A despedida ao motor V8 pode muito bem ter o nome Aston Martin DBX S.
Maiorca serviu de cenário a um instante raro: o meu primeiro contacto com o Aston Martin DBX S. Este SUV não é apenas o mais potente alguma vez produzido pela marca; a Aston Martin posiciona-o como o elemento mais radical da família DBX e, ao mesmo tempo, como o derradeiro modelo exclusivamente a combustão.
Depois dele, garante a marca, não haverá outro igual. Por isso, a despedida da gasolina tinha de ser feita com ambição - e aqui há, de facto, muito do melhor que sai de Gaydon.
Sei bem que estamos a falar de um SUV, mas está longe de ser “mais um”. No vídeo, tento explicar precisamente porquê.
Valhalla no coração do Aston Martin DBX S
Debaixo do capô está o conhecido V8 4.0 biturbo de origem AMG. Ainda assim, como é habitual, nada entra em cena com o emblema Aston Martin sem uma intervenção séria da equipa da marca.
A colaboração com a Mercedes-AMG não se resume a “receber motores e montar”. Segundo o responsável de produto da Aston Martin, ao lado do novo DBX S, trata-se de uma relação construída com base na confiança, que hoje lhes dá margem para, por exemplo, montar turbos específicos - herdados do Valhalla - e fazê-lo internamente nas suas instalações.
E aqui está uma das mudanças-chave face ao DBX707: no DBX S, os blocos V8 da Mercedes-AMG chegam sem turbos e passam a receber compressores derivados do Valhalla, o supercarro que antecipa a próxima geração da marca. O resultado é claro nos números: 727 cv e 900 Nm, mais 20 cv do que o DBX707. Com isto, acelera dos 0 aos 100 km/h em 3,3 s e atinge 310 km/h.
Mais importante do que a subida de potência é a forma como ela chega. A entrega foi retrabalhada para ser mais contínua e progressiva, evitando aquele efeito mais brusco que, por vezes, se sente em SUV muito potentes. No fim de contas, a emoção dura mais tempo e estica-se com mais prazer até ao limite do conta-rotações - o trabalho está, genuinamente, muito bem conseguido.
A caixa automática de nove relações segue a mesma filosofia: em modo desportivo, segura as mudanças por mais tempo para deixar o V8 “respirar” mais alto. Há aqui uma sensação de força bruta, mas lapidada - poderosa, porém refinada.
Quanto a consumos, fica prometido para outra ocasião. Algo me diz que este não será o último encontro.
Engenharia contra a física
Com 2198 kg, seria fácil desconfiar da agilidade. Só que, neste caso, a tecnologia entra para contrariar o que a balança sugere. Os diferenciais ativos tanto conseguem enviar 100% da potência para o eixo traseiro como repartir o binário entre rodas para maximizar a motricidade em curva.
As barras estabilizadoras ativas (com arquitetura 48 V) reduzem o rolamento a apenas 1,5º, enquanto a suspensão pneumática tripla alterna entre um registo muito confortável e uma firmeza surpreendentemente próxima do universo dos supercarros.
A resposta dos comandos também está num patamar elevado. A direção ficou 4% mais rápida do que no DBX707 - um valor pouco impressionante no papel, mas que ao volante se traduz numa reação mais direta e precisa, sem cair em nervosismo artificial. É precisamente neste ponto - entre massa e controlo - que o DBX S se diferencia.
A arte de cortar peso (sem estragar o equilíbrio)
O objetivo da Aston Martin não foi apenas baixar um número na ficha técnica, mas sim afinar o conjunto como um todo. Ainda assim, o DBX S consegue reduzir 47 kg face ao 707, e fá-lo com escolhas muito específicas:
- Teto em carbono: menos 18 kg no ponto mais alto do carro
- Jantes de magnésio de 23’’: menos 19 kg de massa não suspensa
- Grelha em policarbonato: menos 3 kg na frente
A maior surpresa, para mim, é que tanto as jantes como o teto em carbono sejam opcionais. Ou seja, em termos de redução de peso e também de impacto visual, é perfeitamente possível configurar um DBX S com menos diferenciação (e sem o ganho dinâmico associado a esses componentes), aproximando-o mais do DBX707 do que seria de esperar.
