Há quem atribua a calma de certas pessoas à personalidade, mas muitas vezes essa firmeza vem da época em que cresceram. Em muita gente que fez a sua vida adulta nos anos 60 e 70, a resistência mental foi sendo construída à força: com educação mais dura, menos conforto e um mundo a mudar depressa.
Para quem cresceu nessa fase, lidar com aperto, incerteza e pouca margem para facilitismo era parte do dia a dia. Psicólogos apontam que daí saíram competências que hoje parecem quase raras, sobretudo numa era de excesso de estímulos, e identificam seis forças mentais que ainda marcam estas gerações.
Uma geração que se fez em tempos turbulentos
Quem pertence à chamada geração silenciosa (nascidos antes de meados dos anos 40) ou aos primeiros baby boomers viveu a adolescência e o início da vida adulta numa fase de mudanças sociais profundas. Crescimento económico e crises, Guerra Fria, movimentos de protesto, saltos tecnológicos - tudo isto aconteceu num quotidiano sem smartphone, sem streaming e sem entretenimento a toda a hora.
Os psicólogos sublinham que muita desta gente teve de aprender cedo a conviver com escassez e incerteza. Dessas experiências nasceram seis forças mentais que hoje, em consultas e coaching, quase parecem “recursos de outra época”.
Quem chegou à idade adulta nos anos 60 e 70 costuma ter uma base interior robusta - não apesar das durezas dessa fase, mas precisamente por causa delas.
1. Aguentar a dor e continuar
Em muitas famílias, a mensagem era: “não faças fita”, “aguenta-te”. O apoio emocional era muito mais escasso do que hoje. Não foi sempre saudável, mas afinou uma capacidade importante: atravessar momentos difíceis sem desmoronar logo.
Esta geração aprendeu a seguir em frente mesmo quando havia:
- dor física (quedas, doença, trabalho pesado),
- pressão emocional (conflitos, dificuldades financeiras, tensão familiar),
- e pouca ou nenhuma preocupação dos outros com o seu bem-estar.
O resultado é uma grande tolerância à frustração. Muitas pessoas desta época não se deixam levar por qualquer onda emocional. Mantêm a funcionalidade, mesmo quando por dentro está tudo em ebulição.
O lado menos bom é que os sentimentos podem ficar enterrados durante anos. Quem engole tudo corre o risco de se tornar uma “bomba emocional” que mais tarde rebenta - muitas vezes por detalhes pequenos. Por isso, os psicólogos recomendam juntar essa resistência antiga a ferramentas mais actuais: falar, nomear emoções e aceitar ajuda.
2. Saber entreter-se sem ecrã
Quem foi jovem nos anos 60 ou 70 conhecia bem o tédio. E foi precisamente esse tédio que abriu espaço à criatividade. Em vez de telemóvel e entretenimento contínuo, havia:
- brincadeiras na rua ou no pátio,
- jogos inventados na hora,
- livros, revistas, banda desenhada,
- trabalhos manuais, música, desporto em clube.
Dessa realidade nasceu uma força hoje menos comum: a capacidade de estar consigo próprio. Muitos conseguem sentar-se sozinhos com uma chávena de chá à janela, pensar, planear, sonhar - sem correr logo para o ecrã.
Quem aprendeu a ocupar-se sem distrações tem uma espécie de ilha de calma mental, cada vez mais rara hoje em dia.
Num tempo de sobrecarga constante de estímulos, isso ajuda muito: fica mais fácil concentrar-se, diminui a comparação permanente com os outros e volta-se a ouvir a própria voz interior.
3. Afinado para o ambiente
Em muitas famílias dizia-se: “as crianças não se metem na conversa”. Os adultos mandavam, os mais novos tinham de obedecer. Visto de hoje, isso é problemático, mas teve um efeito colateral: muitas pessoas desenvolveram um radar muito fino para o clima à sua volta.
Quem em criança teve de perceber quando podia falar e quando era melhor ficar calado aprendeu a reparar em detalhes como:
- o tom de voz e o volume,
- os olhares e a postura corporal,
- as tensões que ninguém dizia em voz alta.
