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Neve fina, chamas intensas: Invernos secos podem causar incêndios florestais mais graves.

Bombeiro em equipamento a combater incêndio em campo seco com montanhas e neve ao fundo.

Nas regiões montanhosas do oeste da América do Norte, este inverno tem sido, em muitos locais, pobre em neve. Aquilo que para as estâncias de esqui é sobretudo um incómodo revela-se, segundo um estudo recente, como um sinal de alarme sério para o verão: quando o manto de neve entra fraco no inverno, não só aumenta o número de incêndios florestais, como tende a crescer a sua intensidade do incêndio.

Menos neve no inverno, mais incêndios florestais no verão: o alerta do manto de neve

Investigadores da Western Colorado University analisaram 36 anos de registos sobre cobertura de neve e incêndios florestais em áreas florestais do oeste dos Estados Unidos. A conclusão central é clara: a reserva de neve - a água “guardada” no manto de neve - não determina apenas quando começa a época de incêndios, mas influencia diretamente a violência com que os fogos acabam por arder.

Um manto de neve fino retira à floresta a sua “conta poupança” de água: o amortecedor natural encolhe e o risco de fogo sobe.

Quando as reservas de neve são reduzidas, os solos perdem humidade mais cedo. Árvores, arbustos e ervas desidratam com maior rapidez, acumula-se biomassa inflamável e a humidade do combustível cai. Nestas condições, uma ignição relativamente comum - um raio, uma avaria num poste de eletricidade ou uma fogueira mal apagada - pode desencadear incêndios de grande extensão, mais quentes e mais destrutivos.

Dois problemas de neve, dois efeitos diferentes

O estudo separa dois processos que muitas vezes são confundidos:

  • Degelo precoce: a neve desaparece mais cedo no ano, a paisagem seca mais rapidamente, a época de incêndios arranca antes e prolonga-se.
  • Baixa quantidade de água na neve: a água total armazenada no manto (independentemente do dia exato do degelo) é pouca. Isto reflete-se diretamente na intensidade do incêndio.

Enquanto o degelo precoce tende a alargar o “calendário” disponível para o fogo, a investigação indica que a severidade dos incêndios está particularmente ligada ao volume real de água no manto - isto é, à força do “depósito” hídrico do inverno. Olhar apenas para datas (quando derreteu) pode esconder o fator mais determinante: quanta água existia, de facto, na neve.

O que significa, na prática, falar de incêndios “mais severos”

Quando um incêndio avança com grande intensidade, o problema não se resume a chamas mais altas ou a colunas de fumo impressionantes. As consequências a médio e longo prazo tendem a ser muito mais pesadas do que num fogo de comportamento moderado.

Incêndios muito intensos podem:

  • provocar mortalidade elevada de árvores num curto espaço de tempo;
  • consumir camadas de húmus e degradar o solo de forma profunda;
  • aumentar, após o incêndio, o risco de cheias rápidas, fluxos de detritos e erosão acentuada;
  • alterar tanto o ecossistema que a regeneração deixa de resultar num bosque fechado.

Depois de eventos de fogo extremos, muitas áreas não regressam ao antigo estado florestal e acabam por estabilizar em paisagens de matos ou herbáceas.

Num clima já mais quente e seco, as árvores jovens têm maior dificuldade em instalar-se nas zonas ardidas. Se grandes superfícies forem repetidamente atingidas por incêndios de alta intensidade, uma região pode perder, a longo prazo, parte do seu coberto arbóreo - com impactos na biodiversidade, no ciclo da água, na economia local e no turismo.

Um sinal consistente ao longo de décadas: reservas de neve a diminuir

Ao compilar dados entre 1985 e 2021, a equipa encontrou o mesmo padrão em várias bacias hidrográficas: anos com reserva de neve baixa surgiam frequentemente associados a intensidade do incêndio acima do normal.

As bacias do sudoeste dos EUA, como as do Rio Grande e do Colorado River, destacam-se por apresentarem quebras particularmente marcadas na neve ao longo do tempo. Para esses territórios, o estudo funciona menos como hipótese académica e mais como aviso direto para os verões seguintes.

Além disso, padrões climáticos de grande escala, como El Niño e La Niña, deslocam a distribuição de precipitação: conforme a fase, certas áreas recebem mais ou menos neve. Esse “ajuste” repercute-se nas reservas do inverno - e, por arrasto, no potencial de fogo do verão seguinte.

Neve no inverno como sinal de aviso antecipado para a época de incêndios

Uma das implicações mais úteis do trabalho é operacional: observar o estado do manto de neve no inverno pode servir de indicador precoce para o risco de incêndios extremos na próxima época de incêndios. Isso dá meses de antecedência a autoridades, proteção civil e gestão florestal para preparar respostas.

