A um mês exato de uma eleição intercalar com grande peso político, o debate no Reino Unido está a ser puxado para outra consulta popular: a votação que, há quase uma década, determinou a saída do país da União Europeia (UE). Em plena luta pela sucessão de Keir Starmer na liderança do Partido Trabalhista e, por arrasto, do Governo, várias figuras têm trocado argumentos em público sobre a possibilidade de desfazer essa decisão.
Wes Streeting, antigo ministro da Saúde e alguém cuja vontade de chegar ao n.º 10 de Downing Street é evidente - apesar das interrogações sobre se reúne base de apoio suficiente -, defendeu este sábado um estreitamento de laços com os 27 ainda mais ambicioso do que o que Starmer tem procurado. “Precisamos de uma nova relação especial com a UE, porque o futuro do Reino Unido é na Europa e um dia - um dia - de volta à UE”, afirmou o deputado.
Do outro lado, um outro potencial sucessor do atual chefe do Executivo diz o oposto. Andy Burnham, autarca da Grande Manchester e candidato a uma eleição intercalar para o Parlamento que poderá servir de trampolim para disputar a liderança e substituir Starmer, garante que não quer reabrir o dossiê. “A minha opinião é que o ‘Brexit’ foi prejudicial, mas também acredito que a última coisa que devíamos fazer agora é retomar essas discussões. Não proponho que o Reino Unido pondere regressar à UE”, disse esta segunda-feira, no seu primeiro discurso desde que expressou o desejo de regressar à Câmara dos Comuns - passo indispensável para poder candidatar-se a líder do partido e do Executivo.
Burnham avança no círculo de Makerfield, na área metropolitana que governa, depois de o deputado Josh Simons ter apresentado a demissão, assumidamente, para lhe abrir caminho. As sondagens e os resultados das eleições locais do dia 7, que foram desastrosos para o seu partido, apontam que o duelo de 18 de junho será entre o candidato trabalhista e o do Reform UK, força de direita xenófoba liderada por Nigel Farage, anteriormente conhecida como Partido do Brexit e herdeira do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP). A acusação de que os trabalhistas quereriam recolocar o Reino Unido na UE surge como uma arma previsível para ser usada contra Burnham.
Ou dá o salto, ou fica pelo caminho
Com a contestação interna a Starmer a ganhar tração e depois dos maus resultados nas eleições locais e regionais (Escócia e País de Gales), o trabalhista mais popular do país entende ter margem para desafiar o primeiro-ministro. De forma singular, serão os 76 mil eleitores de Makerfield a decidir não apenas quem os representará em Westminster, mas também se Burnham ganha fôlego para ambições mais altas.
Se vencer o Reform UK - que tem subido naquela zona -, Burnham provará que consegue conter o avanço do populismo (e, em sentido inverso, se os populistas derrotarem o trabalhista mais apetecido do momento, reclamarão projeção nacional). Se perder, a sua carreira política poderá ficar comprometida: foi deputado entre 2001 e 2017, ano em que transitou para a política autárquica. Durante o Governo de Gordon Brown (2007-10), esteve à frente da Cultura e, mais tarde, da Saúde - precisamente a pasta que Streeting deixou na semana passada.
“Vamos consertar o nosso próprio país. Vamos pô-lo a funcionar de novo. Vamos pô-lo onde as pessoas querem que esteja”, prometeu Burnham, num tom que não soa delimitado a um território específico nem típico de um militante do partido que governa o Reino Unido há quase dois anos. “Quero pedir desculpa aos residentes do círculo eleitoral de Makerfield pelo circo que está prestes a chegar à cidade e pelos incómodos que irão sofrer”, acrescentou, dando a entender que a operação tem dimensão nacional.
