Sim, é mesmo assim: há 18 marcas chinesas com uma estratégia definida para o mercado português. Algumas já se tornaram presença habitual nas estradas nacionais; outras estão a fechar os últimos detalhes para iniciarem actividade em Portugal.
A primeira marca chinesa a desembarcar no nosso país com um plano estruturado foi a Aiways, em 2022. Contudo, o percurso acabou por não correr como previsto. A marca encontra-se, neste momento, num período de reorientação estratégica - o custo de ter sido pioneira? Talvez.
Desde então, as confirmações de novas marcas chinesas em Portugal sucedem-se a um ritmo difícil de acompanhar. Entre as mais relevantes, destaca-se a BYD, que em 2024 conseguiu entrar no grupo das 20 marcas mais vendidas em Portugal, seguida da MG, que ficou mesmo à porta, na 21.ª posição.
Neste artigo reunimos, por ordem alfabética, todas as marcas chinesas já disponíveis em Portugal ou com entrada confirmada no nosso mercado.
No total, contabilizámos 18 marcas, embora existam pelo menos mais três (não incluídas aqui) com negociações bastante adiantadas para chegarem ao nosso país.
Antes de avançar, há um ponto prático que tende a fazer a diferença na experiência do cliente: rede de assistência, disponibilidade de peças e garantias. À medida que estas marcas ganham escala, a robustez do pós-venda e a capacidade logística dos importadores serão tão determinantes como autonomia, preço e equipamento.
Outra variável que começa a pesar é a infra-estrutura de carregamento e a adaptação do utilizador português ao eléctrico e ao híbrido carregável, sobretudo fora dos grandes centros. O produto pode ser competitivo, mas a adopção acelera quando o ecossistema (carregamento, assistência e valor de revenda) acompanha.
Aion - a “Toyota feita na China”
A Aion é a marca eléctrica do Grupo GAC (Guangzhou Automobile Group), um dos construtores mais antigos e influentes da China. Criada em 2018, nasceu com a missão de ser a divisão de veículos 100% eléctricos de um grupo detido maioritariamente pelo Estado chinês.
Em Portugal, a chegada está prevista para os próximos meses, pela mão do Grupo JAP, com dois modelos: o Aion UT e o Aion V - respectivamente, um utilitário com mais de 400 km de autonomia e um utilitário desportivo familiar com aposta clara em conforto e conectividade.
No mercado chinês, a GAC ficou conhecida como a “Toyota chinesa”, muito por causa da parceria de longa data com a marca japonesa. Há décadas que fabrica, sob licença, vários modelos Toyota e também Honda na China. Não é raro ver a GAC no topo das classificações de fiabilidade no seu país.
Aiways - a primeira baixa
Nem sempre as histórias de expansão correm bem - e a indústria chinesa também tem exemplos disso. A Aiways, fundada em 2017, esteve entre as primeiras marcas chinesas a vender eléctricos na Europa e também entre as que falharam grande parte das metas iniciais.
Quem acompanha o sector há mais tempo lembrar-se-á de outros projectos que prometeram muito e não vingaram, como a Qoros, por exemplo.
Em Portugal, a marca é representada pela ASTARA e vende o U5 (anuncia até 400 km de autonomia) e o U6, um utilitário desportivo de linhas coupé. Actualmente, o futuro da Aiways continua sob pressão: na China enfrenta concorrência muito forte e, na Europa, falta-lhe notoriedade.
À partida parecia ter os ingredientes para resultar, mas é possível que tenha pago o preço de ter chegado cedo demais ao mercado europeu. Em Portugal, o balanço só não é mais negativo porque contou com a retaguarda da ASTARA, com historial relevante na importação de marcas como Mitsubishi e Kia.
BYD - o gigante que não pára de crescer
No início, o nome gerou dúvidas: “diz-se bíde ou biuaidi?”. Dois anos depois, a BYD já dispensa apresentações. O nome é um acrónimo de “Build Your Dreams”.
