Saltar para o conteúdo

Fragatas Tipo 31 e Arrowhead 140: a Armada do Chile e o Reino Unido num potencial eixo estratégico com a ASMAR

Dois trabalhadores com capacetes discutem planos ao lado de um modelo de navio num estaleiro naval ao pôr do sol.

Com o objectivo de acelerar a modernização da Esquadra Nacional e, em paralelo, robustecer a sua indústria naval, a Armada do Chile surge como um potencial parceiro estratégico para o Reino Unido, que procura posicionar as fragatas Tipo 31 como a futura espinha dorsal da frota chilena. Desenvolvidas pela Babcock International como navios multipropósito de última geração, estas unidades destacam-se pela modularidade, pela eficiência e por custos mais contidos, características que as colocam como uma opção particularmente atractiva no plano de renovação naval chileno. Do lado britânico, uma eventual associação com a ASMAR reforçaria o papel do país sul-americano como referência regional na construção naval e daria maior projeção internacional ao programa Arrowhead 140.

O programa britânico Tipo 31 na Royal Navy: classe Inspiration e a HMS Venturer

Enquanto avalia oportunidades de exportação, o Reino Unido continua a consolidar o seu programa Tipo 31, destinado a dotar a Royal Navy com cinco fragatas da classe Inspiration. A primeira unidade, a HMS Venturer, atingiu recentemente um marco relevante com a instalação do seu mastro integrado, elemento onde se concentram os principais sistemas de radar, guerra electrónica e sensores ópticos.

Com 139 metros de comprimento e um deslocamento a rondar as 5.700 toneladas, as fragatas Tipo 31 oferecem uma plataforma de desenho flexível e com custos operacionais optimizados, preparada para missões de defesa aérea, guerra de superfície e operações internacionais no âmbito da OTAN.

Exportações e adopções do Arrowhead 140: Miecznik, PT PAL e “Red White”

Impulsionadas pela sua capacidade de adaptação, as Arrowhead 140 já foram escolhidas por Polónia e Indonésia para programas nacionais com construção local. Na Polónia, o projecto Miecznik progride com a construção de três fragatas sob licença da Babcock, com opção para mais cinco unidades adicionais. Já na Indonésia, a empresa estatal PT PAL está a construir duas fragatas “Red White” assentes no mesmo desenho.

Em ambos os casos, o modelo britânico evidenciou flexibilidade para responder a requisitos específicos, combinando transferência de tecnologia com construção doméstica e desenvolvimento de capacidades industriais nacionais.

Dinamarca e o ciclo do desenho: Iver Huitfeldt como base das Tipo 31

O êxito do programa estimulou também o interesse da Dinamarca, cujo desenho Iver Huitfeldt serviu de base ao conceito das Tipo 31. Copenhaga encontra-se actualmente em negociações com Londres para a aquisição de três novas fragatas destinadas a substituir as unidades em serviço, fechando um ciclo simbólico: um desenho de origem dinamarquesa, aprimorado pelo Reino Unido e posteriormente adoptado por várias marinhas, consolidando o Arrowhead 140 como uma plataforma de referência à escala global.

ASMAR e o Plano Nacional Contínuo de Construção Naval: base industrial para fragatas de nova geração

A afirmação da ASMAR como pilar do Plano Nacional Contínuo de Construção Naval reflecte o compromisso do Chile em desenvolver capacidades próprias e sustentáveis ao longo do tempo. Nos últimos anos, o estaleiro liderou projectos de grande dimensão, incluindo a série de patrulhas oceânicas OPV-80, a modernização das fragatas Tipo 23, a construção do Navio Polar “Almirante Viel” e o arranque do segundo navio multipropósito Escotillón IV.

Este progresso industrial contínuo reforça a viabilidade de o Chile avançar, num horizonte relativamente curto, para a construção local sob licença de fragatas de nova geração, seguindo um modelo semelhante ao adoptado por outros países que seleccionaram o desenho britânico Arrowhead 140.

Cooperação Reino Unido–Armada do Chile: encontros em Londres e transferência de tecnologia

Em 2023, a então ministra da Defesa do Chile, Maya Fernández, reuniu-se em Londres com o seu homólogo britânico Ben Wallace e com o ministro das Aquisições, Alex Chalk. Nessas reuniões, foram discutidos temas de cooperação em construção naval, ciberdefesa e transferência tecnológica. Nesse enquadramento, o Reino Unido expressou interesse em explorar a hipótese de o Chile adoptar o desenho Tipo 31, colocando em cima da mesa apoio técnico e transferência de conhecimento.

A proposta encaixa na estratégia britânica de alargar a presença internacional das suas fragatas, ao mesmo tempo que responde à ambição chilena de incorporar navios de nova geração e reforçar capacidades industriais através da ASMAR.

Fragatas Tipo 31 para a Armada do Chile: substituição das Tipo 22 e Tipo 23 e autonomia industrial

Neste contexto, a possibilidade de o Chile integrar fragatas Tipo 31 como substitutas das suas Tipo 22 e Tipo 23 apresenta-se como um passo coerente no processo de modernização. Para além do salto tecnológico, o projecto abriria uma janela estratégica para aprofundar a cooperação com o Reino Unido e fortalecer a autonomia da indústria naval nacional.

A concretização permitiria também fechar um ciclo de desenvolvimento iniciado com a construção dos OPV-80, continuado com o Navio Polar “Almirante Viel” e com os navios multipropósito Escotillón IV, assinalando um ponto de viragem: a transição de modernizar navios importados para construir no Chile as suas próprias fragatas de combate, projectando a Armada como uma força moderna e regionalmente mais auto-suficiente.

Um elemento adicional com impacto directo no sucesso de uma eventual adopção passa pelo suporte ao longo do ciclo de vida: formação de tripulações, manutenção programada, disponibilidade de sobressalentes e capacidade de actualização de sistemas. Um modelo com forte participação da ASMAR pode reduzir dependências externas e encurtar tempos de indisponibilidade, sobretudo se for criado um ecossistema local de fornecedores e engenharia, alinhado com a modularidade do Arrowhead 140.

Também a integração de equipamentos e doutrinas - desde sensores e guerra electrónica até ligações de dados e interoperabilidade em operações com parceiros - tende a ser um factor determinante na definição da configuração final. A experiência acumulada pela Armada do Chile na operação e modernização de fragatas Tipo 23 pode facilitar a transição, ao mesmo tempo que a adopção de uma plataforma como a Tipo 31 oferece margem para adaptar o navio a necessidades nacionais e a exigências de missões multinacionais, incluindo enquadramentos associados à OTAN.

Imagens utilizadas a título meramente ilustrativo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário