A evidência disponível não aponta de forma convincente para uma ligação entre a reposição hormonal após a menopausa e a demência, de acordo com uma ampla meta-análise.
O que conclui a revisão mais rigorosa sobre terapia hormonal da menopausa (MHT) e demência
A investigação mais exigente feita até agora sobre a relação entre saúde cognitiva e terapia hormonal da menopausa (MHT) - também conhecida como terapia de substituição hormonal (HRT) - analisou se repor as hormonas ováricas após o fim da menstruação pode influenciar a memória, a cognição e o risco de demência.
O trabalho reuniu dados de saúde de mais de um milhão de mulheres e foi encomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que, até ao momento, não emitiu orientações específicas sobre demência e MHT, apesar da controvérsia recente.
Segundo a autora sénior Aimee Spector, psicóloga clínica do Colégio Universitário de Londres (UCL), esta revisão deverá apoiar as futuras recomendações da OMS: as próximas orientações sobre redução do risco de declínio cognitivo e demência estão previstas para 2026.
Benefícios e riscos: o que já é consensual sobre a HRT/MHT
De forma geral, os especialistas concordam que, quando bem prescrita, a terapia de substituição hormonal (HRT) é segura e muito eficaz no controlo de sintomas da menopausa, como:
- afrontamentos (ondas de calor)
- suores nocturnos
- sono de má qualidade
- diminuição da libido
- osteoporose
Na maioria das pessoas saudáveis, os ganhos em qualidade de vida tendem a superar os riscos potenciais da MHT, que podem incluir um aumento muito pequeno do risco de coágulos sanguíneos e uma subida ligeira da probabilidade de cancro da mama em quem tem factores de risco específicos. Ainda assim, estas variações de risco dependem do momento em que a terapêutica é iniciada, do tipo de hormonas usadas e até da forma de administração.
Porque continua o debate sobre cognição e envelhecimento
Embora alguns estudos associem a menopausa à demência - e existam indícios de que alterações hormonais ao longo da vida se relacionam com mudanças no cérebro - permanece por esclarecer se a MHT ajuda, prejudica ou não altera a cognição à medida que a pessoa envelhece.
Melissa Melville, investigadora de cognição no envelhecimento (UCL) e autora principal, sublinha que a MHT é amplamente utilizada para tratar sintomas menopáusicos, mas o seu efeito na memória, na cognição e no risco de demência continua a ser um dos temas mais discutidos na saúde das mulheres. A coexistência de resultados contraditórios e o receio de possíveis danos alimentaram a discussão pública e clínica, deixando muitas mulheres e profissionais sem clareza sobre se a MHT poderá aumentar ou reduzir o risco de demência.
Resultado central: sem evidência forte de efeito da MHT no risco de demência
No conjunto, a análise não identificou evidência robusta de que a MHT altere o risco de demência, quer no sentido de proteger, quer no sentido de aumentar o risco.
A maioria dos trabalhos incluídos eram estudos observacionais, o que impede estabelecer causalidade. Além disso, os resultados mostraram associações pequenas e inconsistentes com demência - por vezes positivas, por vezes negativas - e, no geral, com certeza muito baixa.
Outro obstáculo importante foi a heterogeneidade: as formulações de MHT, as doses e o momento de prescrição variavam bastante, tornando as comparações difíceis. Por exemplo, mulheres que iniciam MHT após os 60 anos podem enfrentar mais riscos, e a medicação pode ser menos aconselhável nesse cenário.
A revisão identificou apenas um ensaio clínico aleatorizado em que produtos de MHT com estrogénio isolado poderão aumentar o risco de demência em mulheres com mais de 65 anos. Ainda assim, os autores referem que a certeza destes resultados é baixa, devido a imprecisão relevante.
Melville e colegas acrescentam que a diferença absoluta de risco foi de mais 6,27 casos por cada 1000 mulheres, sugerindo pouca ou nenhuma alteração no risco de demência quando a terapêutica é iniciada após os 65 anos.
Coerência com posições recentes de entidades e reguladores
As conclusões são consistentes com uma comissão internacional de 2024 dedicada à demência (publicada numa revista médica de grande impacto), que considerou não haver evidência suficiente para afirmar que a MHT aumenta ou diminui o risco de demência.
Os resultados também vão ao encontro de um anúncio recente do regulador norte-americano do medicamento e produtos de saúde, que detalhou planos para retirar os avisos de “caixa preta” em produtos de MHT, os quais anteriormente alertavam para um aumento do risco de demência.
Nesse mesmo anúncio, foi citada uma investigação que sugeria que a HRT poderia reduzir o risco de doença de Alzheimer. No entanto, esta nova revisão indica que essa afirmação não assenta em evidência sólida.
Apesar disso, as orientações de 2024 da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia recomendam MHT para a prevenção de demência quando existe insuficiência ovárica prematura.
Em síntese, os autores concluem que a evidência disponível não sustenta o uso de MHT apenas para reduzir o risco de demência, mas também não indica que a MHT aumente esse risco. Defendem, por isso, mais investigação de elevada qualidade para esclarecer o papel da MHT na demência.
Onde faltam dados: menopausa precoce, histerectomia e ooforectomia
A equipa da revisão destaca a necessidade de informação mais detalhada sobre pessoas que entram em menopausa precocemente, seja por:
- histerectomia (remoção cirúrgica do útero)
- ooforectomia (remoção de um ou de ambos os ovários)
Estudos recentes sugerem que realizar uma ooforectomia antes dos 50 anos pode estar associado a um risco significativo para a saúde cerebral. Já a histerectomia foi relacionada com maior risco de acidente vascular cerebral. Ainda assim, os dados actuais são insuficientes para comparar devidamente estes subgrupos.
Dois pontos práticos que ajudam a enquadrar a decisão clínica
Mesmo sem evidência forte de impacto no risco de demência, a escolha de iniciar, manter ou alterar uma MHT deve ser individualizada. Em contexto clínico, é habitual ponderar idade, tempo desde a última menstruação, antecedentes pessoais e familiares (por exemplo, tromboses, cancro da mama), tipo de sintomas e preferências da pessoa - porque o equilíbrio entre benefícios e riscos pode mudar de caso para caso.
Além disso, a forma como a MHT é administrada (por exemplo, diferentes vias e combinações hormonais) e o momento de início são variáveis frequentemente apontadas como relevantes para segurança e tolerabilidade. A revisão reforça precisamente que, sem estudos mais consistentes e comparáveis, é difícil transformar sinais dispersos em conclusões firmes sobre cognição e demência.
Um campo subfinanciado e a necessidade de recuperar confiança
A investigação sobre menopausa continua a ser gravemente subfinanciada a nível mundial.
Depois de alguns estudos iniciais terem associado a MHT a efeitos negativos para a saúde, as prescrições caíram de forma acentuada em vários países, apesar das limitações desses resultados e das muitas ressalvas que vieram a ser reconhecidas mais tarde.
Reconstruir a confiança nesta terapêutica transformadora exigirá tempo, dados melhores e investigação contínua.
O estudo foi publicado na revista Longevidade Saudável.
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