O que impressiona não é apenas o total poupado, mas a estratégia: retirar massa onde mais influencia a dinâmica (extremidades e zonas elevadas) e concentrar o peso onde interessa. Em estrada, isso sente-se em maior estabilidade, reações mais rápidas e uma agilidade que desafia o tamanho.
Habitáculo: base DBX707, detalhes “S” e a grande estreia tecnológica
Por dentro, o DBX S mantém a fundação do DBX707, mas acrescenta elementos próprios: bancos com a sigla “S” e acabamentos específicos.
A qualidade de materiais continua a ser um ponto forte, tal como a apresentação geral. E há algo que não muda: o espaço a bordo é generoso. O lugar do condutor pode ser o mais apetecível, mas os restantes ocupantes não ficam a perder.
Além disso, há uma novidade com peso mediático e tecnológico: o DBX S é o primeiro automóvel do mundo a estrear o Apple CarPlay Ultra.
Apple CarPlay Ultra estreia-se no DBX S. Convence?
Pela primeira vez num modelo de produção, quando ativado, o Apple CarPlay Ultra não se limita ao ecrã do sistema multimédia: passa também a assumir o painel de instrumentos. O sistema permite ainda controlar funções do próprio automóvel - desde ajudas à condução até ao aquecimento dos bancos - com uma integração muito mais profunda do que no CarPlay convencional.
Apesar de a proposta ser promissora, a primeira impressão deixa margem para evoluir: os menus extra exigem habituação, a lógica de organização podia ser mais intuitiva e, com o CarPlay ativo, o painel de instrumentos torna-se demasiado genérico. Também se sente falta de maior diferenciação visual entre modos de condução, e a posição do ecrã central continua a parecer demasiado baixa. Ainda assim, é um avanço relevante na integração digital - sobretudo para quem vive no ecossistema Apple.
O canto do cisne do DBX puramente a combustão
No fim, mais do que números de potência ou integração com smartphones, este DBX S simboliza outra coisa: é o último DBX puramente a combustão. A despedida de uma era 100% gasolina num modelo que abriu portas a novos públicos para a Aston Martin, antes da transição inevitável para a eletrificação.
O próximo DBX deverá seguir o caminho dos concorrentes e tornar-se híbrido plug-in. É possível que mantenha o V8, mas, para já, não existe confirmação oficial.
Vale também a pena olhar para este DBX S como uma peça de transição emocional: num mercado cada vez mais eletrificado, continua a haver espaço para um SUV que coloca a experiência mecânica - som, resposta e sensação de “motor vivo” - no centro do produto. E é precisamente isso que o torna tão fácil de entender como despedida.
Por outro lado, quem pondera um modelo deste tipo deve lembrar-se de algo inevitável: desempenho e exclusividade trazem consigo custos (pneus, travões, manutenção e utilização) à altura. Não é um automóvel feito para ser racional - e a Aston Martin também não o vende como tal.
Preço em Portugal
Em Portugal, os preços começam perto dos 325 mil euros, mas isso é apenas o ponto de partida. Entre opcionais e o programa de personalização, é fácil entrar num território onde a configuração “ideal” depende mais do que a carteira consegue suportar do que da imaginação.
Veredito
O Aston Martin DBX S é a expressão máxima da fórmula DBX com motor exclusivamente a combustão: mais potência, resposta mais refinada, engenharia focada em contrariar o peso e um pacote tecnológico que inaugura o Apple CarPlay Ultra no mundo automóvel. É um SUV de extremos - e, justamente por isso, faz sentido como última afirmação de uma era.
Especificações técnicas
| Item | Aston Martin DBX S |
|---|---|
| Motor | V8 4.0 biturbo (base AMG, com turbos/compressores derivados do Valhalla) |
| Potência | 727 cv |
| Binário | 900 Nm |
| Caixa | Automática, 9 relações |
| 0–100 km/h | 3,3 s |
| Velocidade máxima | 310 km/h |
| Peso | 2198 kg |
| Redução face ao DBX707 | -47 kg |
| Direção | 4% mais rápida do que no DBX707 |
| Rolamento em curva | até 1,5º (barras ativas 48 V) |
| Jantes opcionais | Magnésio 23’’ (-19 kg de massa não suspensa) |
| Teto opcional | Carbono (-18 kg no ponto mais alto) |
| Grelha | Policarbonato (-3 kg na dianteira) |
| Tecnologia em destaque | Apple CarPlay Ultra (estreia mundial) |
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