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Porsche na China: a ofensiva dos construtores chineses está a apertar

Carro desportivo eléctrico Porsche prata exposto numa sala de vendas moderna com vidros amplos.

Os fabricantes automóveis chineses estão a transformar-se num problema cada vez maior para os construtores europeus - e esse impacto sente-se tanto na Europa como no próprio mercado chinês. A Porsche é uma das marcas mais pressionadas por esta mudança.

A retração tem sido tão forte que a própria Porsche admite a possibilidade de deixar de vender modelos elétricos na China já dentro de poucos anos.

O orgulho nacional e a ascensão das marcas chinesas

Na China, a fase em que um automóvel europeu representava o auge do estatuto social está a perder força. Em seu lugar, cresce o orgulho nas marcas nacionais, algo que está claramente a influenciar o comportamento dos compradores.

No podcast Auto Rádio, analisámos de que forma os construtores chineses estão a ganhar terreno face às marcas estrangeiras com propostas mais avançadas tecnologicamente, mais ajustadas às preferências locais e com preços muito mais agressivos.

O exemplo do Xiaomi SU7 Ultra é revelador: com 1548 cv, custa cerca de 63 600 euros. Já o Porsche Taycan elétrico mais acessível na China, com 408 cv, ronda quase o dobro desse valor - ultrapassando os 111 mil euros. O resultado foi evidente: em 2024, a Xiaomi vendeu 137 mil unidades do SU7, mais do que o dobro do total comercializado pela Porsche no país.

Esta mudança também ajuda a explicar porque é que muitos consumidores chineses já não compram apenas em função da imagem da marca. Hoje, a combinação entre autonomia, tecnologia embarcada, atualizações de software e integração com ecossistemas digitais locais pesa tanto ou mais do que o prestígio histórico do emblema na grelha.

Porsche na China: os elétricos podem chegar ao fim

A evolução da Porsche no mercado chinês tem sido muito rápida. Em 2021, a marca alcançou o seu melhor registo no país, com 95 671 automóveis vendidos. Em 2024, esse número caiu para 56 887 unidades, o que representa menos 28% do que em 2023. E o arranque de 2025 agravou ainda mais o cenário: no primeiro trimestre, a quebra foi de 42%, com apenas 16 340 unidades vendidas.

A pressão refletiu-se também no mercado bolsista. Só em 2024, as ações da marca recuaram 21%, acumulando já uma desvalorização de 44% desde a entrada em bolsa. O ambiente tornou-se tão delicado que Tu Le, fundador da consultora Sino Auto Insights, chegou a dizer à Automotive News Europe que “a Porsche está terminada na China”.

Enquanto isso, outras empresas do Grupo Volkswagen - como a Volkswagen e a Audi - levaram ao Salão de Xangai elétricos pensados especificamente para os consumidores chineses. A Porsche seguiu noutra direção e mostrou apenas duas versões especiais do 911, ambas com motor de combustão.

Esse posicionamento contrasta com a realidade do mercado, onde mais de metade dos automóveis vendidos na China em 2024 eram elétricos ou híbridos. A marca está, por isso, a rever as suas opções. “Vamos ver se, dentro de dois ou três anos, a Porsche continua a existir como marca elétrica neste país”, declarou Oliver Blume, presidente executivo da Porsche. Neste momento, a oferta elétrica da marca na China resume-se ao Taycan e ao novo Macan.

Blume também rejeita a ideia de uma concorrência direta com as novas marcas chinesas: “São carros interessantes, mas não proporcionam a mesma experiência de condução. Estão num segmento inferior.” E reforça: “O nosso objetivo é manter preços elevados, em linha com o posicionamento da Porsche”.

Por outro lado, Bo Yu, da JATO Dynamics, aponta outra razão para a perda de força da marca: “A ideia de Porsche como marca premium já não diz grande coisa às gerações mais jovens na China”.

Uma crise que vai muito além da Porsche

O problema não se limita à Porsche. A quebra de quota também está a afetar outros fabricantes alemães e de outras origens, entre os quais a Nissan e a General Motors.

No caso da GM, a aposta está concentrada na Buick, que continua a liderar o segmento dos MPV de luxo. Ainda assim, como sublinhou Matt Noone, diretor de design da Buick, “estamos a lutar contra o tempo”.

A transformação do mercado chinês está a forçar todos os construtores premium a repensar o seu papel. Já não basta ter um nome respeitado: é preciso oferecer tecnologia competitiva, software atualizado, preços compatíveis com o mercado local e uma identidade capaz de ressoar junto de consumidores mais jovens, que valorizam cada vez mais inovação e utilidade prática.

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