No trabalho, isto vale ouro. Estas pessoas percebem se uma reunião está a descambar, se uma piada cai bem ou não, ou se alguém está a ferver por dentro apesar do sorriso.
O reverso da medalha é que, ao viverem tão sintonizadas com os outros, podem pôr a sua própria opinião em segundo plano. Sobretudo no emprego, isso faz com que outras pessoas pareçam mais fortes - e acabem por se impor, mesmo quando os mais discretos têm os melhores argumentos.
4. As preocupações com dinheiro como ruído de fundo
Muitas famílias destes anos conheciam bem a insegurança financeira. Desemprego, salários baixos, falta de proteção - as crianças percebiam tudo, mesmo quando os pais tentavam esconder. Absorvem a tensão como esponjas.
Daí nasceu muitas vezes uma relação realista, e por vezes bastante rígida, com o dinheiro:
- segurança vem antes de luxo.
- fazer dívidas assusta.
- poupar quase tem valor moral.
Os psicólogos vêem aqui um ponto forte: quem vive cedo a fragilidade da prosperidade tende a pensar a longo prazo, a criar reservas e a deixar-se influenciar menos pela pressão do consumo.
A voz interior “não gastes mais do que entra” continua a proteger muita gente desta geração de decisões financeiras arriscadas.
Ao mesmo tempo, o stress financeiro antigo pode ficar muito entranhado. Há quem reaja com pânico, mesmo tendo hoje uma situação estável. Vale a pena fazer esta pergunta: o medo é mesmo de agora - ou ainda está a falar a criança que sentia o ambiente tenso à mesa da cozinha?
5. Viver com mudança social permanente
Os anos 60 e 70 foram cheios de rupturas: movimentos feministas, lutas pelos direitos civis, protestos contra guerras, novos estilos de vida, novas tecnologias. Quem era jovem nessa altura estava no centro de um mundo em transformação acelerada.
Muita gente ficou com a noção de que:
- as normas não são imutáveis.
- a política e a sociedade podem ser influenciadas.
- “sempre foi assim” não é argumento.
Isto pode ser reconfortante hoje. Quando surgem novas tecnologias, crises ou debates sociais que assustam, aparece muitas vezes uma frase interior: “já passámos por muita coisa. Vamos conseguir dar a volta.”
Os psicólogos vêem aqui uma forma de serenidade que por vezes falta às gerações mais novas. Quem aprendeu que a mudança faz parte da vida tem menos tendência para cair em cenários de fim do mundo.
6. Grande resiliência apesar de regras duras
Em muitas famílias daquela época, o calor emocional era pouco, o castigo físico ainda era comum e os temas psicológicos eram tabu. As crianças assumiam responsabilidades cedo, por exemplo com irmãos ou tarefas domésticas.
Em retrospectiva, muita gente conta que se sentiu muitas vezes sozinha - e, ao mesmo tempo, carregou mais do que seria expectável. É aí que entra uma resiliência enorme: a capacidade de avançar apesar das adversidades.
| Pressão de então | Força aprendida hoje |
|---|---|
| Pouco apoio emocional | Autonomia, estabilidade interior |
| Responsabilidade precoce | Sentido do dever, fiabilidade |
| Normas e proibições rígidas | Adaptabilidade, disciplina |
Estas forças merecem ser visíveis. Não surgiram do nada; foram moldadas por anos em que muita coisa tinha simplesmente de ser “aguentada”.
Como gerações mais novas e mais velhas podem beneficiar umas das outras
As competências descritas aqui não existem só nos mais velhos. Os mais novos também trazem forças próprias: maior abertura emocional, mais atenção à saúde mental, domínio da tecnologia e mais flexibilidade no trabalho.
O mais interessante acontece quando as duas gerações aprendem uma com a outra:
- os mais velhos podem inspirar-se na abertura emocional dos mais novos.
- os mais novos beneficiam da serenidade e da experiência de crise dos mais velhos.
- equipas com estas duas formas de estar lado a lado costumam tomar decisões mais equilibradas.
Hoje, força mental não é só ser duro, mas ser duro e
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