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A desinformação sobre o cancro aproveita-se da forma como pensamos. Saiba como.

Pessoa a usar smartphone e computador portátil numa secretária com documentos e óculos.

Quando a figura televisiva Danielle Lloyd recebeu, no início deste ano, um diagnóstico de melanoma, não teve apenas de lidar com a angústia dos tratamentos oncológicos. Deparou-se também com uma realidade inquietante: influenciadores a difundir desinformação perigosa sobre proteção solar.

Depois de remover um sinal suspeito e enquanto aguardava os resultados de uma segunda biópsia, a britânica, de 41 anos, passou a criticar publicamente personalidades das redes sociais que enganam seguidores ao falar de protetor solar e de produtos relacionados, muitas vezes com alegações falsas ou sem qualquer base científica.

A desinformação sobre cancro tem consequências graves. Pode levar pessoas a adiar - ou até a evitar - tratamentos que salvam vidas e, ao mesmo tempo, desgastar a confiança em médicos e outros profissionais de saúde.

Porque é que a desinformação sobre cancro se espalha tão depressa

A desinformação circula com facilidade porque se apoia nas emoções e na forma como raciocinamos sobre saúde. Perante um diagnóstico de cancro, o medo, a confusão e a necessidade de sentir controlo podem empurrar muitas pessoas para “soluções” que prometem esperança - mesmo quando essa esperança vem de fontes sem evidência credível.

Além disso, a desinformação tende a oferecer respostas simples e reconfortantes, enquanto a medicina real é complexa, envolve incerteza e, por vezes, é difícil de aceitar. Alegações falsas sobre cancro podem soar convincentes porque parecem eliminar a dúvida: se o tratamento vai resultar, se a doença pode regressar, ou o que acontece a seguir.

As plataformas digitais também amplificam mensagens falsas sobre cancro, fazendo-as parecer mais populares ou mais fiáveis do que são. Este efeito é reforçado pelo papel de influenciadores e de “especialistas” sem qualificações, que frequentemente lucram ao promover pseudociência.

Como o enquadramento da mensagem alimenta a desinformação sobre cancro

A forma como uma mensagem é apresentada (o seu enquadramento) tem um peso decisivo na propagação da desinformação sobre cancro.

Vários estudos indicam que reagimos mais a mensagens centradas naquilo que podemos perder do que naquilo que poderíamos ganhar. Isto acontece devido à aversão à perda - a tendência psicológica para temermos perdas com mais intensidade do que valorizamos ganhos equivalentes.

Mensagens sobre cancro que sublinham perdas possíveis - como saúde, conforto ou a própria vida - soam mais urgentes, pessoais e mobilizadoras do que mensagens focadas em ganhos potenciais, como maior sobrevivência ou melhor qualidade de vida.

Por isso, a desinformação que insiste em perdas assustadoras pode ser especialmente persuasiva: liga-se diretamente aos medos das pessoas.

Alegações falsas que alertam para “efeitos secundários terríveis”, “riscos escondidos” ou teorias da conspiração insinuando que os médicos querem prejudicar doentes tocam numa corda emocional profunda. Esse apelo torna mais provável que estas mensagens sejam acreditadas e partilhadas, mesmo quando são mentirosas.

Um exemplo típico é a desinformação que afirma que a quimioterapia não cura o cancro e que, pelo contrário, faz a doença espalhar-se e encurta a vida. Este tipo de mensagem pode desencadear medo e resistência ao tratamento.

Já mensagens verdadeiras - por exemplo, que a quimioterapia pode causar efeitos secundários, mas aumenta de forma significativa a probabilidade de sobrevivência - tendem a parecer menos chocantes e, por vezes, menos “apelativas”, precisamente por se concentrarem em ganhos em vez de perdas.

O cancro é um diagnóstico carregado de emoção e com consequências muito sérias. A desinformação enquadrada pela lógica da perda propaga-se depressa e pode influenciar decisões que colocam pessoas em risco. Mesmo quando a informação médica correta é apresentada, o peso emocional de mensagens alarmistas pode sobrepor-se ao pensamento racional.

O princípio psicológico de que “o mau é mais forte do que o bom” (também conhecido como viés de negatividade) ajuda a explicar por que razão mensagens que provocam medo ou ansiedade ficam mais na memória do que conteúdos baseados em factos e esperança. Em momentos de incerteza, a informação negativa tende a ter um impacto maior na forma como pensamos e sentimos.

Verificação prática: como reduzir o risco de cair em falsas promessas

Quando a informação sobre cancro aparece nas redes sociais, vale a pena fazer uma pausa e aplicar um filtro simples antes de acreditar ou partilhar. Perguntas úteis incluem: quem está a fazer a afirmação, que qualificações tem, que provas apresenta e se essa “prova” vem de estudos revistos por pares ou apenas de testemunhos e capturas de ecrã.

Também é prudente desconfiar de conteúdos que tentam apressar decisões com medo (“estão a esconder-lhe isto”), que vendem um produto como solução total, ou que sugerem abandonar terapêuticas comprovadas. Em caso de dúvida, o passo mais seguro é falar com a equipa médica (por exemplo, oncologia, dermatologia ou medicina geral e familiar) antes de alterar qualquer plano de tratamento ou rotina de proteção solar.

Pré-desmentido (prebunking) contra a desinformação sobre cancro

Uma forma eficaz de ajudar as pessoas a não serem vítimas de desinformação sobre cancro é o pré-desmentido (prebunking). Esta abordagem consiste em ensinar a reconhecer e resistir a mensagens falsas ou enganosas antes de elas se instalarem.

Em particular, o pré-desmentido procura revelar as táticas usadas para enganar ou assustar, para que se tornem mais fáceis de identificar e rejeitar quando surgem.

Entre as estratégias a aprender a detetar - e a neutralizar preventivamente - estão: - Alarmismo, quando se exageram riscos para provocar ansiedade; - Promessas de curas milagrosas sem evidência científica; - Estatísticas enganadoras, usadas para distorcer factos e sustentar alegações falsas.

Ao conhecer estas técnicas, pessoas com cancro podem tornar-se mais atentas e céticas quando encontram informação suspeita na internet, nas redes sociais ou até por recomendações informais.

A investigação sugere que, quando compreendemos as estratégias por trás da desinformação, temos menos tendência a aceitar afirmações falsas “à primeira vista”. Essa consciência extra dá margem para parar, questionar e procurar aconselhamento fiável antes de tomar decisões importantes sobre saúde.

No fim, o pré-desmentido ajuda a proteger quem vive com cancro contra conteúdos enganadores. Permite atravessar um ambiente carregado de emoção e escolher de forma mais informada e segura.

O cientista Carl Sagan resumiu-o de forma memorável: “Alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias.” É uma ideia simples, mas muito poderosa - sobretudo para contrariar a desinformação sobre cancro.

A frase de Sagan é um convite a abrandar, pensar de forma crítica e exigir evidência sólida - especialmente quando a informação sobre cancro soa inacreditável, perfeita demais ou simplesmente alarmante.

Andy Levy, leitor (docente) em Psicologia, Universidade de Edge Hill

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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