O DS Nº8 atira-se à concorrência alemã com trunfos muito próprios. Chegará para conquistar o mercado?
O DS Nº8 sucede ao DS 9 no papel de topo de gama da marca francesa e, ainda assim, quase parece um automóvel de outra família.
Em vez da clássica berlina de três volumes, a DS optou por uma silhueta híbrida, algures entre uma berlina de traseira inclinada e um SUV. A marca apresenta-o como um “SUV coupé”, embora, na prática, o Nº8 fuja a rótulos fáceis - e essa ambiguidade pode até ser uma vantagem, num segmento onde muitos modelos começam a parecer cópias uns dos outros.
Esta escolha estética não é apenas um exercício de estilo: resulta também de uma aposta clara na eficiência. O Cx (coeficiente aerodinâmico) fica-se pelos 0,24, um valor particularmente baixo para um veículo com este porte.
Há uma razão óbvia para esta obsessão com a aerodinâmica: o DS Nº8 é, por agora, exclusivamente elétrico. E, num elétrico, reduzir resistência ao ar é meio caminho andado para aumentar autonomia.
Na variante DS Nº8 Grande Autonomia (a que também conduzi), a marca anuncia 750 km em ciclo combinado WLTP - um número que não impressiona apenas dentro do segmento; destaca-se no mercado em geral.
Ainda assim, por mais fortes que sejam as fichas técnicas, um topo de gama francês precisa de mais do que autonomia para vingar num território onde os emblemas alemães continuam a pesar (e muito) na decisão de compra. É precisamente esse conjunto de argumentos que se percebe melhor a seguir.
DS Nº8: habitáculo requintado e bem isolado
Se o desenho exterior pode dividir opiniões - sobretudo na configuração bi-tom, em que a cor do tejadilho “invade” o capot -, é no interior que o DS Nº8 tem maior facilidade em conquistar.
A apresentação é cuidada, a dotação de equipamento é elevada e a perceção de qualidade (materiais e montagem) está num patamar convincente. Para quem procura um automóvel que funcione como “bolha” contra o exterior, o Nº8 é um candidato sério: o isolamento acústico é exemplar e, em andamento, o ruído do mundo lá fora praticamente desaparece.
Esse ambiente sofisticado combina com bancos muito confortáveis e, depois de o conduzir, torna-se claro que a prioridade do DS Nº8 é uma só: conforto. Na verdade, passa a ser uma referência de conforto na classe.
Mesmo assim, não é um interior imune a críticas. Apesar do nível global elevado, há zonas menos visíveis (e menos tocadas no dia a dia) onde a atenção ao detalhe parece ter ficado aquém do resto do habitáculo.
Outra nota menos positiva é a habitabilidade traseira. À frente, condutor e passageiro têm espaço de sobra; atrás, porém, para um automóvel com mais de 4,8 m de comprimento, esperava-se uma folga superior, sobretudo para pernas e cabeça - e a linha descendente do tejadilho não ajuda.
Na vertente prática, a bagageira tem abertura automática e oferece 620 litros, um valor generoso. Ainda assim, embora seja comprida, não é especialmente alta, o que pode limitar a colocação de volumes maiores.
Conforto ao volante acima de tudo (DS Nº8)
Ao sentar-me ao volante, que tem bom tato, encontro depressa uma posição correta. A postura é relativamente elevada, algo que se explica pela colocação da bateria sob os ocupantes. Pessoalmente, agrada-me; nem todos vão pensar o mesmo.
Houve oportunidade para conduzir duas versões:
- DS Nº8 tração dianteira Grande Autonomia, nível Pallas: 180 kW (245 cv) e bateria de 97,2 kWh (capacidade útil).
- DS Nº8 tração integral Grande Autonomia, nível Étoile: adiciona um motor no eixo traseiro, passa a tração integral e sobe para 257 kW (350 cv).
A variante mais potente convence pela resposta e pela tração integral - um detalhe que pode ser determinante para alguns. Ainda assim, custa justificar a diferença de 10 000 € face à versão de tração dianteira.
