Fascínio pela diplomacia - e pelas suas zonas cinzentas
Sempre tive um interesse especial pela diplomacia. Não sei se teria “poder de encaixe” para uma profissão cheia de sombras, de disse e não disse, de afirmei e afinal já não afirmei - e, ainda por cima, com a obrigação de defender diretivas e ordens políticas que a prática diplomática tantas vezes mostra que não dão bom resultado.
Como lembra o autor do livro de que vou falar, os diplomatas “consertam os cacos que os políticos provocam...”.
Memórias de diplomatas portugueses: raras, mas valiosas
Ao contrário do que acontece no mundo anglo-saxónico, em Portugal são poucos os diplomatas que publicam livros sobre o que viveram e sobre aquilo de que se lembram. Uns por mera inércia; outros por uma discrição que preferem não quebrar.
Dois exemplos que me ficaram na memória: o embaixador Marcello Duarte Mathias, com obra extensa - um verdadeiro escritor-diplomata - e o embaixador Seixas da Costa, com o livro notável “Antes que Me Esqueça”.
“Esta Coisa da Vida não É Fácil”: as Memórias Inconvenientes de Bouza Serrano
O embaixador José de Bouza Serrano acaba de reunir, em livro, as recordações de uma longa vida na diplomacia. A obra chama-se “Esta Coisa da Vida não É Fácil: Memórias Inconvenientes de Um Diplomata de Carreira”.
Tendo feito toda a carreira ao serviço de monarquias e assumindo-se como um monárquico que sempre serviu a República, leva-nos para dentro de círculos aristocráticos: alguns com pergaminhos antigos, outros a tentar, com aflição, arranjar maneira de os obter.
Um livro mais social do que diplomático
Nestas páginas, o que domina é menos a diplomacia e mais o lado social. Entramos em festas, escapadinhas de fim de semana e casamentos onde, com sentido de humor apurado e uma escrita muito eficaz, o autor encadeia episódios - uns de fazer rir, outros bastante picantes.
Há, por exemplo, a descrição pormenorizada de um casamento em Sintra, presidido por um bispo, com um casal tido como exemplar (ainda que o autor não esclareça se tinham mantido a castidade até ao enlace). Chegado o momento de cortar o bolo, o noivo - agora marido - desaparece. A urgência aperta: o senhor bispo tinha outros atos litúrgicos à espera. A mãe do noivo pede ao irmão que vá procurá-lo. Num pavilhão ao lado da casa principal da quinta, ele ouve ruídos e insiste à porta de uma casa de banho. Lá dentro, sob o duche, estavam o noivo, o seu irmão e o padrinho de casamento, numa relação muito quente. O irmão do noivo fica em choque: o padrinho do casamento do irmão era, afinal, o seu amante clandestino...
Esta será uma das passagens mais fortes de todo o livro. O autor não nos diz se aquela família era ativamente homofóbica, mas não me surpreenderia que o fosse.
Condecorações, Kellogg's e a sala VIP de Schiphol
Há também um episódio particularmente divertido com uma americana, mulher de um diplomata. Intrigada com a quantidade de medalhas que Bouza Serrano usava na casaca em atos oficiais - como é hábito na Europa - pergunta-lhe, em ocasiões diferentes, porque motivo o marido não trazia nenhuma e ele tinha tantas. O embaixador volta a explicar, com paciência, que nos EUA, após a independência do Reino Unido, não era permitido usá-las. A pergunta repete-se até que ele lhe dá uma resposta que a cala de vez:
“Sabe, senhora embaixatriz, existem uns Kellogg's especiais para diplomatas, que lá dentro trazem estas condecorações que vou colecionando e, assim, cobrindo a minha casaca.”
A partir daí, a senhora deixou de exibir incredulidade - e, sobretudo, a inveja por o marido não ter nenhuma.
Talvez o capítulo mais cómico seja o que narra uma breve passagem do Presidente Marcelo pela sala VIP do Aeroporto de Schiphol. Um espaço usado naturalmente pela família real neerlandesa, com as paredes cheias de fotografias dos seus membros. Depois de observar a disposição das imagens, o Presidente decide reorganizá-las: tira-as e volta a colocá-las por uma ordem diferente, que, segundo ele, correspondia à genealogia da família real. O conhecimento histórico era impecável, chegando aos filhos bastardos e aos escândalos financeiros em que alguns se viram envolvidos. Tudo perante o espanto do nosso embaixador e dos funcionários da sala. Como escreve o autor, Marcelo transformou-se num novo curador daquele espaço VIP.
E há ainda aquela altura - como lhe disse um colega - em que o diplomata se senta no banco de trás de uma limusine e já não existe motorista. Ou, na formulação de Bouza Serrano: “vivemos entre móveis do século XVIII, quadros autênticos, mordomos e tudo acaba com um tabuleiro a ver televisão”.
Vale a pena ler esta obra, a que eu chamaria “Atrás do Reposteiro”. Num país tão cinzento como o nosso, poucas vezes tivemos oportunidade de ler memórias tão divertidas de um alto funcionário da República Portuguesa.
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