O que se passa?
Docentes de prestígio em escolas superiores de cinema estão a soar o alarme: mesmo estudantes que escolheram de forma consciente um curso de cinema quase já não conseguem ver um filme de ficção clássico sem distrações. Em vez de se deixarem envolver pela ação, pelas imagens e pelas personagens, pegam no telemóvel de minuto a minuto. As consequências vão muito para lá de notas fracas - colocam em causa o futuro do cinema enquanto forma de arte.
Quando o «trabalho de casa de sonho» já ninguém segue
Para gerações anteriores, soava a um presente: a tarefa é ver um clássico do cinema. Hoje, precisamente essa indicação parece, para muitos estudantes, uma exigência excessiva. Professores relatam que ficar concentrado diante do ecrã já se assemelha mais a um treino de resistência cansativo do que a um prazer.
Em faculdades conhecidas nos EUA, como a University of Southern California ou a Tufts University, os docentes descrevem um quadro semelhante: enquanto, no anfiteatro, passa uma obra-prima da história do cinema, os olhares descem para debaixo da mesa. Uma espreitadela rápida ao telemóvel, uma verificação de mensagens, uma passagem pelo Instagram, outra pelo TikTok - e a ligação à narrativa perde-se logo ali.
“Da «melhor tarefa de casa do mundo» passou, para muitos, a ser uma luta contra os próprios hábitos.”
Um professor compara agora os seus estudantes a pessoas presas numa espiral de dependência: sabem que deviam estar atentos, mas continuam a procurar incessantemente o dispositivo. Conseguir acompanhar de forma consciente a cena final de um filme já chega, por si só, para parecer um obstáculo quase intransponível.
Dados de streaming mostram a dimensão do problema
Tudo isto não se limita à perceção frustrada de alguns docentes. As plataformas internas de streaming nas universidades fornecem números concretos. Aí é possível saber com precisão quem realmente começou a ver um filme - e quem conseguiu chegar ao fim.
- Menos de metade dos estudantes chega sequer a iniciar o filme indicado.
- Apenas cerca de um quinto permanece até aos genéricos finais.
- Nos exames, até perguntas simples sobre a ação são falhadas.
Um exemplo: num teste sobre um conhecido clássico francês, mais de metade dos estudantes falhou questões de escolha múltipla elementares. Alguns descreveram nas respostas cenas que nem sequer existem - por exemplo, uma fuga aos nazis num filme cuja ação decorre antes da guerra. Para um professor com vários anos de experiência, a situação foi tão grave que o levou, pela primeira vez na carreira, a repensar por completo o sistema de avaliação.
O triunfo dos 47 segundos
Esta evolução tem pouco que ver com preguiça, como muitos docentes sublinham. Reflete, antes, uma transformação profunda dos nossos hábitos digitais. Um estudo muito citado sobre a utilização do computador mostra que os utilizadores mudam, em média, de programa, janela ou separador a cada 47 segundos.
Em 2004, esse valor era ainda de dois minutos e meio. Os feeds das redes sociais com “rolagem infinita” treinaram os cérebros para pensar em fragmentos minúsculos de informação. Estímulos microconstantes, clips curtos, janelas pop-up, notificações - tudo exige atenção ao mesmo tempo.
“Quem muda de estímulo a cada 47 segundos encara depressa uma narrativa de 110 minutos como uma imposição.”
Isto repercute-se não só nos estudos, mas também no lazer. As séries são vistas enquanto se conversa em chats, os filmes correm em segundo plano enquanto, a par disso, se respondem a e-mails ou se petisca. O cinema degrada-se num pano de fundo sonoro, sobre o qual se desenrola a atividade verdadeira: o deslizar no telemóvel.
Hollywood reage: histórias em modo de repetição
A indústria do entretenimento já percebeu os novos padrões de atenção - e adaptou-se. Os guiões tornaram-se mais compactos, as montagens mais rápidas, as exposições mais curtas. Mesmo as grandes plataformas de streaming dão aos realizadores instruções concretas para que o público consiga acompanhar apesar do multitasking permanente.
Circula, por exemplo, a indicação de que os pontos centrais da ação devem ser repetidos várias vezes no diálogo. As personagens explicam-se a si próprias e à história três ou quatro vezes, em momentos diferentes. A razão é simples: os espectadores não se devem desligar mesmo que, entretanto, olhem para o telemóvel, estejam a cozinhar ou a escrever mensagens.
O que foi pensado dramaticamente como condensação transforma-se numa repetição contínua. Quem mantém a atenção recebe muitas coisas explicadas duas e três vezes. Quem está sempre distraído consegue, ainda assim, perceber de forma geral do que se trata.
Quando até os jurados dos Óscares já não veem até ao fim
A tendência estende-se até aos cargos de topo do setor. Surgem repetidamente relatos de que membros com direito de voto em grandes prémios de cinema fazem as suas escolhas sem terem visto por completo todos os filmes nomeados. Por vezes, as sessões decorrem “em paralelo”, por vezes os últimos 30 minutos ficam por ver. Mesmo nos lugares onde se deveria decidir profissionalmente sobre a qualidade, a atenção nem sempre aguenta até aos genéricos finais.
O que isto significa para a aprendizagem
Para o estudo da cinematografia, esta evolução é dramática. Quem consome um filme apenas em fragmentos raramente entende como realização, montagem, música e interpretação atuam em conjunto ao longo de toda a duração. Meios expressivos centrais - como a construção deliberada da tensão, o desenvolvimento lento de uma personagem ou uma reviravolta súbita no final - perdem impacto quando somos constantemente arrancados da experiência.
| Aspeto | O que se perde quando a visão é fragmentada |
|---|---|
| Argumento | compreensão da motivação, dos pontos de viragem e da lógica interna |
| Personagens | evolução ao longo do tempo, ligação emocional, ambiguidades |
| Linguagem visual | motivos recorrentes, estratégias de câmara, contrastes |
| Ritmo | alternância entre calma e velocidade, durações propositadas, pausas |
| Emoção | efeito construído lentamente pela música, pelos olhares, pelo silêncio |
Quem vê filmes apenas como uma sucessão de cenas marcantes mal entende por que razão determinadas obras são consideradas mestres. Para os docentes, torna-se assim cada vez mais difícil transmitir decisões artísticas complexas. Quando faltam detalhes básicos da ação, toda a análise posterior desmorona-se.
O que está por trás da nova impaciência
A pandemia agravou esta tendência. Muitos estudantes aprenderam, durante o confinamento, a gerir ao mesmo tempo aulas, séries, conversas e jogos. O computador portátil tornou-se o centro de todos os domínios da vida. A fronteira entre estudar e entreter-se esbateu-se, e as interrupções passaram a ser o estado normal.
Junta-se ainda o efeito da comparabilidade social: em grupos, chats e feeds, os jovens veem permanentemente o que os outros estão a “viver” - novos memes, clips, reels. Quem depois se senta “apenas” em silêncio numa sala escura a ver um filme lento sente rapidamente que está a perder alguma coisa.
“O medo de estar offline pesa mais do que o impulso de realmente mergulhar numa história.”
Caminhos de regresso à experiência total do cinema
Apesar de todas as queixas, muitos docentes não desistem. Estão a experimentar filmes mais curtos, regras claras sobre o telemóvel no anfiteatro e pausas a meio do filme, durante as quais decorrem pequenas discussões. Outros apostam deliberadamente em experiências analógicas: noites de cinema em salas verdadeiras, onde todos têm de entregar os dispositivos, tornam-se um evento.
Para alguns estudantes, um pequeno ritual já pode ajudar:
- Colocar o telemóvel noutra divisão ou ativar o modo de avião.
- Iniciar o filme a horas fixas - como se fosse um encontro consigo próprio.
- Escolher o ecrã inteiro de forma consciente e fechar todas as outras janelas.
- Fazer pequenas notas em papel, em vez de escrever em paralelo no computador portátil.
Quem segue este método repara, muitas vezes, após poucas tentativas, que a agitação interior diminui um pouco. Ao fim de meia hora, torna-se mais fácil manter a atenção. Também o cérebro pode voltar a ser “reprogramado” - afastando-se dos fragmentos de 47 segundos e aproximando-se de 120 minutos de concentração.
Porque vale a pena fazer o esforço
Um filme longo é mais do que simples entretenimento. Pode funcionar como um campo de teste para a própria atenção. Quem consegue manter-se concentrado durante duas horas está a treinar precisamente as capacidades de que também precisa para textos científicos, projetos longos ou trabalhos complexos.
Para estudantes de cinema e de estudos dos média, isso conta em dobro. São eles que ajudam a decidir como as histórias serão contadas no futuro: como uma sequência apressada de pedaços de informação ou como experiências que exigem tempo e espaço. Quem já não suporta aquilo que pretende produzir mais tarde acaba depressa em obras que parecem feitas apenas para a próxima notificação push.
O que se vê nos anfiteatros mostra, por isso, muito mais do que alguns estudantes desatentos. Mostra uma mudança cultural. Se o cinema, enquanto forma de arte, consegue acompanhar essa transformação depende também de saber se uma geração que cresceu com estímulos de 47 segundos volta a aprender a entregar-se ao todo.
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