A indústria automóvel europeia pode voltar aos níveis máximos de produção observados no período pós-crise de 2008 - aproximadamente 16,8 milhões de automóveis por ano - de acordo com um estudo da organização ambiental Transport & Environment (T&E), desde que a União Europeia (UE) mantenha a meta de zero emissões para 2035.
O que está em causa?
A divulgação do estudo acontece numa altura em que a União Europeia decidiu dar mais margem aos fabricantes para cumprirem as metas de emissões de CO₂.
No desenho inicial das regras, o sector teria de atingir até ao final deste ano a fasquia de 93,6 g/km de CO₂, sob pena de enfrentar coimas muito elevadas em caso de incumprimento. Entretanto, o apuramento das emissões de cada construtor passa a resultar da média dos anos 2025, 2026 e 2027. Ainda assim, a redução em 100% das emissões de CO₂ em 2035 mantém-se inalterada.
Esta aparente flexibilização por parte da UE foi motivada, sobretudo, pela procura abaixo do esperado por carros elétricos. Para atingirem os limites de emissões, os fabricantes dependem, em grande medida, de um crescimento sustentado das vendas de elétricos.
Depois de uma ligeira descida em 2024, em 2025 as vendas de elétricos na UE estão a avançar de forma expressiva - +26% até maio -, embora este ritmo ainda não seja suficiente, por si só, para garantir o cumprimento das metas de emissões.
Esse aumento tem sido impulsionado pelas vendas a frotas, por incentivos, e também por descontos e campanhas de financiamento promovidas pelos próprios fabricantes.
Estudo da Transport & Environment (T&E): manter o rumo até 2035
Segundo a T&E, persistir na trajetória atual e reforçar um conjunto de políticas poderá elevar em 11% o valor acrescentado da cadeia automóvel europeia até 2035. Entre as medidas destacadas estão:
- obrigatoriedade de eletrificação das frotas empresariais;
- incentivos à produção local de veículos e baterias;
- investimento na rede e na infraestrutura de carregamento.
O estudo sublinha ainda que eventuais reduções de postos de trabalho nas linhas de montagem atuais poderão ser mais do que compensadas pela criação de mais de 220 mil novos empregos em áreas consideradas estratégicas, nomeadamente: - 100 mil na produção de baterias até 2030; - 120 mil na infraestrutura de carregamento até 2035.
Esta leitura contrasta com a de várias associações da indústria automóvel europeia, que têm alertado que a meta de redução em 100% das emissões de CO₂ em 2035 poderá resultar em perdas significativas de emprego - em parte porque os carros elétricos tendem a exigir menos componentes e, consequentemente, menos mão de obra na montagem.
Mantendo-se as metas europeias, a T&E projeta que a capacidade de produção de baterias na UE possa atingir 900 GWh por ano, face aos 187 GWh atuais. Em paralelo, o sector de carregamento poderá quintuplicar o seu peso económico, chegando a um volume de 79 mil milhões de euros em 2035.
Baterias e infraestrutura de carregamento na indústria automóvel europeia
Para além das fábricas e da rede de carregamento, a competitividade da transição passa também por assegurar o acesso a matérias-primas, refinação e reciclagem de baterias dentro do espaço europeu. Uma estratégia mais “circular” - com recolha, reaproveitamento e segunda vida de componentes - pode reduzir dependências externas e estabilizar custos, ao mesmo tempo que melhora o desempenho ambiental ao longo de toda a cadeia de valor.
É igualmente determinante antecipar a dimensão social da transformação: programas de requalificação profissional, mobilidade laboral e apoio a regiões mais expostas (onde a produção tradicional tem maior peso) podem ser decisivos para que a transição elétrica se traduza em emprego sustentável e não apenas em mudança tecnológica.
Dar um passo atrás pode sair caro
A T&E desenha também um cenário alternativo, em que a Europa abranda ou recua na meta de 2035 e falha em construir uma estratégia industrial coerente. Nesse caso, a organização estima consequências graves: até um milhão de empregos em risco e uma redução de 90 mil milhões de euros no contributo económico da cadeia automóvel até 2035.
Além disso, a T&E alerta que até dois terços dos investimentos previstos para a produção de baterias na UE poderão ser cancelados, bem como 120 mil milhões de euros em potenciais receitas associadas à indústria de carregamento.
“Este é um momento decisivo para a indústria automóvel europeia.”
Julia Poliscanova, diretora sénior para Veículos e Cadeias de Fornecimento da Mobilidade Elétrica na T&E
O relatório foi revisto por três associações industriais - E-Mobility Europe, RECHARGE e ChargeUp Europe - que convergem na ideia central de que a Europa só preservará a liderança industrial e climática se mantiver firmeza nas metas e ambição nas políticas de apoio à transição elétrica.
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