Figura da ala esquerda do trabalhismo britânico - ao contrário de Streeting, que é centrista -, Burnham criticou a desindustrialização “devastadora” da década de 80, sob os governos da conservadora Margaret Thatcher, “seguida por desregulação, privatização e austeridade, ou 40 anos de neoliberalismo que não foram meigos para o norte de Inglaterra”. Reforçou ainda a defesa da descentralização, um tema recorrente desde que é autarca. Terá apreciado ouvir Luke Campbell, autarca da também setentrional cidade de Hull, eleito pelo Reform UK, descrevê-lo como “um tipo muito simpático” que seguramente “puxará pelo Norte” se chegar a primeiro-ministro, em declarações à ITV. Burnham respondeu na rede social X que “diria o mesmo sobre Luke”, defendendo que o país precisa “de um pouco mais de decência na política, e de menos agressividade”.
Vai haver confronto, só falta saber quando
Mesmo sem estar marcada uma eleição para a chefia do Partido Trabalhista, o clima em Westminster já se aproxima desse cenário. Streeting deixou claro que está disponível para concorrer ao cargo no futuro. Starmer, por seu lado, afirma apoiar Burnham “a 100%” na corrida de Makerfield, mas dá sinais de estar a preparar a saída do n.º 10. “Quero disputar a próxima eleição”, disse numa conferência de imprensa com órgãos de comunicação social britânicos, esta segunda-feira, referindo-se às legislativas previstas para 2029.
“É claro que reconheço que depois dos resultados das eleições locais, e das eleições na Escócia e no País de Gales, a primeira tarefa é dar a volta às coisas e garantir que me concentro no que deve ser”, declarou o primeiro-ministro, antes de lançar um recado aos que o têm sob mira. “Nos últimos dez dias, houve muita atividade que não me pareceu tão focada como devia, e todos os dias lembro a mim mesmo que fui eleito para servir o povo, para servir o país, é nisso que acredito e é isso que vou continuar a fazer.”
O líder trabalhista recusou alimentar cenários de um desafio interno que, formalmente, ninguém desencadeou. “Não estamos aí, mas já disse não sei quantas vezes que não me vou embora”, repetiu. Em suma, não reconhece na intercalar de Makerfield um plebiscito sobre o seu próprio destino. Enquadra a disputa como um embate entre trabalhistas e Reform e pede mobilização total. Para eleger um deputado - apenas um deputado.
Para iniciar uma eleição interna à liderança do Partido Trabalhista, é necessário que um candidato reúna o apoio de 20% do grupo parlamentar, isto é, 81 dos 403 deputados. Mais do que esse número de parlamentares já defendeu a saída de Starmer, e outros tantos pediram que fique; além disso, os críticos não convergem num nome alternativo. Daí, provavelmente, o recuo de Streeting.
Ainda assim, mantém-se no ar a perceção de que uma vitória de Burnham na intercalar de 18 de junho poderá acelerar a corrida à sucessão, onde surgem também outros nomes: Ed Miliband, ministro do Ambiente; Angela Rayner, antiga vice-primeira-ministra; Shabana Mahmood, ministra da Administração Interna. Nenhum, porém, é tão popular entre os militantes quanto o autarca de Manchester e, segundo uma sondagem interna divulgada no final da semana passada, quase todos perderiam num confronto com Starmer. Quem triunfasse numa eleição desse tipo passaria a chefiar o Governo sem eleições nacionais, como dita a tradição parlamentarista do Reino Unido.
“O Keir terá sorte se aguentar dois meses inteiros”, disse um ministro, sob anonimato, ao semanário londrino “The Observer”. Um cenário penoso para um primeiro-ministro que continua a apresentar como objetivo público governar durante uma década e que deixa subentendido que se candidataria a qualquer disputa interna antecipada. O resultado menos mau - e talvez mais plausível - seria gerir ele próprio a forma e o calendário da retirada, procurando preservar a dignidade do processo.
Para lá dos apelos, mais ou menos velados, para começar a ponderar a saída, Starmer tem assistido a várias figuras do partido e do Executivo a darem respostas esquivas quando questionadas pela imprensa sobre se deve demitir-se. Veja-se a reação da ministra da Cultura, Lisa Nandy, na BBC, tão extensa quanto reveladora: “Sei que ele pondera a responsabilidade muito pesada que lhe cabe de assegurar que cumprimos a promessa que fizemos ao povo de promover mudanças maiores e bem mais fundamentais na vida das pessoas com muito mais urgência do que nos têm visto fazer. Penso que se reconhece em todo o partido, seja Andy, Wes, Keir ou qualquer outro envolvido no nosso movimento, que isto está a ser dito abertamente há algum tempo. Mas creio que temos de nos unir, de andar para a frente, e é claro que o primeiro-ministro terá de tomar a sua própria decisão sobre se quer prosseguir nesse combate”. Não soa, convenhamos, a um apoio incondicional e entusiasmado.
