O Oceano Pacífico tropical está a aquecer novamente e, segundo os cientistas, os primeiros sinais de um novo El Niño estão a tornar-se cada vez mais nítidos.
Observações por satélite revelam uma mancha crescente de água invulgarmente quente a alastrar pela região - um padrão que, com frequência, assinala o arranque de um dos ciclos climáticos mais influentes do planeta.
Por enquanto, o aquecimento é moderado, mas mesmo variações pequenas à superfície do oceano podem indicar mudanças muito maiores na forma como o oceano e a atmosfera trocam calor.
Se o El Niño continuar a ganhar forma, poderá repercutir-se no estado do tempo à escala global, desde ondas de calor e secas até cheias e alterações nas trajectórias das tempestades de Inverno.
Estes dados recentes vêm dos satélites Copernicus Sentinel-3 da Agência Espacial Europeia (ESA), que detectaram um padrão de temperatura da superfície do mar típico das fases que antecedem um episódio de El Niño plenamente desenvolvido.
O que acontece durante o El Niño
O El Niño é uma das fases de um sistema acoplado oceano-atmosfera conhecido como Oscilação Sul–El Niño (ENSO).
Surge quando os ventos alísios, que normalmente empurram as águas quentes superficiais para oeste ao longo do Pacífico, enfraquecem.
Com esse enfraquecimento, a água mais quente recua em direcção a leste, elevando as temperaturas da superfície do mar em grande parte do Pacífico tropical. O aquecimento resultante reconfigura os padrões de vento e a circulação atmosférica muito para além dos trópicos.
“Usamos anomalias - a diferença entre as condições actuais e a média de longo prazo - porque o El Niño começa muitas vezes como um desvio subtil face ao que é considerado normal”, explicou o cientista do Sentinel-3 da ESA, Craig Donlon. “Estas mudanças iniciais são mais fáceis de identificar quando comparadas com um padrão de referência.”
À primeira vista, estas alterações de temperatura podem parecer pequenas. No entanto, o oceano armazena e troca quantidades enormes de calor, o que significa que um aumento ligeiro pode sinalizar uma mudança significativa no modo como a energia circula entre o oceano e a atmosfera.
Como o El Niño altera o estado do tempo
Quando essas mudanças de grande escala se instalam, tornam-se difíceis de ignorar. Episódios de El Niño podem intensificar ondas de calor, agravar secas, desencadear cheias e perturbar as trajectórias das tempestades de Inverno.
Tudo isto ocorre sobre um clima que já está a aquecer devido à actividade humana. Por isso, os efeitos clássicos do El Niño desenrolam-se hoje num mundo mais quente do que aquele em que este padrão foi inicialmente descrito.
Desde o episódio histórico de 2023-2024, que bateu recordes, os cientistas do clima têm acompanhado de perto a combinação entre um El Niño forte e uma temperatura de base já elevada.
O aquecimento do Pacífico chega à Europa
A cadeia de impactos não fica confinada aos trópicos. Quando as águas mais quentes do Pacífico reforçam a ascensão do ar e a precipitação nessa zona do oceano, a atmosfera reage. A mudança na circulação pode gerar ondas de grande escala que se propagam para latitudes mais altas e até para a estratosfera.
Em condições favoráveis, essas ondas podem enfraquecer o vórtice polar - a massa de ar frio em rotação sobre o Árctico - ou perturbar o padrão de circulação de Inverno sobre a Europa.
Se essa perturbação se verificar, os seus efeitos podem descer gradualmente na atmosfera nas semanas seguintes. Esse processo pode desviar a corrente de jacto e aumentar a probabilidade de padrões meteorológicos persistentes sobre o Atlântico Norte.
Isto não significa que o El Niño provoque Invernos frios na Europa. A relação é probabilística, não determinística.
Ainda assim, pode inclinar as probabilidades, sobretudo quando actua em conjunto com outros factores. Um deles é a oscilação quase-bienal, um ciclo de padrões de vento no alto da estratosfera que também influencia a facilidade com que o vórtice polar pode ser perturbado.
Acompanhar o El Niño a partir do espaço
Os cientistas estão a acompanhar este evento em formação recorrendo a uma combinação de satélites, balões meteorológicos e modelos informáticos. Nenhuma observação, por si só, conta a história completa.
A força da monitorização climática moderna está na integração destas fontes. Os dados de satélite oferecem cobertura e continuidade que nenhuma rede baseada no solo consegue igualar.
Depois, os modelos cruzam várias linhas de evidência para construir um retrato mais completo da direcção em que a situação evolui.
À medida que a água do mar aquece, também se expande, contribuindo para variações do nível do mar. Espera-se que a altimetria por satélite do Copernicus Sentinel-3 e do Copernicus Sentinel-6 mostre de forma mais clara, nos próximos meses, a influência do El Niño nas anomalias do nível do mar no Pacífico.
Entretanto, um terceiro satélite Sentinel-3, o Sentinel-3C, tem lançamento previsto para este Outono, garantindo a continuidade destas observações à medida que o episódio evolui. O calendário é oportuno: é precisamente quando o El Niño se intensifica que os dados ininterruptos se tornam mais importantes.
O que acontece depois do El Niño
O El Niño não dura para sempre. Por vezes, as condições passam para La Niña - a fase mais fria equivalente - após o episódio, embora isso nem sempre aconteça.
O momento e a intensidade de uma eventual transição variam bastante de um evento para outro.
O El Niño de 2023-2024 foi um dos mais fortes de que há registo. Se este episódio em desenvolvimento atingirá a mesma intensidade é algo que os cientistas ainda estão a avaliar.
O que já é evidente é que o sinal existe. O Pacífico tropical está a aquecer e os indicadores iniciais que normalmente antecedem um El Niño completo estão a surgir nos dados.
Os sistemas de monitorização climática do mundo estão a acompanhar tudo de perto - e, desta vez, pelo menos, é possível vê-lo a aproximar-se.
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