Estamos prestes a ver chegar uma nova fornada de elétricos mais acessíveis da Volkswagen. A receita passa por um recuo assumido face aos primeiros modelos ID. - no desenho exterior, no ambiente a bordo e até na forma como são batizados -, aproximando-se do que os clientes tradicionais da marca tendem a preferir. Em paralelo, há um avanço importante na base tecnológica, visível tanto na química das baterias como no acerto da capacidade para cada versão.
Depois do ID. Polo, foi a vez de conhecer o seu equivalente em formato utilitário desportivo (SUV): o Volkswagen ID. Cross, pensado como sucessor natural do T-Cross com motor de combustão.
As afinidades percebem-se de imediato nas dimensões e proporções. Mesmo com a camuflagem típica das unidades de pré-série, o estilo fica muito perto do protótipo apresentado no Salão de Munique, em setembro do ano passado - e que tivemos oportunidade de experimentar.
Visual e identidade: menos futurismo, mais Volkswagen no ID. Cross
No exterior, não são esperadas alterações relevantes face ao protótipo. Já no interior, Andreas Mindt e a sua equipa procuraram dar ao habitáculo um carácter mais acolhedor do que o de alguns ID. que já circulam nas nossas estradas: há mais superfícies de toque macio, uma paleta cromática mais harmoniosa, mais comandos físicos e até apontamentos de inspiração retro (Golf I) na instrumentação, para reforçar a ligação ao passado da Volkswagen.
O tablier também adota uma composição horizontal, alinhando visualmente o painel de instrumentos (10,3″) com o ecrã central do sistema de infoentretenimento (12,9″).
No painel de instrumentos, destaca-se a “vista retro”: velocímetro clássico à esquerda e, à direita, um mostrador que faz as vezes de conta-rotações - embora aqui não se contem rotações, mostrando antes a potência entregue ou recuperada pelo motor elétrico. Pessoalmente, acabei por preferir a apresentação mais moderna e depurada, porque a opção retro me cansou mais (muito ruído gráfico). É uma questão de gosto.
Mais botões: uma decisão acertada no Volkswagen ID. Cross
O volante multifunções - com topo e base aplanados - foi totalmente redesenhado. À esquerda concentram-se as funções dos sistemas de assistência à condução, o regulador de velocidade adaptativo (consoante a versão) e o volume do áudio. À direita, controlamos o painel digital e ativamos os comandos por voz. Atrás do volante mantém-se a pequena haste para gerir a transmissão.
A climatização passa a ter comandos físicos numa linha de botões ao centro do tablier; logo abaixo fica a bandeja de carregamento sem fios para o telemóvel (opcional). A iluminação ambiente também ganha muito mais opções de personalização.
O novo T-Roc “emprestou” as suas manetes das portas ao ID. Cross. E, já que falamos de portas, há uma alteração pequena mas muito relevante face a outros ID.: em vez de dois botões comutáveis para vidros dianteiros e traseiros, há finalmente quatro botões dedicados para os quatro vidros elétricos.
A bordo, a perceção é de construção robusta, embora alguns revestimentos sejam estruturalmente rígidos, com uma camada fina de material suave ou aplicação de tecido em determinadas zonas.
Compacto por fora, generoso por dentro no ID. Cross
O ID. Cross mede 4,153 m de comprimento, apenas ligeiramente acima do T-Cross (+2,6 cm). A distância entre eixos cresce 5 cm, para 2,601 m, igual à do iminente ID. Polo. Como é habitual num automóvel concebido de raiz como elétrico, isto traduz-se numa habitabilidade mais folgada para quem viaja na segunda fila.
É possível transportar cinco adultos: tomando como referência uma pessoa com 1,80 m, há cerca de três dedos de folga acima da cabeça até ao tejadilho e quatro dedos entre os joelhos e as costas dos bancos dianteiros. Na zona central traseira existem saídas de ventilação diretas, embora sem regulação própria de temperatura ou intensidade do fluxo. O piso plano ajuda a acomodar um quinto ocupante, ainda que o lugar central continue a ser o mais estreito.
A bagageira oferece 475 litros, mais 20 litros do que a do T-Cross e praticamente mais 100 litros do que a do Golf. Sob o piso há um compartimento profundo que a marca diz conseguir levar duas grades de bebidas. À frente existe ainda um porta-bagagens dianteiro com 22 litros, particularmente indicado para guardar os cabos de carregamento.
Nota prática para o dia a dia (Portugal)
Num SUV compacto elétrico como o ID. Cross, o salto de habitabilidade e o desenho do piso plano fazem diferença sobretudo em uso familiar: cadeiras de criança, mochilas e compras beneficiam da bagageira ampla e do espaço adicional para arrumação. Para quem carrega muitas vezes fora de casa, a existência de um compartimento dianteiro dedicado ajuda a manter os cabos sempre acessíveis e separados da bagagem.
Três motores, duas baterias e a plataforma MEB+ no Volkswagen ID. Cross
Tal como o ID. Polo, o ID. Cross assenta na plataforma MEB+ e recorre a tração dianteira, afastando-se do restante universo ID. (normalmente de tração traseira ou integral). Desde o e-Up e o e-Golf que a Volkswagen não juntava um sistema elétrico a tração dianteira.
As semelhanças com o ID. Polo estendem-se ao motor APP290 e às baterias de iões de lítio. Estão previstos três patamares de potência:
- 85 kW (116 cv)
- 99 kW (135 cv)
- 155 kW (211 cv)
E duas capacidades de bateria:
- 37 kWh (LFP, uma estreia na marca alemã)
- 52 kWh (NMC)
As autonomias em ciclo combinado WLTP (a confirmar) situam-se entre 316 km e 436 km, respetivamente.