Trata-se do maior fabricante mundial de veículos electrificados e da marca chinesa número 1 em Portugal, depois de ter entrado, pela primeira vez, no grupo das 20 mais vendidas em 2024.
Fundada em 2003, chegou a Portugal em 2023 através da Salvador Caetano, importador histórico de Toyota e Lexus. A gama inicial incluía o Atto 3 (utilitário desportivo compacto), o Han (berlina de segmento elevado) e o Tang (utilitário desportivo de 7 lugares). Hoje, a marca já soma oito modelos no portefólio nacional, com preços a começar abaixo dos 21 000 €.
Para lá dos volumes de vendas, a BYD apresenta outros trunfos, como a tecnologia de bateria Blade, fornecida também a rivais como a Tesla e a Toyota.
Changan - da indústria militar para os automóveis
A Changan Automobile é um dos fabricantes mais antigos da China, com raízes militares e estatais que recuam a 1862. Actualmente, produz mais de 2 milhões de veículos por ano e está presente em mais de 60 países.
A chegada a Portugal foi assinalada na última edição do ECAR Show Lisboa. Por cá, é representada pelo Grupo Auto-Industrial e inicia actividade com o Deepal S07, um utilitário desportivo eléctrico desenvolvido em parceria com a Mazda.
Para já, existe apenas em versão de topo e utiliza uma bateria de 80 kWh. O preço é de 44 500 € - e o único extra disponível é a cor da carroçaria.
Ainda assim, este é só o primeiro passo: ao todo, a Changan prevê nove modelos para os próximos três anos.
Dongfeng - dos mísseis para a estrada
A Dongfeng Motor Corporation está entre os cinco maiores grupos automóveis chineses e foi fundada em 1969. Tal como a Changan, começou ligada ao fabrico de armamento e, hoje, integra um ecossistema que inclui veículos comerciais e de passageiros, marcas de gama alta, mísseis e veículos militares.
Em Portugal, a representação cabe à Salvador Caetano, que escolheu o BOX, um citadino eléctrico, como a peça central da estreia, com posicionamento abaixo dos 30 000 €. E nós já o testámos:
Para além da designação Dongfeng, este grupo detém também marcas como a Voyah (orientada para o luxo) e a X-Hero (com enfoque num público mais aventureiro), ambas representadas em Portugal pela Salvador Caetano.
Fora do âmbito dessa importação ficou apenas a Forthing, cuja representação nacional pertence ao Grupo Auto-Industrial.
Farizon - só veículos comerciais
A entrada de marcas chinesas não se limita aos ligeiros de passageiros. Aliás, a vaga começou com maior força nos veículos pesados, sobretudo no segmento dos autocarros.
Essa lógica prolonga-se agora nos veículos comerciais ligeiros 100% eléctricos. A Farizon é representada em Portugal pela Salvador Caetano, um grupo com elevado saber-fazer neste tipo de produto - algo crucial para abrir portas nos canais profissionais.
Firefly - citadino, mas com ambição grande
A Firefly é uma nova marca criada pela NIO para atacar o segmento dos eléctricos mais acessíveis. Apesar de alguns atrasos e ajustes, o lançamento do primeiro modelo está apontado para o final do ano, e em Portugal a marca será representada pelo Grupo JAP.
O primeiro modelo, Firefly EV, deverá ter cerca de quatro metros, um desenho inspirado nos telemóveis inteligentes (com faróis que lembram as câmaras do iPhone), um habitáculo espaçoso e controlos por gestos.
Na Razão Automóvel existem vários artigos dedicados ao Firefly EV. Pode vir a ser a peça que faltava para a NIO ganhar tração no mercado europeu, já que, apesar do desenho e da tecnologia, a operação europeia tem crescido abaixo do esperado.
Forthing - um gigante discreto
Como referido, a Forthing pertence ao universo Dongfeng Motor Corporation. Foi criada em 2001 e, em Portugal, é representada pelo Grupo Auto-Industrial desde 2024.
