Trabalhadores transpiraram sob um calor sufocante e muitos alunos ficaram em casa na terça-feira, numa onda de calor de início de verão que abafou grande parte da Europa, com a França a registar o dia mais quente de sempre.
Com temperaturas fora do normal, escolas e locais turísticos fecharam mais cedo, e as operadoras ferroviárias anularam viagens, enquanto vários países emitiram alertas vermelhos em extensas áreas do seu território.
"Está a ficar um pouco mais insuportável, está calor", disse Vadim Bobu, um operário da construção civil de 31 anos que trabalhava num estaleiro em Paris.
Mas, acrescentou, "não temos escolha, temos de pagar as contas".
A França, o país mais atingido, viveu na terça-feira o dia mais quente desde que há registos, em 1947, indicou o serviço meteorológico nacional, depois de ter passado pela noite mais quente alguma vez medida.
O indicador nacional de temperatura - uma média das temperaturas diurnas e nocturnas em 30 estações - chegou aos 29.8 °C, informou a Meteo-France, com base em dados provisórios.
Os cientistas têm demonstrado que a repetição destas ondas de calor é um sinal claro do aquecimento global e alertam que, impulsionadas pela queima de combustíveis fósseis por parte do ser humano, tenderão a tornar-se mais frequentes, mais longas e mais intensas.
Na capital espanhola, Madrid, Carmen Loayza, uma doméstica de 50 anos, contou que o calor lhe provocava dores de cabeça e que tentava não gritar com os filhos.
"Mas o calor afecta-me, domina-me", disse.
Perigo para a saúde com o calor
Quase toda a Espanha estava sob alerta de calor, com zonas do sul e do norte no patamar máximo de aviso por "perigo extraordinário", segundo a agência meteorológica nacional AEMET.
À semelhança do que aconteceu noutros países, as autoridades pediram aos cidadãos que reforçassem os cuidados com pessoas vulneráveis, bebessem água e evitassem esforços nas horas de maior calor.
Ainda assim, alguns trabalhadores afirmaram não ter alternativa senão aguentar o sol.
O transportador Valentin Fernandez disse à AFP que estava a passar "um bocado péssimo" a carregar mobiliário e caixas em Madrid, onde a temperatura chegou aos 38C.
"Quando o sol começa a bater, apetece morrer. E dentro do camião é duas vezes pior… é horrível", afirmou, com a camisa encharcada e o suor a escorrer-lhe do nariz.
A falta de ar condicionado em alguns hospitais espanhóis levou o sindicato de enfermeiros SATSE a divulgar um comunicado a denunciar condições que colocam em risco trabalhadores e doentes.
As temperaturas "atingem e ultrapassam os 30 °C em zonas" das instalações hospitalares, afirmou, observando que as autoridades apenas recomendaram que "fechem as janelas e baixem as persianas o máximo possível".
Em Itália, o ministério da Saúde declarou um alerta vermelho por onda de calor em 15 cidades, incluindo Milão e Roma.
Em Milão e Turim, ocorreram falhas de energia devido ao aumento do uso de ar condicionado.
Escolas no Reino Unido encerram
Uma vasta massa de ar quente proveniente do Norte de África estava a abafar a Europa Ocidental, disse à AFP Sebastien Leas, meteorologista do serviço Meteo-France.
Uma frente fria ao largo de Portugal estava "a funcionar como uma bomba de calor, puxando ar quente para cima", explicou.
"Em altitude, os sistemas de alta pressão exercem pressão sobre esta massa de ar quente e, quando comprimimos uma massa de ar quente, acabamos por torná-la ainda mais quente."
Em Inglaterra, dezenas de escolas encerraram mais cedo na terça-feira e deveriam manter-se fechadas por mais dois dias.
"A maioria dos nossos edifícios não consegue ser arrefecida de forma adequada e há pouca sombra no exterior", referiu uma escola do condado de Buckinghamshire, no sudeste.
O serviço meteorológico do Reino Unido, Met Office, emitiu um raro aviso vermelho por calor - apenas pela segunda vez - para partes do centro e do sul de Inglaterra na quarta e quinta-feira.
As temperaturas poderão disparar até aos 40 °C, algo sem precedentes para esta altura do ano - uma perspectiva "séria", segundo o cientista-chefe do Met Office, Stephen Belcher.
A linha ferroviária que liga o nordeste de Inglaterra a Londres divulgou um aviso de "não viaje".
'Sufocante'
Numa reunião de crise, o primeiro-ministro francês Sebastien Lecornu afirmou que 40 pessoas, maioritariamente jovens, morreram afogadas desde o início da onda de calor, a 18 de junho.
Na Alemanha, na segunda-feira, a polícia disse que cinco pessoas morreram em acidentes de natação fatais durante o fim de semana.
Em Paris, alguns turistas descreveram a visita como um verdadeiro suplício.
"Estamos a sufocar nas ruas, estamos a sufocar no metro e estamos até a sufocar no nosso alojamento (arrendado)", disse John Beeler, um norte-americano de 45 anos, acompanhado pela esposa.
Trabalhadores de uma unidade da construtora automóvel Stellantis perto da cidade francesa de Mulhouse disseram que iriam terminar os turnos mais cedo, de terça-feira a domingo, em protesto contra as condições de trabalho durante o calor abrasador.
"As temperaturas em algumas oficinas estão perto de 38–40 °C", afirmou o representante sindical Salah Keltoumi.
"Está-se ali a montar peças, mas com pessoas que chegam exaustas porque não conseguiram dormir bem na noite anterior."
Áustria, Polónia, Hungria e Croácia emitiram, cada uma, avisos de calor para partes do seu território.
Na Hungria e na Eslovénia, os serviços de emergência relataram idosos a procurar ajuda.
© Agence France-Presse
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