A Volkswagen anda à procura de um futuro para a sua fábrica de Osnabrück - e a pista que está a ganhar forma é tão inesperada quanto polémica.
O momento é duro para o grupo. Há poucas semanas, a Volkswagen anunciou um plano para cortar 20% dos custos até 2028, incluindo a eliminação de dezenas de milhares de postos de trabalho na Alemanha. Uma decisão pesada, mas longe de ser um caso isolado na Europa: depois de a Mercedes-Benz ter visto o seu lucro operacional cair 57% no ano passado, a Stellantis registou uma carga excecional de 22 mil milhões de euros.
O setor atravessa uma crise profunda, dividido entre a transição para o elétrico, a concorrência chinesa e um mercado que dá sinais de cansaço. E, neste cenário, a unidade de Osnabrück concentra ainda mais ansiedade. A fábrica, que emprega 2.300 pessoas, produz atualmente o T-Roc Cabriolet - cuja produção termina em 2027.
Sem um modelo de substituição previsto, o futuro da instalação continua incerto. E, embora tenham existido negociações com a Rheinmetall, o gigante alemão do armamento, para uma possível compra do local, essas conversas fracassaram no final de 2024. A Volkswagen procura, portanto, outra saída e vira-se, sem grande surpresa, para um setor em plena efervescência: a defesa.
Uma tendência que se confirma
Segundo a agência de notícias Reuters, a Volkswagen estará neste momento em conversações com a Rafael Advanced Defence Systems, o grupo israelita de armamento detido pelo Estado. O objetivo: reconverter a fábrica de Osnabrück para fabricar componentes destinados ao célebre sistema Iron Dome (Cúpula de Ferro), o escudo antimíssil israelita capaz de intercetar foguetes de curto alcance.
A Rafael é um dos nomes mais influentes da indústria de defesa mundial e o Iron Dome, testado em operações no terreno há mais de uma década, precisa agora de evoluir, numa altura em que o conflito com o Irão sustenta uma procura elevada por este tipo de sistemas.
Isto reforça a hipótese de uma conversão por parte da Volkswagen? Há pouco tempo, o construtor apresentou dois protótipos de veículos militares na feira de defesa Enforce Tac, em Nuremberga, sob a marca discreta D.E.S. Defence. Tudo sem logótipos visíveis. Aliás, a Renault também explorou uma parceria com o Ministério das Forças Armadas francês em torno da produção de drones militares.
Mas uma eventual parceria com a Rafael levanta questões. A marca tentou desarmar a polémica, afirmando que exclui qualquer produção de armas. Ainda assim, fabricar “apenas” componentes para um sistema militar ativo numa zona de guerra mantém-se moralmente delicado - e é pouco provável que isso baste para encerrar o debate.
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