A direita apresenta-se a votos fraturada
Há outro elemento invulgar na ida a votos em Makerfield - já visível nos resultados do dia 7: as dificuldades do Partido Trabalhista no poder não se traduzem numa subida automática do Partido Conservador, que continua a ser (ainda) a maior força da oposição. Na disputa que se aproxima, a luta é mesmo entre Burnham e quem o Reform UK escolher, ao ponto de existir entre conservadores quem defenda desistir para favorecer a direita populista e travar as ambições do autarca de esquerda. Jacob Rees-Mogg, antigo ministro dos Assuntos Parlamentares e da Economia durante o consulado de Boris Johnson (2019-22), é um dos que advoga essa via.
Nas legislativas de 2024, os trabalhistas venceram em Makerfield com 18 mil votos, mais 5000 do que o Reform UK, empurrando os conservadores para o terceiro lugar. Já nas autárquicas de 7 de maio, foram os populistas a ficar por cima entre os lugares de vereador então em jogo. Em fevereiro, numa intercalar para o Parlamento na circunscrição vizinha de Gorton and Denton, o Reform investiu forte no mediático comentador político Matt Goodwin, mas o lugar, que antes era trabalhista, acabou conquistado pelos Verdes.
O conservador Edward Leigh, o deputado britânico há mais tempo em funções, alinhou com a proposta de Rees-Mogg: sugeriu que, em troca da “borla” em Makerfield, o partido de Farage - que promete anunciar o seu candidato até quinta-feira - poderia optar por não apresentar candidato em Aberdeen Sul, onde também haverá intercalar em breve, já que o atual titular passou para o parlamento autónomo escocês (o mesmo acontece em Arbroath e Broughty, não muito longe de Aberdeen). Leigh entende que tal poderia ajudar a “salvar a união” (isto é, o Reino), na sequência da quinta vitória consecutiva do Partido Nacional Escocês (independentista) nas regionais deste mês. Também receia a hipótese de Burnham chegar a primeiro-ministro e aplicar políticas mais à esquerda do que Starmer.
A líder conservadora não acompanha essa leitura. Kemi Badenoch rejeita “quaisquer pactos” com Farage, típicos de partidos “demasiado preguiçosos para andarem para a frente e escolherem pessoas e ganharem por conta própria”. Para a chefe da Mui Leal Oposição, apresentar candidato em Makerfield é obrigatório; abdicar disso diminuiria um partido que ambiciona regressar ao poder, que exerceu entre 2010 e 2024. Do lado do Reform UK, também existe “pouco apetite” por um entendimento desse tipo.
Outra peça neste tabuleiro é o recente partido Restaurar o Reino Unido, lançado pelo deputado Rupert Lowe, que abandonou o Reform UK depois de entrar em colisão com Farage. Já anunciou que terá candidata em Makerfield - a empresária Rebecca Shepherd -, podendo roubar votos que, de outra forma, iriam para o Reform UK. À esquerda, os trabalhistas também podem ver parte do eleitorado fugir para os Verdes, que cresceram muito nas autárquicas e prometem disputar a intercalar, ignorando os apelos da prestigiada ex-líder Caroline Lucas para ficarem fora da corrida e beneficiarem Burnham.
Os Liberais Democratas, outra força de centro-esquerda com implantação nacional, ainda não se pronunciaram. Quem já garantiu que entra na corrida por Makerfield é Alan “Howlin” Laud Hope, líder do satírico Partido Oficial dos Monstros Malucos Festeiros. Apesar de a sua representação se limitar a seis vereadores espalhados pelo país, esta formação dá cor (como se fosse preciso) à política britânica desde 1982.
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