Por isso, neste momento, o DS Nº8 tração dianteira Grande Autonomia parece o ponto mais interessante da gama: é o que anuncia mais autonomia (750 km vs. 688 km) e, atendendo ao carácter deste modelo, não há real necessidade de mais desempenho (0–100 km/h em 7,8 s vs. 5,4 s).
E esse carácter percebe-se rapidamente: o DS Nº8 privilegia suavidade, serenidade e condução relaxada. Puxa por ritmos tranquilos e viagens longas sem esforço. Mas conforto não significa falta de controlo - bem pelo contrário. A estabilidade é um dos seus pontos fortes e a carroçaria mantém-se composta, mesmo quando a estrada exige mais atenção.
Autonomia: deu mesmo para 750 km?
Como acontece frequentemente em primeiros contactos, nem sempre é possível confirmar todas as promessas em condições ideais. Ainda assim, os sinais iniciais são encorajadores.
Os percursos na Suíça, com muita estrada de montanha e desnível, não são propriamente “amigos” dos consumos. Nessas condições, o DS Nº8 tração integral (o mais potente) registou valores acima de 20 kWh/100 km, bem acima dos 16,6 kWh/100 km oficiais.
Já o Nº8 de tração dianteira, num trajeto mais favorável, surpreendeu: fez 12,2 kWh/100 km ao longo de mais de 110 km, abaixo dos 15,9 kWh/100 km anunciados. Quando houver oportunidade de o conduzir em Portugal, será possível avaliar com mais rigor até que ponto os números da DS se confirmam no nosso contexto.
Para que uma grande autonomia se transforme em conveniência real, há ainda outro fator decisivo: o ecossistema de carregamento. A facilidade de planeamento de rotas, a fiabilidade dos postos em viagem e a forma como o automóvel gere a energia (incluindo pré-condicionamento e previsão de consumo) podem fazer tanta diferença na experiência como o valor WLTP em si.
Também em Portugal, onde muitos utilizadores combinam carregamento doméstico com carregamentos ocasionais em rede pública, será importante perceber como o DS Nº8 se integra na rotina: previsibilidade de consumos, clareza das informações no ecrã e consistência do comportamento em autoestrada terão um peso real no dia a dia.
Preço: não é barato, mas os rivais alemães pedem mais
Sendo uma marca de posicionamento premium, é natural que os preços fiquem acima dos “primos” que partilham a mesma base técnica - a plataforma STLA Medium, usada, por exemplo, no Peugeot 3008.
Dito isto, o DS Nº8 posiciona-se abaixo de vários concorrentes alemães e acaba por ficar alinhado com propostas como o Polestar 4.
Preços e comparação direta
DS Nº8 tração dianteira Grande Autonomia Pallas (como o que conduzi): desde 64 500 €.
Fica próximo do Polestar 4 (100 kWh, 620 km e 272 cv) e abaixo do Audi Q6 e-tron mais acessível, que começa nos 71 000 €. O alemão, porém, traz uma bateria menor e menos autonomia (83 kWh e 527 km), embora ofereça mais potência (292 cv vs. 245 cv).DS Nº8 tração dianteira Grande Autonomia Étoile (mais equipado): 71 100 €.
Já entra em território semelhante ao do Q6 e-tron, mas compensa com uma dotação de série mais generosa, onde se destacam bancos dianteiros aquecidos e ventilados, jantes de 20 polegadas e sistema áudio de topo, entre outros.
Apesar de o DS Nº8 apresentar argumentos sólidos e uma personalidade muito própria, o maior obstáculo mantém-se: convencer este segmento a escolher um símbolo que não seja alemão.
Veredito
O DS Nº8 é um topo de gama elétrico que aposta na diferença: mistura formatos, trabalha a aerodinâmica com seriedade (Cx de 0,24) e oferece um interior muito bem isolado, onde o conforto é rei - ao ponto de se tornar referência na classe.
A versão tração dianteira Grande Autonomia destaca-se como a escolha mais equilibrada, tanto pela autonomia anunciada (750 km WLTP) como pelo posicionamento de preço. Fica, ainda assim, com duas sombras a acompanhar o conjunto: a habitabilidade traseira aquém do esperado para o tamanho e a eterna batalha do prestígio do emblema num segmento dominado pelos alemães.
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