A gama inclui o U-Tour (monovolume de 7 lugares), o utilitário desportivo Friday (com versões híbridas e eléctricas) e a berlina S7, totalmente eléctrica. O destaque vai para a utilização de tecnologia BYD nos sistemas híbridos e para a relação equipamento/preço no segmento familiar.
A primeira ofensiva em Portugal foi contida e, em termos de estilo e tecnologia, com propostas ainda algo afastadas do gosto europeu.
Ainda assim, o Grupo Auto-Industrial tem objectivos mais ambiciosos para a Forthing: está a trabalhar para garantir cobertura do território nacional e uma logística de peças capaz de responder rapidamente às necessidades dos clientes e das redes de concessionários.
Foton - de mangas arregaçadas
A Foton é especializada em veículos comerciais e integra o grupo estatal BAIC. Nasceu em 1996 e é hoje um dos maiores fabricantes mundiais de veículos de trabalho, com presença em mais de 100 países.
Chegou a Portugal em 2024, representada pelo Grupo JAP, com aposta forte numa carrinha de caixa aberta 100% eléctrica. A eTunland anuncia 330 Nm de binário máximo e 177 cv de potência, com autonomia máxima de 360 km, apoiada por uma bateria de 88,6 kWh.
Com parcerias com empresas como Cummins, ZF, Bosch ou CATL, a Foton tem desenvolvido soluções técnicas e padrões de qualidade mais próximos das exigências europeias - o que pode ser uma vantagem face a alguns concorrentes chineses.
Jaecoo - um utilitário desportivo chinês que não é só eléctrico
A Jaecoo é uma das marcas mais recentes do Grupo Chery Automobile. Entrou na Europa em 2024, em simultâneo com a marca-irmã Omoda. É uma das mais jovens desta lista e foi criada em 2023, com uma abordagem orientada para um estilo de vida mais activo.
O primeiro modelo será o Jaecoo 7, numa versão híbrida carregável com tracção integral, já comercializada noutros mercados europeus - com destaque para Espanha, onde a recepção tem sido positiva.
Apesar de ainda não existir importador oficialmente definido para Portugal, tudo aponta para uma chegada até ao final de 2025. O cenário mais provável é a representação ser assegurada directamente pelo Grupo Chery Automobile.
Leapmotor - a marca chinesa com mais ADN ocidental
A Leapmotor é uma empresa emergente chinesa, fundada em 2015, focada em eléctricos acessíveis com tecnologia própria. Uma particularidade importante: tem a Stellantis na estrutura accionista.
Já está disponível em Portugal com dois modelos: T03 (citadino de 5 portas) e C10 (utilitário desportivo médio). Apesar de jovem, a marca apresenta uma componente tecnológica forte, ao desenvolver internamente baterias, suporte lógico e sistemas de assistência à condução.
Os primeiros modelos têm recebido elogios consistentes da imprensa especializada. Para já, não está prevista qualquer partilha de componentes da Leapmotor com as restantes marcas do Grupo Stellantis.
Maxus - quando o foco é o trabalho
A Maxus é a marca de comerciais ligeiros da SAIC Motor, um dos maiores grupos automóveis na China. Em Portugal, é representada pela ASTARA e disponibiliza soluções eléctricas para empresas com os eDeliver3, eDeliver9 e a carrinha de caixa aberta T90 EV.
Estes modelos encaixam no portefólio do importador, cuja implantação no canal profissional é das mais fortes em Portugal, suportada pela experiência acumulada ao longo dos anos com marcas como Mitsubishi e FUSO.
MG - a marca chinesa com nome inglês
Da histórica MG britânica, pouco ficou além da designação. A marca regressou sob a alçada do grupo SAIC Motor e está em Portugal desde 2021 com uma oferta ampla: MG3 (utilitário híbrido), MG4 (eléctrico compacto), MG5 (carrinha eléctrica), ZS (utilitário desportivo compacto), HS (utilitário desportivo familiar híbrido carregável) e o recentemente apresentado S5 EV (utilitário desportivo eléctrico).
