Saltar para o conteúdo

Guerra no Irão: prevê-se falta de hélio. Saiba porque isso é preocupante.

Cientista em laboratório a analisar um painel tecnológico brilhante com gráficos e equipamentos científicos.

Fala-se muito de petróleo, mas o eventual bloqueio do Estreito de Ormuz não coloca apenas a energia em risco: pode também estrangular o hélio. E os efeitos podem ser muito mais sérios do que parecem à primeira vista. Sem este gás, a produção mundial de semicondutores arrisca-se a perder o ritmo - ou mesmo a parar.

A decisão do Irão de fechar o Estreito de Ormuz incendiou os mercados energéticos, já que cerca de 20% do petróleo mundial atravessa este corredor estratégico. Contudo, o petróleo não é o único recurso vulnerável num cenário de guerra. O nafta, derivado do refino usado como matéria-prima essencial de praticamente toda a indústria petroquímica global, também fica condicionado - com impactos em cadeia sobre plásticos, medicamentos e têxteis sintéticos.

Agora, a preocupação alarga-se: especialistas alertam para o risco de uma escassez de hélio. Apesar de ser frequentemente associado a balões de festa, este gás “invisível” sustenta uma parte crítica da economia tecnológica. E os sinais apontam para um problema que pode escalar rapidamente.

Hélio e semicondutores: indispensável no fabrico de chips

O hélio é obtido como subproduto do processamento de gás natural e possui características físicas que o tornam difícil de substituir na indústria. Nas fábricas de chips, é usado para:

  • Arrefecer equipamento durante etapas sensíveis em que se gravam circuitos microscópicos em wafers de silício;
  • Purgar resíduos e gases tóxicos após banhos químicos e processos de limpeza;
  • Detectar fugas em ambientes de altíssima precisão, onde a estabilidade e a pureza são críticas.

Sem fornecimento regular, fabricantes como TSMC, Samsung ou SK Hynix simplesmente não conseguem manter a produção normal.

A oferta mundial de hélio, além disso, é altamente concentrada. Os Estados Unidos lideram a produção, e o Qatar surge logo a seguir - representando por si só cerca de um terço do abastecimento global. O problema é que ataques iranianos danificaram infraestruturas e linhas de produção no Qatar, com reparações potencialmente demoradas, podendo arrastar-se por anos.

A pressão aumenta: reservas curtas e logística no limite

Para já, as existências acumuladas antes do conflito ainda amortecem o choque. Mas a margem de segurança está a diminuir. Os fabricantes de chips conseguem armazenar apenas cerca de seis semanas de reservas: depois desse período, o hélio líquido começa a aquecer, a expandir-se e pode tornar-se perigoso, exigindo manuseamento rigoroso.

Do lado da resposta industrial, a Air Liquide - fornecedora de grande parte dos maiores produtores de semicondutores - avançou com medidas de emergência, incluindo a abertura acelerada de uma unidade em Taiwan e a diversificação de origens. Ainda assim, o estrangulamento não é apenas de produção: é, sobretudo, de transporte.

O hélio líquido precisa de ser deslocado a temperaturas próximas do zero absoluto (cerca de -273 °C), em contentores criogénicos especiais, por navios e camiões autorizados. Estima-se que cerca de 200 contentores estejam actualmente retidos na zona do Estreito de Ormuz, impedidos de seguir para a Ásia - precisamente onde se concentra uma fatia decisiva da capacidade global de fabrico.

Se a escassez se confirmar, o impacto poderá ir muito além das fábricas de semicondutores. “As empresas podem começar por abrandar a produção e, em casos extremos, suspendê-la. E isso reflecte-se na electrónica, no sector automóvel, nos smartphones”, alerta Cameron Johnson, associado sénior da consultora Tidal Wave Solutions. O cenário está longe de ser tranquilizador.

O que mais está em jogo (e porque é difícil substituir)

Mesmo com alternativas na mesa, o hélio é um caso particular: não se “fabrica” industrialmente de forma simples e barata; é um recurso extraído em conjunto com o gás natural e a sua cadeia logística exige infraestruturas especializadas. Além disso, muitas aplicações industriais necessitam de hélio de elevada pureza, o que reduz ainda mais as opções imediatas.

Há também um efeito colateral relevante: quando o fornecimento se torna instável, os preços tendem a disparar, levando empresas a competir por volumes limitados. Isso pode obrigar a priorizar sectores (por exemplo, tecnologia e indústria) e a deslocar consumo de áreas menos críticas, aumentando a pressão em toda a cadeia.

Por fim, ganha importância uma estratégia que, em tempos normais, costuma passar despercebida: recuperação e reciclagem de hélio em ambientes industriais. Embora não resolva um corte abrupto de abastecimento, sistemas de recaptura podem reduzir desperdícios e alongar a autonomia das unidades mais expostas - um investimento que, perante um bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, pode tornar-se um factor de sobrevivência operacional.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário