Um sinal de sonar discreto no Atlântico, perto da costa espanhola de Cádis, leva uma equipa de investigação até um naufrágio a cerca de 80 metros de profundidade. O que à primeira vista parece ser apenas mais um objeto metálico no fundo lamacento revela-se afinal um submarino dado como perdido da primeira metade do século XX: o submersível francês do tipo «Le Tonnant», afundado pelos próprios tripulantes no outono de 1942, no turbilhão da Segunda Guerra Mundial - e desaparecido desde então.
Um submarino francês entre frentes e falsos amigos: Le Tonnant
O Le Tonnant fazia parte da frota francesa que, depois da derrota de 1940, operou sob o regime de Vichy. A direção em Vichy tentava manter uma neutralidade oficial, mas estava sujeita a uma pressão enorme do Reich alemão e a uma vigilância desconfiada dos Aliados. Foi precisamente nessa zona cinzenta que o submarino se movimentou quando a guerra sofreu uma viragem drástica no outono de 1942.
Em novembro de 1942, os Estados Unidos e o Reino Unido lançam a operação de desembarque no Norte de África, conhecida como «Operação Tocha». O objetivo: Marrocos e Argélia, então sob administração de Vichy. Enquanto as tropas desembarcam na costa, as unidades navais francesas ficam presas numa situação em que antigos aliados passam, de repente, a atuar como adversários.
Nessa altura, o Le Tonnant encontra-se em Casablanca, ainda numa fase de manutenção incompleta. O navio não está totalmente pronto para combate, a guarnição foi reduzida e várias partes da tecnologia estão debilitadas. Depois, os bombardeiros norte-americanos atingem o porto. Vários navios são consumidos pelo fogo, a área fica devastada e, na ponte de comando do submarino, o oficial responsável, o comandante Maurice Paumier, cai logo nas primeiras vagas de ataque.
O seu substituto, o jovem oficial naval Antoine Corre, tem de assumir a liderança no meio do bombardeamento - com um navio danificado e uma situação política completamente incerta. Ainda assim, o Le Tonnant sai para o mar, com o objetivo de enfrentar as forças norte-americanas, equipado com os últimos torpedos que restavam.
Uma tentativa quase sem esperança de combater numa guerra cujas linhas da frente estavam justamente a ser redesenhadas - e em que antigos aliados históricos disparavam agora uns contra os outros.
Sabotagem como última saída no mar aberto
Depois de breves confrontos desiguais, as armas calam-se. Em 11 de novembro de 1942 entra em vigor um cessar-fogo. Para os homens a bordo, isso não traz qualquer perspetiva clara. As comunicações por rádio tornam-se caóticas, a cadeia de comando desfaz-se e continuam a faltar ordens inequívocas. Na prática, o submarino fica à deriva, sem liderança, num vazio político.
Na navegação ao largo da costa espanhola, o Le Tonnant volta a ser atacado - desta vez por aviões norte-americanos, que aparentemente tomam o navio por um alvo inimigo. O fogo de artilharia atinge com dureza o submarino, que já estava fragilizado. A hipótese de regressar em segurança a um porto francês, por exemplo Toulon, fica assim praticamente excluída.
A tripulação enfrenta então uma decisão amarga: deixar o navio severamente danificado cair nas mãos dos norte-americanos ou afundá-lo ela própria, para impedir o acesso à tecnologia e à documentação. A guarnição escolhe o caminho que muitas unidades seguiram naquela época.
Ao largo da costa de Cádis, a tripulação entrega o Le Tonnant ao mar. Os homens abandonam o navio, colocam cargas explosivas e iniciam o afundamento controlado. Em pouco tempo, o submarino desaparece nas águas turvas do Atlântico. Há sobreviventes, mas não existe uma imagem clara de onde, exatamente, o navio foi parar ao fundo. Nos registos oficiais, fica apenas uma indicação aproximada da posição.
Como os investigadores localizaram o naufrágio de Le Tonnant após décadas
Durante mais de oitenta anos, o Le Tonnant existe sobretudo em relatórios militares, memórias de testemunhas e histórias de família. Só uma iniciativa científica franco-espanhola define finalmente como meta concreta localizar e documentar o naufrágio.
Para isso, os documentos privados são decisivos: a família do antigo comandante conserva diários de bordo e apontamentos pessoais. A partir daí, é possível reconstruir rumo, relatórios de rádio e cronologias aproximadas. Os historiadores cruzam esta informação com os registos operacionais aliados e delineiam uma zona de busca muito mais precisa na área da foz do Guadalquivir.
O problema é que a visibilidade nestas águas é péssima. Em suspensão, os sedimentos e as correntes reduzem a visão subaquática a poucos centímetros. Mergulhos clássicos ficam, assim, praticamente fora de questão. Em vez disso, os investigadores recorrem a tecnologia moderna.
Alta tecnologia ao serviço da arqueologia subaquática
Um navio de investigação da Universidade de Cádis percorre sistematicamente a área alvo. A bordo estão sistemas de sonar multifrequência, que varrem o fundo do mar linha após linha. Dos ecos nasce um modelo tridimensional detalhado do subsolo. As irregularidades que sugerem estruturas artificiais destacam-se de imediato.
Numa dessas bases de dados surge, por fim, um objeto com uma silhueta marcante. Comprimento, altura, posição - muito disso corresponde aos planos históricos do tipo de submarino. Numa análise mais minuciosa, tornam-se visíveis componentes característicos.
- torre de comando claramente identificável, com forma típica
- restos dos lemes de direção e de profundidade
- lançadores de torpedos na proa, pelo menos parcialmente expostos
- secção de ré profundamente enterrada em sedimentos
A comparação com os desenhos originais do estaleiro confirma a suspeita: com uma probabilidade muito elevada, trata-se do Le Tonnant. Os investigadores falam de uma «identificação bastante clara», embora, devido à água turva, até agora só câmaras robotizadas tenham conseguido filmar detalhes pontuais.
A forma, as dimensões e os sistemas de armamento ainda visíveis deixam poucas dúvidas: o corpo de aço procurado durante tanto tempo no fundo do Atlântico é o submarino perdido dos anos de Vichy.
Porque é que o oceano esconde melhor os acontecimentos do que os arquivos
O facto de o Le Tonnant ter permanecido sem ser encontrado durante tanto tempo tem várias explicações. Partes da costa espanhola são intensamente navegadas, mas é precisamente aí que o fundo e a água colocam mais dificuldades. Camadas espessas de sedimentos assentam sobre os naufrágios como um manto, enquanto as correntes fortes os deslocam constantemente. O que hoje ainda se ergue do fundo pode desaparecer amanhã.
A isto junta-se outro fator: na memória coletiva, as operações navais francesas sob o regime de Vichy nunca tiveram o papel mais destacado. Muitos historiadores concentraram-se nas próprias operações de desembarque, na resistência ou na guerra naval no Atlântico. Unidades pequenas como o Le Tonnant ficaram para segundo plano.
Com a localização do naufrágio, o foco muda. Afinal, num objeto real a história da guerra pode ser contada de forma mais concreta, para além dos processos burocráticos e frios. O estado do casco, os impactos de bala, as deformações - tudo isto oferece pistas sobre o desenrolar das últimas horas.
Novo interesse noutros submarinos franceses desaparecidos
Os investigadores não se ficam por esta descoberta isolada. O caso do Le Tonnant mostra que a combinação entre tecnologia moderna de levantamento e documentos privados pode ser extremamente eficaz. Agora, outros submarinos franceses também entram no radar, entre eles o «Sidi-Ferruch» e o «Conquérant», perdidos nos mesmos meses.
Ambos afundaram com quase toda a tripulação a bordo. Até hoje, os familiares conhecem apenas posições aproximadas de perda. A importância histórica e emocional destes naufrágios é, por isso, enorme. Equipas de França e Espanha estão atualmente a reunir transmissões de rádio, planos de operação e relatos de testemunhas oculares para também aqui reduzirem as áreas de procura.
- pesquisa em arquivos militares e espólios de família
- cruzamento com diários operacionais aéreos e marítimos aliados
- campanhas de sonar programadas por universidades
- eventual utilização de robôs subaquáticos (ROVs)
O que o naufrágio do Le Tonnant revela sobre a técnica e a estratégia da época
O Le Tonnant é exemplar de um tipo de submarino da entre-guerras. Estes navios eram maiores e tinham maior autonomia do que os submarinos clássicos de caça da guerra no Atlântico, mas eram menos especializados. Os achados no fundo do mar permitem comparar o projeto, o método de construção e a utilização real em contexto de guerra.
Para os especialistas, são particularmente interessantes, por exemplo:
- a disposição dos tubos de torpedo e da munição de reserva
- vestígios de reforços posteriores no casco
- restos de sistemas de radar ou de navegação por azimute
- deformações que apontem para impactos de bombas ou minas
Detalhes deste tipo podem ajudar a explicar porque motivo o navio já não conseguia executar certos manobras ou por que razão os danos sofridos após os ataques aéreos foram considerados irrecuperáveis. Para os historiadores navais, isto completa os relatos escritos, que muitas vezes resultaram da memória ou foram produzidos sob pressão política.
Ao mesmo tempo vala comum de guerra e lugar de memória
Mesmo que a equipa considere a descoberta cientificamente valiosa, permanece uma questão delicada: como lidar com estes naufrágios? Muitos vestígios subaquáticos são também túmulos de guerra ou, pelo menos, locais onde pessoas morreram em ligação direta com combates.
No caso do Le Tonnant, grande parte da tripulação saiu do submarino antes do afundamento controlado; ainda assim, historiadores e representantes da marinha veem o local como um espaço de especial dignidade. As universidades envolvidas sublinham que, para já, não está prevista qualquer recuperação. A prioridade é a documentação virtual: cartas de sonar, modelos 3D e, se necessário, imagens do interior com robôs telecomandados.
Este tipo de procedimento permite, mais tarde, organizar exposições digitais sem perturbar o ecossistema sensível do naufrágio. Ao mesmo tempo, oferece a escolas e museus imagens concretas de um episódio até agora pouco conhecido, tanto na Alemanha como em França: um submarino francês ao serviço de um regime que colaborava com os alemães e que, apesar disso, faz-se ao mar contra tropas norte-americanas - um retrato real da confusão destes anos de guerra.
Para os familiares das tripulações da época, a descoberta traz pelo menos uma medida de clareza. O ponto aproximado no mapa marítimo torna-se um objeto concretamente localizado. Ele conta histórias de limites técnicos, contradições políticas e decisões pessoais que pessoas em situações extremas tiveram de tomar - e que só décadas mais tarde voltam à luz através de imagens de sonar e relatórios de investigação.
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