A disputa em torno das exportações de chips entre a China e o Ocidente pode ter conhecido algum abrandamento, mas está longe de estar resolvida. Para os construtores europeus, as mudanças geopolíticas estão a reconfigurar a indústria e a aumentar a urgência de encontrar formas de baixar a dependência de componentes produzidos em território chinês.
De acordo com a Bloomberg, várias marcas europeias têm vindo a exigir aos seus fornecedores que identifiquem alternativas duradouras aos semicondutores de origem chinesa, citando pessoas com conhecimento direto do tema.
Construtores europeus, semicondutores e a dependência da China
Matthias Zink, presidente da CLEPA (Associação Europeia de Fornecedores Automóveis), reconhece que o setor está a equacionar mudanças profundas nas cadeias de fornecimento para se adaptar ao novo enquadramento. Segundo o responsável, já se notava essa pressão nas perguntas recorrentes colocadas aos fornecedores, centradas na forma de assegurar o abastecimento reduzindo a exposição à China.
O caso Nexperia e a escalada das restrições
A tensão intensificou-se com a Nexperia, fabricante neerlandesa de semicondutores controlada pela chinesa Wingtech. Neste episódio, o Governo chinês proibiu a exportação de chips fabricados pela unidade chinesa da empresa, numa resposta direta à decisão dos Países Baixos - tomada sob pressão dos EUA - de nacionalizar temporariamente a Nexperia com o objetivo de limitar a influência da Wingtech.
A decisão de Amesterdão levou Pequim a bloquear exportações e a cortar o fornecimento de chips considerados críticos para a Europa, situação que ameaçou - e chegou a interromper - várias linhas de produção automóvel. A Nexperia detém mais de 20% do mercado nesse segmento.
Impacto imediato nas fábricas e reação do setor
As repercussões fizeram-se sentir rapidamente. A Honda reviu em baixa a sua estimativa de lucro anual após suspender a produção em diversas fábricas. O Grupo Volkswagen e a BMW avançaram com equipas e grupos de trabalho dedicados a assegurar o abastecimento de semicondutores. Do lado dos fornecedores, tanto a ZF Friedrichshafen como a Robert Bosch também se viram forçadas a abrandar a produção.
Entre os potenciais substitutos da Nexperia surgem as norte-americanas OnSemi, Vishay e Diodes, bem como a japonesa Rohm.
Transição difícil e prazos para reconfigurar cadeias de abastecimento
Apesar da pressão para diversificar, a mudança não é simples. Alterar cadeias de abastecimento maduras implica custos elevados, renegociação de contratos, novas homologações e, muitas vezes, redesenho de processos industriais. Na estimativa de Zink, deslocar o fornecimento para fora da China - seja no caso de baterias, chips ou terras raras - pode exigir entre três e sete anos, dependendo do componente em causa.
Na prática, a cadeia global de chips continua fortemente ancorada em fluxos internacionais, o que a torna um dos pontos mais vulneráveis no confronto China–EUA e deixa a Europa numa posição de menor influência.
A este respeito, Sapna Amlani, responsável pela prática global de cadeias de fornecimento da Moody’s (agência de avaliação de risco de crédito), alerta que não se trata apenas de um choque passageiro: na sua leitura, é um risco estrutural, porque decisões geopolíticas podem redesenhar, de um dia para o outro, a economia do abastecimento.
A ponta do icebergue: terras raras e veículos elétricos
Para lá da disputa pelos semicondutores, acumulam-se as preocupações com as terras raras, indispensáveis para motores e baterias de veículos elétricos. Também aqui a China ocupa uma posição dominante e tem demonstrado capacidade para usar essa vantagem como instrumento político.
Segundo a CLEPA, este nível de dependência agrava o risco associado à opção da União Europeia de avançar exclusivamente com veículos elétricos a partir de 2035. Na avaliação de Zink, não há motivos para ilusões: será um processo difícil e prolongado, com desafios que poderão estender-se por décadas.
O que pode mudar no curto e médio prazo (além das substituições diretas)
Mesmo quando existem fornecedores alternativos, a diversificação raramente se limita a “trocar de marca” de um dia para o outro. Para reduzir o risco, as empresas têm vindo a considerar estratégias como dual sourcing (dois fornecedores por componente), reforço de stocks de segurança e maior previsibilidade contratual, sobretudo para chips com utilização crítica em sistemas automóveis.
Em paralelo, cresce a atenção a iniciativas industriais e regulatórias na Europa - incluindo investimento em capacidade local e parcerias com fabricantes fora da China - com o objetivo de reduzir vulnerabilidades e encurtar prazos de resposta quando surgem bloqueios repentinos na cadeia global de semicondutores.
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