A ofensiva de produto já cobre vários segmentos, começando no dos utilitários com o MG3 híbrido, cujo preço arranca abaixo dos 23 000 €.
NIO - uma promessa que ainda não acelerou
A NIO foi criada em 2014 e construiu uma reputação positiva, muito associada a tecnologias avançadas e ao desenho dos seus modelos. A marca chega a Portugal em 2025, através do Grupo JAP.
Apesar de, à partida, reunir condições para singrar na Europa, as vendas têm demorado a ganhar ritmo. Agora, a NIO prepara uma segunda fase de expansão, com presença em mais países, para reforçar a posição no continente europeu.
Omoda - o caso de sucesso em Espanha
A Omoda é uma submarca da Chery. Lançada na Europa em 2024 e com chegada a Portugal prevista para 2025, conseguiu uma boa aceitação em Espanha, um mercado particularmente sensível ao preço.
É provável que tenha ajudado o facto de a ofensiva não ter arrancado apenas com variantes totalmente eléctricas. O Omoda 5 é o primeiro modelo e existe com motor de combustão e também em versão 100% eléctrica. Tal como referido, é marca-irmã da Jaecoo.
Voyah - a aposta chinesa no segmento de gama alta
A Voyah é uma das várias marcas do universo Dongfeng, assumindo o braço de gama alta do grupo. Em Portugal, é representada pela Salvador Caetano. A marca foi fundada em 2018.
O modelo de referência no mercado nacional é o Voyah Free, um utilitário desportivo eléctrico com 489 cv e 500 km de autonomia. A ambição é clara: enfrentar marcas como Lexus e Mercedes-Benz, oferecendo mais equipamento por um valor inferior. Em Portugal, os preços da Voyah podem ultrapassar os 80 000 €.
Xiaomi - dos telemóveis para os automóveis
Há quem diga que os automóveis estão cada vez mais parecidos com telemóveis - e não é difícil perceber porquê. A utilização de programas cada vez mais evoluídos e de conectividade mais sofisticada abriu a porta a gigantes tecnológicos interessados na indústria automóvel. Até a Apple chegou a ter planos para um eléctrico.
Mais conhecida pelos seus telemóveis, a Xiaomi entrou em força no sector automóvel. O primeiro modelo foi o SU7, uma berlina eléctrica que já tem versões desportivas e tem batido recordes na Europa. É uma das marcas chinesas mais promissoras.
Há mais modelos a caminho, incluindo um utilitário desportivo e um modelo de linhas cruzadas. A Xiaomi deverá chegar a Portugal em 2027, mas ainda não tem importador definido nem modelo de negócio fechado. A Razão Automóvel sabe que existem vários grupos interessados na representação da marca, que pretende ter presença global. Na nova fábrica de Pequim, sai um carro da linha de produção a cada 72 segundos e 91% da operação é autónoma, sendo que 100% das operações críticas já são autónomas.
A Xiaomi construiu as suas próprias máquinas de fundição de grande formato e produz também o aço que utiliza nos automóveis. Esse aço é mais resistente do que o usado em submarinos, colocando a Xiaomi lado a lado com a Tesla como as únicas duas marcas a produzirem um composto com este nível de resistência na indústria automóvel.
XPeng - “não somos uma marca de automóveis”
Quem o afirma é a própria XPeng, que se apresenta como uma empresa de suporte lógico, e não como um fabricante tradicional. Foi fundada em 2014 e está entre as marcas chinesas com soluções tecnológicas mais avançadas, em especial nos sistemas de assistência à condução.
Em Portugal, é representada pela Salvador Caetano desde 2024. A estreia nacional foi feita com os modelos G6 (utilitário desportivo de linhas coupé e dimensão média), G9 (utilitário desportivo eléctrico de luxo com autonomia até 570 km) e P7 (berlina de estilo coupé).
Na China, é também um parceiro privilegiado da Volkswagen. O grupo alemão tem reforçado de forma significativa a sua presença junto da XPeng, com várias parcerias industriais em curso para partilha de tecnologia e desenvolvimento de novos modelos.
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