Há marcas que edificam a sua reputação com décadas de coerência. A Maserati, pelo contrário, foi criando o seu mito com ciclos de brilho e de hesitação - e, apesar disso, manteve-se viva e capaz de seduzir. Ainda assim, os últimos anos puxaram essa resistência ao limite.
O contraste é difícil de ignorar: depois de ter colocado 51 mil unidades na estrada em 2017, a marca não chegou às 8000 unidades em 2025, o que representa o seu pior resultado desde 2012. Para enquadrar a dimensão do problema, a Ferrari, que restringe propositadamente a produção, acabou por vender quase o dobro.
O que levou a Maserati a este ponto (e o que a Stellantis diz que não vai fazer)
As razões acumulam-se e não se explicam por um único erro. Por um lado, houve a saída de cena de pilares da gama - Ghibli, Levante e Quattroporte - sem que existissem substitutos prontos para ocupar esse espaço. Por outro, a aposta na electrificação com as variantes Folgore não encontrou, até agora, a procura que a marca antecipava no mercado.
Pouco antes de deixar a liderança da Stellantis, Carlos Tavares apontou o dedo sobretudo ao marketing: na sua visão, a Maserati estava mal posicionada e a mensagem não estava a chegar aos clientes certos.
Entretanto, no final de 2024, entrou um novo diretor-executivo, Santo Ficili, que acumula a chefia da Maserati com a da Alfa Romeo, com um objectivo directo: relançar a marca do tridente. Já em junho de 2025, a chegada de uma nova administração na Stellantis, liderada por Antonio Filosa, empurrou o calendário para a frente e levou ao adiamento dos planos.
No meio desta instabilidade, surgiram também rumores de venda. A Stellantis desmentiu-os e tem sido clara: a Maserati continua a ser a sua única marca de luxo e não está à venda.
Um factor adicional - muitas vezes decisivo no luxo - é a consistência da experiência fora do produto: rede, acompanhamento pós-venda e a forma como o cliente é tratado antes e depois da compra. Num segmento em que alternativas não faltam, reforçar serviço, disponibilidade e confiança pode ser tão importante como lançar um novo modelo.
Fazer menos, mas melhor: Fuoriserie, Modena e uma narrativa mais artesanal
Para já, o caminho que a Maserati parece estar a escolher passa por reduzir dispersão e apostar em execução: menos, mas melhor. Nesse contexto, o programa Fuoriserie de personalização avançada ganhou relevância estratégica, reforçando a ideia de exclusividade e diferenciação.
A própria organização industrial foi alinhada com essa narrativa: a produção do GranTurismo e do GranCabrio ficou concentrada em Modena, ao lado do MCPura, criando uma leitura mais artesanal - e coerente - para uma marca com a história e o património da Maserati.
Não é uma resposta para tudo, mas pode ser o primeiro passo. O próximo momento-chave deverá ser em maio, quando Antonio Filosa apresentar o novo plano industrial da Stellantis; espera-se que aí fique mais claro o rumo para esta marca italiana que continua a apaixonar como poucas.
Maserati GranTurismo e GranCabrio vão ser actualizados
No curto prazo, há uma certeza: não haverá novos Maserati este ano. A novidade mais relevante passa pela actualização do GranTurismo e do GranCabrio, num exercício que deverá seguir a lógica já vista na transição do MC20 para o MCPura.
Protótipos apanhados em testes apontam para uma intervenção contida, mas fácil de detectar: uma grelha dianteira redesenhada, com entradas de ar maiores e mais angulares (aproximando-se dos códigos visuais do MCPura), um difusor traseiro revisto no GranCabrio e, em algumas unidades, farolins traseiros transparentes.
O 3.0 V6 biturbo Nettuno deverá manter-se em catálogo. Ainda não é claro se com os mesmos patamares de potência - 490 cv e 550 cv -, mas existe margem para crescer; afinal, no MCPura chega aos 630 cv. Já a variante eléctrica Folgore poderá receber alterações mais profundas, mesmo que não seja tanto ao nível do desempenho, mas sobretudo em eficiência e autonomia.
Também há sinais de que o habitáculo possa ser actualizado, incluindo a vertente tecnológica e o infoentretenimento. A estreia deverá acontecer antes do verão, com entregas já durante 2026.
Outra peça do puzzle será perceber como a Maserati vai gerir, nos próximos anos, o equilíbrio entre Nettuno e Folgore. Entre exigências de emissões, preferências regionais e a necessidade de volumes sustentáveis, a estratégia de produto terá de ser mais clara do que foi até aqui.
Futuro por definir: Levante e Quattroporte continuam como as grandes ausências
Para lá desta actualização, o que vem depois permanece envolto em incerteza - sobretudo no que diz respeito aos sucessores do Levante e do Quattroporte, hoje as duas ausências mais pesadas na gama. Estes modelos já deveriam ter chegado, mas foram empurrados para 2028 e 2029, respectivamente. Ainda assim, neste momento, não existem indícios sólidos de que os projectos estejam efectivamente em andamento.
Mais detalhes deverão surgir em breve, mas uma ideia parece inevitável: a Maserati que chegou a 2026 não pode continuar exactamente como está.
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