente complexos como o Médio Oriente, com destaque para o Estreito de Ormuz.
Em cenários deste tipo, a componente humana (treino, procedimentos e coordenação com outros meios) torna-se tão determinante quanto o equipamento, sobretudo quando a ameaça pode incluir minas, drones e ataques assimétricos perto de portos e rotas comerciais.
Um trânsito recente que alimenta dúvidas sobre riscos no teatro próximo do Irão
De acordo com analistas norte-americanos, o USS Tulsa (LCS-16) e o USS Santa Barbara (LCS-32) permaneceram no Barém pelo menos até ao início de Fevereiro, enquanto o USS Canberra (LCS-30) terá estado na região, no mínimo, até ao final de Janeiro. Isso sugere que a deslocação rumo ao Pacífico ocorreu há pouco tempo.
Ainda que a explicação oficial aponte para uma escala de rotina na Malásia, este contexto tem alimentado suspeitas de que existam preocupações acrescidas com ataques iranianos contra navios que não estão fortemente armados para resistir a esse tipo de ameaça, sobretudo quando se encontram atracados.
Capacidade reduzida de contramedidas de minas perto do Irão e abate da classe Avenger
Independentemente da justificação apresentada, o resultado prático é que a Marinha dos Estados Unidos passa a dispor de uma capacidade de contramedidas de minas significativamente mais limitada em águas próximas do Irão. Tal deve-se não só à saída dos Littoral Combat Ship para o Pacífico, mas também ao regresso aos Estados Unidos de navios mais antigos da classe Avenger.
Conforme noticiado, os navios USS Devastator (MCM-6), USS Dextrous (MCM-13), USS Gladiator (MCM-11) e USS Sentry (MCM-3) já chegaram a Filadélfia a bordo do M/V Seaway Hawk. A empresa Sealift Inc. deverá avançar com o desmantelamento, num processo para o qual Washington terá destinado cerca de 7 milhões de dólares. Os últimos quatro navios desta classe ainda ao serviço encontram-se no Japão, à espera de um destino semelhante nos próximos anos.
Nota adicional: a importância estratégica da guerra de minas na região
A guerra de minas continua a ser uma componente crítica para a segurança marítima, sobretudo em estrangulamentos geográficos como o Estreito de Ormuz, por onde circula uma parte substancial do tráfego energético e comercial. Mesmo a simples ameaça de minagem pode elevar custos, impor desvios e exigir operações demoradas de detecção e limpeza, com impacto imediato no ritmo das operações e na confiança dos operadores civis.
Cooperação e presença: o papel de escalas e parceiros regionais
Escalas logísticas em portos aliados e parceiros - como as efectuadas na Malásia - têm também uma dimensão operacional: permitem reabastecimento, manutenção, rotação de equipas e reforço da interoperabilidade. Num contexto em que meios especializados podem ser limitados, a coordenação com parceiros e a integração de capacidades (incluindo sistemas não tripulados) tende a ganhar peso como multiplicador de força.
Imagens utilizadas apenas para fins ilustrativos.
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