Em anos de manto fraco, é possível, por exemplo:

  • dar prioridade à gestão e desbaste florestal em áreas perto de habitações ou infraestruturas críticas;
  • aplicar fogo controlado (queimas prescritas) onde seja mais eficaz reduzir, com segurança, grandes cargas de combustível;
  • pré-posicionar meios e equipamento em zonas com maior probabilidade de eventos severos;
  • reforçar a comunicação com municípios e população, ajustando planos de emergência e medidas de autoproteção.

Se o inverno já indica que o “escudo” hídrico natural será reduzido, a prevenção na primavera e no início do verão pode ser orientada com muito mais precisão.

Um complemento prático a esta abordagem passa por integrar medições do equivalente em água da neve (obtidas por estações de montanha e por satélite) em índices de perigo de incêndio. Ao cruzar humidade do combustível, temperatura e vento com o “stock” hídrico do inverno, a previsão de comportamento do fogo pode ganhar robustez e utilidade na tomada de decisão.

A primavera pode ainda mudar o cenário - se vier húmida

Apesar do quadro preocupante, os autores sublinham que existe margem para atenuar o risco. Mesmo com pouca neve, uma primavera chuvosa pode aliviar a situação de forma relevante. A chuva adicional abranda a secagem do solo e da vegetação e aumenta a humidade do combustível em ervas, matos e agulhas.

Com combustíveis menos secos, a resposta a fontes de ignição tende a ser menos agressiva, e os primeiros fogos do ano podem ser mais fáceis de conter. Ou seja: um inverno desfavorável piora a base, mas a evolução do tempo nas semanas seguintes continua a ser decisiva.

O que isto sugere para a Europa - e para Portugal

O estudo foca-se nos EUA, mas os mecanismos descritos aplicam-se a muitos sistemas montanhosos europeus. Nos Alpes, em maciços de média altitude e noutras cadeias, a neve de inverno também alimenta o ciclo hidrológico e sustenta a saúde das florestas. Se a neve falha com maior frequência ou desaparece muito cedo, encostas e vales entram mais rapidamente em défice hídrico.

Especialistas já observam, em várias regiões europeias, a combinação de menos dias com neve, secas mais longas e episódios de incêndios severos. A mesma lógica pode ser aproveitada: quanto mais fraco for o inverno em termos de cobertura de neve e reserva de neve, maior deve ser a atenção ao verão e ao planeamento da resposta.

Em Portugal, o paralelismo é particularmente relevante em áreas de maior altitude (por exemplo, na Serra da Estrela) e, de forma indireta, em bacias onde a precipitação de inverno condiciona a humidade do solo na primavera. Mesmo quando a neve tem menor expressão do que noutras latitudes, a mensagem mantém-se: um inverno com menor armazenamento hídrico tende a acelerar a secagem do coberto vegetal e a aumentar a perigosidade do fogo.

Termos que aparecem frequentemente nesta discussão

Termo Significado
Equivalente em água da neve Medida de quanta água líquida está contida na neve existente.
Humidade do combustível Quantidade de água armazenada em ervas, folhas, ramos e madeira; quanto mais seco, mais facilmente arde.
Intensidade do incêndio Energia libertada pelo fogo por unidade de área; pode refletir-se na altura das chamas e na carga térmica.
Incêndio de copas Fogo que, além do coberto do solo, atinge também as copas de árvores adultas.

O que municípios e cidadãos podem fazer

Mesmo que ninguém controle El Niño, La Niña ou a quantidade de neve que cai, existem medidas locais que reduzem o impacto dos incêndios quando o “aviso” do inverno é mau.

Os municípios podem ajustar regras e práticas para limitar a vulnerabilidade ao transporte de fagulhas, por exemplo com materiais de cobertura menos combustíveis e faixas de proteção bem desenhadas. Em localidades junto a áreas florestais, ajuda também melhorar acessos, reforçar pontos de água e remover regularmente madeira morta e sobrantes perto de zonas habitadas.

Os cidadãos, por sua vez, podem diminuir materiais combustíveis junto às casas, evitar guardar lenha encostada às paredes, limpar folhas e ramos secos e abster-se de fogo ao ar livre quando as autoridades pedem prudência. São ações discretas, mas que podem prevenir ignições ou travar incêndios ainda numa fase inicial - sobretudo em anos em que o inverno já deixou o recado: a reserva de neve (e o amortecedor hídrico natural) está fraca e o verão será mais arriscado.

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