A passagem para Veículos Definidos por Software (SDV) está a obrigar construtores e fornecedores a trabalharem de outra forma, defende Derek de Bono, vice-presidente da área de Veículos Definidos por Software na Valeo.
Segundo o responsável, a solidez de um projecto depende sempre do seu ponto mais frágil - e, no caso dos SDV, existem tantos componentes e interfaces que, sem o parceiro adequado, os problemas tornam-se inevitáveis. De Bono partilhou esta visão numa entrevista à Automotive News Europa.
O executivo deixou ainda um aviso: alguns construtores têm tentado avançar sozinhos no desenvolvimento de SDV, mas acabam por esbarrar em obstáculos técnicos e organizacionais e, mais tarde, regressam com a mesma pergunta - “o que é que poderíamos ter feito de forma diferente?”. Para ele, a resposta é simples: as parcerias são a única via realista.
Para enquadrar o tema, um Veículo Definido por Software é um automóvel em que a camada de programas assume o controlo da maioria das funções do veículo, em vez de depender sobretudo de componentes físicos dedicados.
Parcerias estratégicas para Veículos Definidos por Software
Para gerir a complexidade associada a esta mudança, a Valeo aproveitou o Salão de Munique (IAA 2025) para anunciar parcerias estratégicas com empresas como a Qualcomm, a Momenta e a Capgemini.
Em paralelo, a empresa francesa mantém uma colaboração com a Amazon Web Services (AWS) com o objectivo de acelerar a transição para os SDV. Esta “aliança” assenta no desenvolvimento de soluções avançadas de programas, plataformas de elevado desempenho e veículos com sistemas de condução assistida integrados.
Do lado dos construtores, a Valeo já tinha comunicado colaborações com a BMW, Renault e Volkswagen. Além disso, a empresa está a preparar-se para iniciar trabalho com um construtor norte-americano antes de 2030. De Bono acrescentou também que a Valeo terá “várias arquitecturas de SDV” a serem lançadas na China.
Entretanto, outros fornecedores de tecnologia seguem uma estratégia semelhante. A NVIDIA, por exemplo, anunciou recentemente uma parceria com a General Motors, centrada no futuro da condução autónoma.
O que muda na indústria com os SDV
A transformação em SDV não é apenas uma alteração técnica: implica repensar processos de desenvolvimento, ciclos de validação e responsabilidades ao longo do ciclo de vida do automóvel. Quando uma função passa a ser definida por programas, torna-se essencial coordenar equipas de engenharia, integração de sistemas e operações pós-venda, garantindo consistência entre plataformas, versões e configurações.
Outro ponto crítico é a governação das actualizações do veículo. A capacidade de actualizar funcionalidades à distância traz vantagens evidentes, mas exige também disciplina na gestão de versões, rastreabilidade e testes, bem como uma abordagem robusta à segurança informática e à segurança funcional, para que a inovação não comprometa a fiabilidade.
Futuro dos Veículos Definidos por Software
De Bono antecipa que, até 2030, uma parte muito significativa dos automóveis já terá uma arquitectura SDV suficientemente madura, ao ponto de a expressão “SDV” deixar de fazer sentido por se tornar o padrão. Na sua perspectiva, a inteligência artificial encaixa naturalmente neste modelo: permite que os veículos evoluam de forma contínua através de actualizações sem fios, mantendo o automóvel actualizado e adaptado ao utilizador, à semelhança de um telemóvel inteligente.
No final, o executivo reforça que o factor decisivo para vencer no universo dos Veículos Definidos por Software é a colaboração estratégica: tecnologia, fornecedores e construtores a trabalhar lado a lado para dominar a complexidade e acelerar a inovação.
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