Há atualmente no mercado europeu de usados vários Maserati GranTurismo que custam menos do que um Dacia Duster novo bem equipado. O que parece uma história de café acaba por assentar num anúncio bem concreto - e mostra até que ponto um automóvel de luxo pode perder valor de forma quase brutal.
Um gran turismo ao preço de um Dacia
O destaque vai para um Maserati GranTurismo de 2009. O automóvel está anunciado por 24.990 euros - precisamente numa faixa de preço muito próxima da de um Dacia Duster novo, com uma configuração razoavelmente completa. Num SUV compacto novo com esse orçamento, o habitual são pouco mais de 130 cv e muitos plásticos no habitáculo; aqui, pelo mesmo dinheiro, leva-se um coupé com quase 405 cv e revestimentos em pele.
Um coupé de luxo que custava mais de 100.000 euros desce, em termos de preço, ao nível de um SUV simples para o dia a dia - a tentação é evidente.
Quando foi lançado, o GranTurismo custava largamente acima dos 100.000 euros. A sua curva de preço mostra, de forma muito clara, como a desvalorização pode atingir com violência os automóveis de luxo e elevada cilindrada. Para quem aprecia carros exóticos, isto abre uma janela rara: o acesso a uma categoria de veículo que, em novo, estava reservada a outro patamar de orçamento.
Design da Pininfarina em vez do charme do plástico
O GranTurismo está entre os coupés mais distintos dos anos 2000. Desenhado pela Pininfarina, reúne todos os elementos clássicos da elegância italiana: capô longo, linha de tejadilho fluida e ombros largos. Enquanto os SUV modernos tendem a ser sobretudo funcionais, o Maserati vive da sua presença e da sua encenação - cada viagem começa, de certa forma, no momento em que o condutor olha para trás depois de sair do carro.
Para o apelo deste exemplar específico contribui também o estado geral. Segundo o vendedor, o carro encontra-se, na sua maioria, em condição original. Muitos GranTurismo ao longo dos anos receberam escapes ruidosos não homologados ou alterações estéticas de gosto discutível. Para quem valoriza um conjunto clássico e harmonioso, uma base intacta é sempre uma boa notícia.
Combinação de cores marcante em vez de visual cinzento do quotidiano
O Maserati anunciado apresenta pintura exterior em vermelho escuro, com interior bege e pormenores vermelhos. O efeito é bastante mais ousado do que as combinações habituais de preto, cinzento e prata que dominam o mercado de usados. Para o uso diário pode parecer arrojado, mas num coupé emocional encaixa perfeitamente no carácter do modelo.
- Matrícula de 2009
- Preço: 24.990 euros
- Quilometragem: 99.000 quilómetros
- Cor exterior: vermelho escuro
- Interior: bege com zonas em vermelho
Um V8 da Ferrari sob o capot
O verdadeiro centro de interesse está na mecânica. A Maserati montou no GranTurismo um motor V8 atmosférico de 4,2 litros, desenvolvido em colaboração com a Ferrari em Maranello. Este bloco entrega 405 cv e 460 Nm de binário. A base técnica partilha vários princípios com motores Ferrari da mesma época, mas foi afinada para o carácter de um gran turismo: resposta rápida, sonoridade envolvente e também aptidão para longas viagens.
Um V8 desenvolvido com a Ferrari no automóvel do dia a dia - nesta gama de preços, praticamente não existe nada comparável.
Mais tarde surgiu também uma versão de 4,7 litros com ainda mais potência, mas a ideia principal manteve-se: um oito cilindros atmosférico e rotativo, em vez de um motor pequeno sobrealimentado. Muitos entusiastas preferem esta solução porque responde de forma mais direta e oferece uma sonoridade muito própria, algo que os motores turbo modernos raramente conseguem igualar.
E quanto à fiabilidade?
Entre conhecedores, o V8 tem reputação de poder acumular quilometragens muito elevadas, desde que a manutenção seja cuidada. Exemplares do GranTurismo com 100.000 a 200.000 quilómetros não são raros. A condição essencial é simples: mudanças de óleo regulares e revisões feitas dentro dos prazos, sem adiamentos.
O ponto mais sensível, sobretudo nos primeiros anos de produção, prende-se antes com a transmissão. As primeiras unidades recorriam a uma caixa sequencial, que por vezes fazia mudanças de forma brusca e, em alguns casos, apresentou problemas. A partir de 2009, a Maserati passou a utilizar uma caixa automática ZF de seis velocidades. Esta solução é considerada muito mais robusta, mais suave e mais adequada ao carácter confortável de um Gran Turismo.
A questão da inspeção, impostos e custos de utilização
O preço atrativo deste carro tem um porém. O GranTurismo foi originalmente importado de Dubai e só mais tarde entrou na Alemanha. Segundo o vendedor, os impostos e encargos foram pagos, mas o automóvel é vendido sem inspeção técnica válida em Portugal/Alemanha e sem matrícula local. A aprovação técnica terá de ser tratada pelo comprador.
Sem inspeção técnica recente, o preço desce de forma visível - mas aumenta o risco de haver problemas escondidos que só aparecem na inspeção.
O vendedor afirma que é precisamente esse detalhe que coloca o preço cerca de 5.000 a 7.000 euros abaixo do nível habitual no mercado alemão. O negócio inclui, pelo menos, quatro pneus novos e, se o cliente quiser, também a entrega do carro. Ainda assim, para o futuro proprietário permanece a ida à oficina - e a incerteza sobre se o técnico encontrará mais defeitos.