Apesar da diferença de capacidade, as duas baterias ocupam um volume semelhante, já que a química NMC apresenta uma densidade energética superior em cerca de 30%. Segundo a explicação dada, isto permite alcançar potências de carregamento mais elevadas e também maior eficiência no funcionamento dos motores.
No carregamento em corrente alternada (AC), ambas as versões ficam em 11 kW. Em corrente contínua (DC), os valores máximos anunciados são:
- até 90 kW (bateria de 37 kWh)
- até 105 kW (bateria de 52 kWh)
É menos do que noutros ID. (por exemplo, 145 kW no ID.3), mas Matthias Baehr, responsável pelo desenvolvimento do sistema de propulsão, sublinha que o objetivo foi a “continuidade de carga acima dos 100 kW”, mantendo-se esse patamar entre 40% e 72% do estado de carga.
O que isto significa na prática (sem promessas fáceis)
Mais do que um pico elevado, interessa a forma como a potência se mantém durante a sessão de carregamento. Em utilização real, a consistência entre determinados níveis de carga pode traduzir-se em paragens mais previsíveis em viagem, dependendo naturalmente do posto, da temperatura da bateria e das condições exteriores.
Chassis: soluções novas para a tração dianteira
Também ao nível do chassis há alterações relevantes. A adoção da tração dianteira na MEB+ permitiu montar atrás um eixo traseiro semirrígido de torção, muito compacto, com apoios de borracha nas molas e casquilhos com tecnologia orientada para reduzir vibrações e ruído.
À frente, surge um esquema MacPherson, com um sistema específico para gerir as forças de compressão que atuam sobre o amortecedor, além de montantes mais rígidos na barra estabilizadora.
Questionado sobre a possibilidade de versões com quatro rodas motrizes, Andreas Rickmann, engenheiro responsável pelo desenvolvimento do chassis, esclarece que não: isso obrigaria a desenvolver um eixo traseiro independente, completamente diferente, e “não há mercados suficientes - pouco mais do que Suíça, Áustria e as zonas mais elevadas da Alemanha - para justificar esse investimento adicional”.
Em contrapartida, está previsto um diferencial autoblocante no eixo dianteiro, para tornar a condução mais segura e eficaz em pisos escorregadios e em estradas mais sinuosas.
Ao volante do Volkswagen ID. Cross em Amesterdão
Não foi o caso nos arredores de Amesterdão, onde predominam vias retas e sem grandes desníveis - um cenário perfeito para os muitos milhares de ciclistas que pedalam diariamente por estas bandas.
Conduzi a versão de 211 cv, a mais potente e com melhores prestações: acelera dos 0 aos 100 km/h em 7,4 s e fica limitada a 160 km/h de velocidade máxima (nas duas versões menos potentes, o limite é 150 km/h).
Uma das primeiras melhorias notadas foi o tato e a resposta do pedal do travão, agora mais prontos e lineares graças a uma arquitetura de travagem integrada, o que melhora a articulação entre travagem regenerativa e travagem hidráulica.
É igualmente positivo que existam agora discos de travão nas rodas traseiras, algo de que os primeiros ID. prescindiam, já que a regeneração era muito dominante e o motor elétrico estava montado sobre o eixo traseiro.
Depois, há uma surpresa agradável no comportamento dinâmico: o ID. Cross destaca-se por um compromisso convincente entre estabilidade e conforto e, acima de tudo, por transmitir uma sensação de leveza pouco comum num elétrico - onde é frequente sentir-se o peso concentrado na base, devido à bateria de centenas de quilos. Isso é ótimo para baixar o centro de gravidade, mas nem sempre favorece a agilidade.
Rickmann explica que “esse foi um dos principais objetivos do desenvolvimento dinâmico: que o ID. Cross se guiasse mais como um Volkswagen com motor de combustão”. A sensação é que a meta foi atingida.
A integridade da carroçaria também merece nota positiva, mesmo em pisos degradados ou em transferências de massa mais exigentes. A direção é suficientemente rápida e comunicativa (2,8 voltas entre batentes), mas não detetei diferenças claras de peso ou resposta entre modos de condução, mesmo entre os extremos Económico e Desportivo. O mesmo se verificou na resposta do acelerador.
A estratégia de regeneração também é nova. Com a haste da transmissão na posição B, podemos optar por regeneração máxima (quase uma condução com um só pedal, dispensando em grande parte o travão) ou escolher uma regeneração mais moderada através do ecrã central. Em posição D, não existe regeneração, a menos que seja selecionado o modo Desportivo.
Preço: a partir de quanto?
O novo Volkswagen ID. Cross deverá chegar ao mercado nacional em novembro, com preços a começar ligeiramente abaixo dos 30 mil euros na versão com bateria de 37 kWh - cerca de cinco mil euros acima do ID. Polo de entrada.
Especificações (valores divulgados/indicativos):
| Característica | Volkswagen ID. Cross |
|---|---|
| Plataforma | MEB+ |
| Tração | Dianteira |
| Potências | 85 kW (116 cv) / 99 kW (135 cv) / 155 kW (211 cv) |
| Baterias | 37 kWh (LFP) / 52 kWh (NMC) |
| Autonomia WLTP (a confirmar) | 316 km a 436 km |
| Carregamento AC | 11 kW |
| Carregamento DC (máx.) | 90 kW (37 kWh) / 105 kW (52 kWh) |
| Comprimento | 4,153 m |
| Distância entre eixos | 2,601 m |
| Bagageira traseira | 475 L |
| Porta-bagagens dianteiro | 22 L |
| 0–100 km/h (211 cv) | 7,4 s |
| Velocidade máxima | 160 km/h (211 cv) / 150 km/h (restantes) |
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