A Boeing chegou a acordo com a família de três vítimas do acidente do voo Ethiopian Airlines 302, um desastre ocorrido em 2019 que provocou a morte de 157 pessoas e colocou o fabricante norte-americano diretamente sob escrutínio devido a falhas associadas à aeronave.
Na quarta-feira, 5 de novembro, arrancou em Chicago, no Illinois, um processo civil destinado a fixar o valor das indemnizações a pagar às famílias das vítimas. Robert Clifford, advogado que representa a maioria das famílias desde 2019, informou que foi alcançada uma solução extrajudicial com três delas: os familiares de Mercy Ndivo, Nasrudin Mohammed e Abdul Jalil Qaid Ghazi Hussein.
Os valores acordados não foram divulgados. Ainda assim, sabe-se que a Boeing já desembolsou mais de 20 mil milhões de dólares desde os dois acidentes do 737 MAX, somando indemnizações, custos judiciais e perdas operacionais. As famílias envolvidas consideraram este entendimento um passo relevante no caminho para a justiça, após seis anos de litígios e diligências.
“Estamos gratos ao sistema judicial norte-americano por defender o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade”, afirmou Frederick Ndivo, pai de uma das vítimas.
Boeing e o voo Ethiopian Airlines 302: um escândalo sem precedentes
A 10 de março de 2019, o voo 302, que fazia a ligação entre Adis Abeba e Nairobi, caiu seis minutos após a descolagem, vitimando todos os 157 passageiros e tripulantes a bordo. Cinco meses antes, um outro 737 MAX da Lion Air despenhou-se no mar de Java, causando 189 mortos.
As duas catástrofes foram associadas ao mesmo problema: o sistema automatizado MCAS, concebido para ajudar a estabilizar a aeronave, mas dependente de um único sensor. Quando esse sensor falhava, o software podia empurrar o nariz do avião para baixo, em direção ao solo, tornando a recuperação do controlo quase impossível.
Falhas em cadeia, certificação apressada e o impacto na Boeing face à Airbus
As investigações apontaram para uma sequência de falhas: formação insuficiente dos pilotos, falta de comunicação interna e um processo de certificação feito à pressa, num contexto de pressão competitiva para responder à Airbus. A dimensão do caso foi tão grande que o 737 MAX ficou proibido de voar durante 20 meses, empurrando a Boeing para a maior crise da sua história.
Num processo civil desta natureza, o tribunal pode ter em conta múltiplos fatores ao estimar indemnizações, incluindo a dimensão das perdas para os familiares, o impacto económico e emocional, bem como a análise das circunstâncias que rodearam o acidente. Por isso, mesmo quando existem acordos extrajudiciais, o debate público tende a manter-se, sobretudo quando o caso envolve segurança de aviação e responsabilidade corporativa.
Regresso gradual da confiança, FAA e a sombra persistente do 737 MAX
Desde então, a Boeing tem procurado reconstruir a confiança junto das autoridades e do público. No final de setembro, a Federal Aviation Administration (FAA) - o regulador da aviação nos Estados Unidos - voltou a permitir que a empresa autocertifique alguns aspetos de determinados aviões, um sinal de recuperação de credibilidade institucional.
Ainda assim, o desafio continua a ser enorme. Apesar de um caderno de encomendas robusto e de novos projetos em discussão, a marca continua a conviver com o peso reputacional do 737 MAX, que permanece como referência inevitável quando se avaliam as práticas de segurança, o controlo de qualidade e a cultura organizacional da Boeing.
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