Quanto custa um Maserati no dia a dia?
O preço de compra é apenas a porta de entrada. Depois disso começa a verdadeira prova de realidade, porque um coupé italiano com V8 exige muito mais atenção do que um SUV acessível de origem romena.
| Item | Ordem de grandeza possível | Particularidades |
|---|---|---|
| Seguro contra todos os riscos | claramente superior ao de um Dacia | potência, valor do veículo e origem contam muito |
| Revisões | valores de várias centenas altas a baixos milhares de euros | são necessários especialistas; peças originais são caras |
| Consumo | muitas vezes 15 litros ou mais por 100 km | pode subir ainda mais com condução mais desportiva |
| Peças de desgaste | travões, suspensão e pneus muito dispendiosos | dimensões largas e componentes de alto desempenho |
São sobretudo os pneus e os travões que fazem disparar as despesas correntes. O GranTurismo circula normalmente com pneus muito largos e de perfil baixo. Um conjunto completo de boa marca aproxima-se rapidamente de valores na ordem dos quatro dígitos. Quem faz muita circulação urbana também tende a desgastar mais depressa o sistema de travagem.
Para quem faz sentido olhar para um Maserati
Quem hoje pensa num Dacia novo ou noutro automóvel pragmático costuma avaliar com rigor os custos fixos, as garantias e a facilidade de utilização diária. Um Maserati usado destina-se a outro tipo de comprador: alguém disposto a sair da zona de conforto e a trocar parte do orçamento por emoções em vez de racionalidade.
Para quem percorre muitos quilómetros em autoestrada ou faz deslocações longas todos os dias, o peso dos impostos e do consumo de um V8 torna-se difícil de justificar. Já um segundo automóvel destinado a passeios de fim de semana, com poucos milhares de quilómetros por ano, permite gerir melhor as despesas.
- Condutores de lazer com garagem própria e acesso a uma oficina independente de desportivos
- Colecionadores à procura de um design icónico dos anos 2000
- Entusiastas que preferem conscientemente um coupé emocional a um SUV novo, mas sem alma
O que deve ser verificado antes da compra
Quem estiver seriamente tentado por um GranTurismo deve confirmar vários pontos antes de avançar. Um deles é o registo completo de manutenção, seja na Maserati, seja num especialista reconhecido. Se faltarem registos, existe o risco de serviços caros terem sido adiados. Nessa altura, aquilo que parecia uma oportunidade pode transformar-se rapidamente numa armadilha financeira.
Nos carros importados, vale ainda a pena analisar com atenção a ferrugem, a parte inferior da carroçaria e a instalação elétrica. Veículos provenientes de regiões quentes têm, em regra, menos corrosão, mas podem apresentar outros sinais de envelhecimento, como interiores desbotados ou plásticos mais frágeis devido ao calor e ao ambiente seco.
Outra precaução importante é a leitura de códigos de erro e a confirmação do histórico de reparações. Num automóvel com esta idade e com este tipo de mecânica, pequenos avisos ignorados podem revelar problemas bem mais caros do que um comprador distraído imagina.
Maserati ou Dacia: uma conta aproximada
Imaginemos uma situação hipotética: alguém quer comprar um Dacia Duster novo por cerca de 25.000 euros, com leasing ou financiamento e garantia incluída. Em vez disso, escolhe o Maserati pelo mesmo valor de compra, mas paga a pronto e sem garantia. No primeiro ano, num coupé de luxo, podem surgir despesas como:
- Grande revisão com óleo, filtros e velas: 1.200 a 2.000 euros
- Acréscimo no seguro face a um Dacia: 500 a 1.000 euros
- Mais imposto automóvel devido ao V8 de grande cilindrada: várias centenas de euros
- Fundo de reserva para imprevistos: mais 1.000 a 2.000 euros é uma quantia sensata
Em troca, o condutor recebe um automóvel capaz de provocar arrepios em cada saída. O que perde é a garantia de fábrica, os custos de utilização reduzidos e a tranquilidade de saber que qualquer oficina de bairro tem as peças necessárias em stock.
Porque é que o mercado de usados mudou tanto
Várias tendências favorecem este tipo de oferta. Por um lado, os carros novos, mesmo nas gamas de entrada, estão cada vez mais caros. Sistemas de segurança, assistentes de condução e normas de emissões empurram os preços para cima. Por outro lado, os motores a gasolina potentes e com emissões elevadas de CO₂ tornam-se menos atraentes em muitos países, porque os impostos e as zonas de emissões dificultam a sua utilização no dia a dia.
Coupés de luxo como o GranTurismo acabam assim numa espécie de nicho: demasiado gastadores para quem pensa apenas de forma racional, demasiado exóticos para frotas e pouco práticos para famílias. É exatamente nesse espaço que os entusiastas podem aproveitar a oportunidade - e conduzir um Maserati V8 enquanto, ao lado, sai do concessionário um Dacia novo.
No fundo, este tipo de compra pede duas coisas ao mesmo tempo: cálculo frio e vontade de aceitar que nem todas as emoções cabem numa folha de cálculo. Um V8 desenvolvido com a Ferrari, comprado ao preço de um Dacia, simplesmente obedece a regras muito diferentes das de um SUV compacto com três cilindros e livro de revisões carimbado.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário