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Escândalo de abuso sexual nas creches e escolas primárias de Paris

Corredor de escola com secretária e pastas, brinquedos no chão e pessoa a afastar-se ao fundo.

Escândalo de abuso sexual nas creches e escolas primárias de Paris

A rede pública de creches e de escolas primárias de Paris está a ser sacudida pelo que já é descrito como o maior escândalo de abuso sexual de menores de que há memória em França. Nos últimos cinco anos foram entregues centenas de queixas, mas uma parte significativa não chegou a tribunal - e, entre as que chegaram, ainda menos acabaram em condenações de pessoas suspeitas de terem submetido dezenas de crianças a abusos sexuais, acompanhados de ameaças de morte caso contassem em casa o que acontecia dentro das escolas.

Investigações jornalísticas e falhas no recrutamento

A dimensão do problema só ganhou verdadeira tração quando jornalistas de investigação franceses conseguiram - e repetidamente - entrar nestas instituições como “funcionários”, sem passarem por entrevista e sem qualquer verificação de cadastro. Foi então que as autoridades começaram a reagir a denúncias que, segundo ativistas e encarregados de educação, já vinham a ser feitas há anos, inclusive junto das próprias escolas.

Um documentário do Cash Investigation, da France 2, filmado com câmara oculta no interior de estabelecimentos de ensino, expôs um padrão de violência verbal diária, maus-tratos psicológicos graves e práticas de humilhação dirigidas às crianças por parte de funcionários.

A fragilidade do sistema de contratação foi igualmente demonstrada em novembro, quando uma jornalista da RTL, Hermine Le Clech, se apresentou ao departamento da juventude de Créteil (Val-de-Marne, na área metropolitana de Paris) com currículo e carta de apresentação falsos. Em apenas oito minutos, foi recrutada e enviada para uma instituição escolar, ainda sem contrato assinado e sem que fossem confirmadas a identidade, as habilitações ou a existência (ou não) de antecedentes criminais.

Relatos de pais e sinais preocupantes nas crianças

O jornal britânico “Telegraph” recolheu testemunhos de vários pais que, ao longo dos últimos anos, formalizaram queixas depois de começarem a detetar mudanças inquietantes nos filhos: incontinência noturna, acessos de agressividade contra a família, birras, gritos, perda de apetite, choro compulsivo sem motivo aparente e longos períodos de silêncio.

Jeanne, uma das mães ouvidas, contou que o filho deixou de cantar as melodias que inventava com frequência. Pouco depois, surgiram outros sinais: crises de raiva, recusa diária de ir para a escola e cama molhada. Em determinada ocasião, disse-lhe que queria morrer por não conseguir apagar da memória aquilo que lhe tinham feito. Jeanne suspeita que o filho tenha sido violado. Contra o homem que, alegadamente, maltratou a criança, já foram apresentadas 15 queixas por alegada violação, mas nunca chegou a haver julgamento. Apesar de estar suspenso, continua a receber da Câmara de Paris - não foi despedido.

Manon, outra mãe, com 36 anos, afirmou que as duas filhas - de três e cinco anos - terão sido alvo de abusos sexuais na creche que frequentavam. Segundo relatou, as meninas descreveram aos pais um episódio em que o responsável pelas atividades da biblioteca lhes leu histórias assustadoras e, a seguir, lhes tocou para as “consolar”. “É horrível, consegue imaginar pedir às suas filhas que exemplifiquem o que aconteceu, e elas mostrarem-lhe que ele lhes estava basicamente a acariciar os genitais?”, perguntou Manon ao jornalista do “Telegraph”. O jornal recorreu a pseudónimos para todos os entrevistados, com o objetivo de proteger a identidade dos pais e das crianças.

De acordo com Manon, o mesmo bibliotecário ensinou ainda às duas meninas uma canção em que eram incentivadas a tocar em si próprias como parte de um “jogo”. As duas, em quartos diferentes, repetiram aos pais exatamente a mesma lengalenga, que, segundo afirmam, o homem as obrigava a dizer: “Venham fazer uma roda, puxem os boxers para baixo se forem rapazes, senão puxem as cuequinhas. Toquem na pilinha e atirem-na à minha cabeça”. O homem foi suspenso, mas o processo não avançou até ao momento. Vinte pais apresentaram queixas contra a mesma pessoa.

Quem são os “animadores” e porque é que o sistema falha

Os suspeitos não são docentes, mas sim “animadores” - trabalhadores responsáveis por acompanhar as crianças em atividades extracurriculares, antes e depois das aulas e também durante os intervalos. Menos de um em cada cinco tem vínculo permanente e o salário é baixo, rondando os 12 euros por hora.

Mesmo quando uma suspeita de abuso é comunicada às autoridades, disseram várias fontes ao “Telegraph”, a consequência mais frequente para o alegado agressor acaba por ser apenas a transferência para outro local. A explicação apontada é a escassez destes “animadores”, que leva o sistema a aceitar, em poucos minutos, praticamente qualquer pessoa que se candidate a este tipo de funções.

Suspensões, recomendações ignoradas e casos em tribunal

Emmanuel Grégoire, presidente da câmara de Paris, enfrenta pressão para responder ao caso e admitiu existir um “risco sistémico” para as crianças. Numa conferência de imprensa, indicou que, entre janeiro e abril, 78 pessoas foram suspensas, 31 delas por suspeita de abuso sexual. A câmara municipal encomendou em 2015 um relatório com 50 recomendações para prevenir abusos; contudo, os alertas que poderiam ter tido impacto - em particular os relativos à verificação prévia de candidatos a estas funções - parecem ter sido desvalorizados ou ignorados.

Entretanto, surgiu o relato de outra criança, uma rapariga de três anos, que contou à mãe, Marie, os alegados abusos cometidos por dois animadores - um homem e uma mulher que trabalhavam em conjunto. Quando a mãe lhe pediu que mostrasse o que acontecia na escola, a menina ajoelhou-se no chão, apoiada em mãos e joelhos, e disse: “Mas mamã, na escola puxam-nos as cuequinhas para baixo. Metem os dedos nos nossos rabinhos, assim. E nem nos voltam a pôr as cuequinhas”.

Segundo a denúncia, os dois funcionários terão ameaçado as crianças de morte para as impedir de falar em casa. Foram suspensos depois de 16 queixas, mas continuam, até agora, a receber salário - algo que, de acordo com a lei, pode acontecer enquanto a investigação não estiver concluída. O sindicato já avisou, por seu lado, para a possibilidade de estarem a ser cometidos exageros.

Dois processos já chegaram a julgamento. Um deles envolve Nicolas G., de 47 anos, que trabalhava na escola Titon, no 11º distrito de Paris, acusado de assediar sexualmente nove meninas de 10 anos e de agredir três delas. O arguido nega as acusações, e o veredito deverá ser conhecido a 16 de junho. Um segundo julgamento, relativo a um homem de 35 anos acusado de abuso sexual de sete crianças, alegadamente na pequena enfermaria de outra creche, deverá começar antes do final de maio.

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