Poucos vírus são tão disseminados - e, ao mesmo tempo, tão mal compreendidos - como o vírus do papiloma humano, conhecido por HPV. É tão frequente que a maioria das pessoas (até cerca de 80%) vai contactá-lo em algum momento da vida, muitas vezes sem se aperceber.
Perceber o que é o HPV é importante, sobretudo porque está associado a vários tipos de cancro.
A ciência já identificou mais de 200 tipos de HPV, o que faz desta uma das famílias virais mais variadas de que há registo - e também uma das mais complexas. Muitas variantes são de baixo risco: não provocam sintomas ou dão origem a verrugas benignas.
Por exemplo, os tipos 1, 2 e 4 do HPV estão por trás da verruga comum na pele. Muita gente já teve uma, incluindo a típica verruga plantar (verruga no pé) apanhada em piscinas.
Outras estirpes, como o HPV 6 e 11, podem causar verrugas genitais - pequenas lesões que surgem nos genitais ou à volta do ânus. Existem tratamentos, como cremes, remoção cirúrgica ou crioterapia (congelamento), que eliminam as verrugas visíveis, mas não erradicam o vírus. Isto significa que o HPV pode continuar a ser transmitido a parceiros sexuais até que o sistema imunitário o elimine.
Mais preocupante é o facto de alguns tipos de HPV - em particular os 16 e 18 - terem ligações bem estabelecidas ao cancro. Integram um grupo de cerca de 14 estirpes de alto risco capazes de entrar nas células humanas e danificar o seu ADN. Esse dano interfere com os mecanismos normais que controlam o crescimento e a divisão celular, podendo abrir caminho ao desenvolvimento de cancro.
O risco aumenta quando a infeção por estas estirpes é repetida ou persistente. Fumar também contribui, porque diminui a capacidade do sistema imunitário para limpar o vírus.
Como o HPV pode ir de verrugas cutâneas inofensivas a variantes associadas a cancro, torna-se fácil surgirem mitos e confusões. Para distinguir factos de ideias erradas, seguem-se cinco pontos essenciais sobre o vírus.
1. O HPV não está ligado apenas ao cancro do colo do útero
Embora o cancro do colo do útero seja o mais conhecido entre os associados ao HPV, o vírus também se relaciona com cancros da vulva, vagina, ânus, pénis, boca e garganta. Há ainda indícios emergentes de que alguns tipos poderão também contribuir para o desenvolvimento de cancro da pele.
Esta amplitude de risco ajuda a explicar por que motivo a vacina contra o HPV, amplamente disponível, é recomendada para ambos os sexos. Como a vacinação previne a infeção por HPV, a imunização em larga escala beneficia a população, já que a transmissão pode ocorrer entre parceiros heterossexuais e homossexuais.
2. Não é preciso ter sintomas nem verrugas genitais para transmitir o HPV
O HPV pode permanecer na pele durante meses até ser eliminado pelo sistema imunitário. Durante esse período, pode haver transmissão por contacto - mesmo antes de surgirem verrugas genitais e mesmo depois de estas terem sido tratadas. Por isso, recomenda-se o uso de preservativo durante, pelo menos, três meses após o desaparecimento das verrugas visíveis.
3. A transmissão do HPV não acontece apenas através de sexo vaginal ou anal
Cancros da boca e da garganta podem surgir após uma infeção por HPV adquirida através de sexo oral. A incidência de cancro da boca e da garganta tem aumentado a nível mundial, e o sexo oral é atualmente o fator de risco comportamental mais relevante. Usar preservativo durante o sexo oral pode ajudar a reduzir esse risco.
O HPV também pode disseminar-se através da utilização de brinquedos sexuais. Um estudo salientou que HPV transmissível pode manter-se nesses objetos, reforçando a necessidade de práticas de higiene adequadas na limpeza e de evitar a partilha.
4. Os preservativos não oferecem proteção a 100% contra o HPV
O preservativo reduz a probabilidade de transmissão do HPV, mas não garante proteção total, porque a pele não coberta pode continuar a transportar o vírus.
É por isso que muitas pessoas sexualmente ativas acabam por contactar com alguma estirpe do vírus ao longo da vida, mesmo quando adotam práticas de sexo seguro.
5. Mesmo mulheres vacinadas devem fazer testes de rastreio (Papanicolau/HPV)
As vacinas atuais contra o HPV focam-se nos principais tipos de alto risco, mas não abrangem todas as estirpes capazes de provocar cancro, nem tratam infeções já existentes. Além disso, em casos raros, o cancro do colo do útero pode desenvolver-se sem infeção por HPV. Por essa razão, as mulheres entre os 25 e os 64 anos continuam a ser chamadas para rastreio do colo do útero de cinco em cinco anos, mesmo após vacinação.
As mulheres devem também procurar avaliação médica urgente se surgirem sinais compatíveis com cancro do colo do útero, como dor ou hemorragia após relações sexuais, hemorragia entre períodos ou após a menopausa, e alterações no corrimento vaginal.
Dois cuidados adicionais para reduzir o risco de HPV
Além da vacinação e do rastreio, há medidas simples que ajudam a diminuir a exposição ao HPV e a probabilidade de infeção persistente. Reduzir o consumo de tabaco é particularmente relevante, já que fumar dificulta a eliminação do vírus pelo sistema imunitário. Também é importante adotar hábitos consistentes de proteção e higiene sexual - incluindo o uso de preservativo sempre que possível e a limpeza rigorosa de brinquedos sexuais - porque o HPV pode ser transmitido por contacto de pele com pele.
Outro aspeto essencial é conversar com parceiros e profissionais de saúde. Falar abertamente sobre vacinação, rastreios e sinais de alerta ajuda a tomar decisões informadas sem estigma. O objetivo não é criar medo em torno da vida sexual, mas sim aumentar a literacia em saúde e reduzir riscos evitáveis.
Apesar de a vacina contra o HPV estar amplamente disponível, a adesão diminuiu em algumas regiões. A pandemia de COVID-19 interrompeu programas de vacinação de rotina e a desinformação sobre segurança e eficácia da vacina abalou a confiança. Nalguns locais, a falta de conhecimento sobre a ligação do HPV a diferentes cancros - e sobre a importância de vacinar rapazes e raparigas - também tem dificultado o entendimento público.
A Organização Mundial da Saúde definiu como meta ter 90% das raparigas totalmente vacinadas até aos 15 anos, até 2030. Atualmente, apenas cerca de 48% das raparigas no mundo têm vacinação completa, o que mostra que ainda há um caminho considerável a percorrer.
Embora o HPV seja muitas vezes inofensivo, as consequências potenciais de certas estirpes são demasiado relevantes para serem ignoradas. Ainda assim, ninguém deve sentir medo de ter uma vida sexual ativa. Para quem tem indicação para a vacina contra o HPV, a proteção não beneficia apenas a pessoa vacinada: contribui também para proteger parceiros sexuais futuros que, de outra forma, poderiam ser expostos. Mantendo-nos informados e adotando medidas preventivas, é possível reduzir o impacto deste vírus tão comum e aumentar a segurança de todos.
Dan Baumgardt, Professor Sénior, Escola de Psicologia e Neurociência, Universidade de Bristol
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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