As Forças Armadas Reais de Marrocos receberam, nos últimos dias de dezembro, o primeiro lote de viaturas blindadas de rodas WhAP 8×8, num passo decisivo na política de aquisições de defesa do Reino. A entrega ocorreu na sequência da entrada em funcionamento de uma nova unidade industrial na região de Berrechid, perto de Casablanca, onde estes veículos são montados no âmbito de uma parceria entre a Tata Advanced Systems Limited (TASL) e a Defence Research and Development Organisation (DRDO) da Índia.
Esta receção inaugura a fase inicial do acordo assinado no final de 2024, que prevê o fornecimento de um total de 150 veículos ao longo de três anos. A produção em série arrancou em setembro de 2025 e decorre sob um modelo de coprodução local, orientado para adaptar a plataforma às exigências operacionais específicas das Forças Armadas marroquinas e, em paralelo, reforçar a autonomia industrial do país no setor da defesa.
A fábrica de Berrechid e a coprodução do WhAP 8×8 em Marrocos
A unidade de Berrechid é um dos pilares centrais do programa. Com cerca de 20 000 m², trata-se da maior instalação dedicada ao fabrico de armamento em Marrocos. A fábrica atingiu plena capacidade operacional em setembro de 2025, três meses antes do calendário inicialmente previsto. A inauguração contou com a presença do ministro da Defesa da Índia, Rajnath Singh, e do seu homólogo marroquino, Abdelatif Loudyi, que sublinharam o impacto do projeto na formação de quadros técnicos e na consolidação de uma rede local de fornecedores.
De acordo com os dados disponíveis, quase um terço dos componentes do WhAP 8×8 é atualmente produzido em território marroquino. As autoridades e a empresa pretendem elevar essa percentagem para 50% nas fases seguintes de fabrico. Esta abordagem procura garantir a sustentabilidade do sistema a longo prazo, ao facilitar, a partir de Marrocos, tarefas de manutenção e apoio ao longo de todo o ciclo de vida do veículo.
Neste enquadramento, a criação da subsidiária “Tata Advanced Systems Morocco” contribui para posicionar o país como um potencial polo regional de produção e distribuição do WhAP 8×8 em África.
A aposta na montagem local também tende a reduzir prazos de indisponibilidade e a simplificar a gestão logística, sobretudo em operações prolongadas, ao permitir o abastecimento mais rápido de peças e a realização de intervenções técnicas sem dependência total de cadeias externas. Em termos práticos, isto pode traduzir-se numa maior prontidão operacional das unidades equipadas com o WhAP 8×8.
Paralelamente, programas desta natureza costumam acelerar a transferência de competências em áreas como metalomecânica, integração de sistemas e controlo de qualidade, com impacto na capacidade do país para suportar modernizações futuras e desenvolver, de forma progressiva, uma base industrial de defesa mais robusta.
Características do WhAP 8×8
O WhAP 8×8 foi concebido como uma viatura de combate modular, procurando equilibrar proteção, poder de fogo e mobilidade. É equipado com um motor Diesel turboalimentado de 600 cv, instalado na parte dianteira esquerda do casco, com o objetivo de otimizar a relação potência/peso. O conjunto de propulsão inclui uma transmissão automática, um retardador integrado e um sistema de arrefecimento com motores hidráulicos, além de soluções destinadas a reduzir a assinatura térmica através da diluição dos gases de escape.
Ao nível da mobilidade, o blindado dispõe de tração às oito rodas e suspensão hidropneumática de triângulos sobrepostos. Oferece um modo de alta velocidade para deslocações em estrada e um modo de baixa velocidade para terreno difícil. Os dois primeiros eixos direcionais permitem um raio de viragem de cerca de 19 m, o que melhora a manobrabilidade em ambiente urbano e em zonas montanhosas. Para operações anfíbias, o WhAP 8×8 integra dois hidrojactos traseiros, alcançando até 10 km/h na água; em estrada, pode ultrapassar 100 km/h. O sistema central de enchimento dos pneus (CTIS) e os pneus com capacidade de rodagem após perda de pressão asseguram mobilidade continuada mesmo em caso de despressurização.
Em matéria de proteção, o veículo cumpre a norma NATO STANAG 4569, com níveis de proteção balística modular do Nível 1 ao Nível 4, capazes de resistir a munições perfurantes até 14,5 mm. A proteção antiminas baseia-se num casco em V e num piso reforçado, concebidos para desviar a energia da explosão. No interior, existem assentos de atenuação de choque suspensos no teto e um compartimento de tropa configurado para seis a oito militares, com periscópios individuais e aberturas de tiro.
A modularidade é um dos principais atributos do WhAP 8×8. A plataforma pode ser configurada como transporte blindado de pessoal, posto de comando e controlo ou viatura de apoio de combate. Permite ainda a integração de estações de armas remotas ou torres tripuladas, com opções que vão de metralhadoras de 7,62 mm e 12,7 mm a canhões automáticos de 30 mm. Segundo informação recente, Marrocos e a TASL trabalham igualmente em variantes armadas com canhões de 105 mm e 120 mm, destinadas a missões de apoio de fogo direto. Está também prevista uma variante médica para evacuação e apoio cirúrgico no teatro de operações.
A escolha do WhAP 8×8 ganhou consistência após ensaios comparativos realizados em Marrocos em 2022, nos quais a plataforma terá superado outros concorrentes internacionais, incluindo o Type-08 de fabrico chinês. Esses testes sustentaram a decisão de adotar o modelo indiano como substituto progressivo de viaturas blindadas mais antigas de origem francesa ao serviço do Exército marroquino.
Outras aquisições na modernização das Forças Armadas Reais de Marrocos
A entrada em serviço das viaturas WhAP 8×8 produzidas localmente integra-se num processo mais amplo de modernização das Forças Armadas Reais de Marrocos. Em novembro de 2025, o Reino confirmou a aquisição de dez helicópteros Airbus H225M para a Força Aérea Real Marroquina, destinados a substituir os SA 330L Puma e focados sobretudo em missões de busca e salvamento (SAR) e busca e salvamento em combate (CSAR).
Mais recentemente, diversas fontes abertas e registos de satélite apontaram para a possível entrada ao serviço de sistemas de defesa aérea Barak MX de origem israelita, embora, até ao momento, não exista confirmação oficial por parte das autoridades marroquinas. Em conjunto, estas aquisições evidenciam uma estratégia continuada de atualização de capacidades e de diversificação de fornecedores, com uma ênfase crescente na produção local e no desenvolvimento de competências industriais próprias.
Imagens meramente ilustrativas.
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