Caro leitor,
Bastam algumas semanas fora para se notar como há coisas que parecem imóveis e, ao mesmo tempo, pormenores que mudam tudo. Foi isso que me aconteceu - e, desta vez, trago boas notícias. Grande parte do ruído mantém-se: Trump (doido), o estreito (impasse), a Europa (crise), o pacote laboral (fracasso), o Estado (sem conserto). Mas, na sequência dos dias, uma ideia ficou finalmente nítida: a tal maioria de direita, essa fantasia governativa que a esquerda invoca aos berros há dois anos e a que se tem agarrado como papão e bóia, afinal não existe.
A “maioria de direita” e o Chega: por que não cola
Não posso dizer que isto me apanhe desprevenido - há algum tempo escrevi aqui que “no dia em que a sua subsistência depender do Chega, este Governo acabou” -, mas quem ainda hesitava que ponha as dúvidas de lado. Primeiro, vimos Ventura colar-se às teses da esquerda no pacote laboral, abrindo um buraco na história de que Montenegro e Ventura estariam feitos um para o outro. Depois, chegou a reação repelente do líder do Chega perante crimes hediondos cometidos por polícias numa esquadra de Lisboa, a confirmar aquilo que já se sabia.
Ventura e Luís Neves nunca poderiam sentar-se no mesmo governo; e Montenegro, que só à terceira acertou no ministro da Administração Interna, não tem espaço para brincar com assuntos graves. O Chega não é parceiro para este Governo, ponto final. E um encontro ocorrido há um mês no Porto ajuda a perceber melhor o enredo.
Patriotas pela Europa, UE e o aviso no Palácio da Bolsa
Durante três dias, no Palácio da Bolsa, juntaram-se eurodeputados dos Patriotas pela Europa, o grupo europeu que agrega as direitas radicais/populistas da União Europeia (UE). Houve aplausos ao crescimento do venturismo em apenas sete anos, mas também o alerta de que há “sempre um risco” quando se cresce depressa de mais.
Lembro-me de, em miúdo, ouvir que quem estica muito de repente fica com problemas de coluna - e o Chega sofre precisamente desse mal: diz-se de direita, mas não é um partido direito nem de gente direita. Aliás, persistem as doenças do crescimento (impressiona a proporção de militantes infrequentáveis e a debandada de autarcas) e, do lado dos parceiros europeus, a mensagem para Ventura foi clara: menos pressa, mais atenção aos aliados e menos confiança cega no próprio instinto.
O conselho mais sonoro foi pragmático: se os eleitores tendem a responsabilizar quem governa, e se quem governa não atravessa tempos pêra doce, então pode ser mais inteligente o Chega segurar-se firme na oposição. Nada de sustentar maiorias alheias. Para Montenegro, nada disto é novidade.
Montenegro, AD, IL e a tentação do “Bloco Central”
O primeiro-ministro não confia em Ventura, mantém a legislatura presa ao compromisso de não fazer acordos de governo com ele, e nunca escondeu que a sua aposta é outra: juntar AD e IL. Foi o que tentou nas últimas legislativas - e Rui Rocha não quis -, mas há dias, num debate com Mariana Leitão no Parlamento, Montenegro voltou a dar a entender que ainda vê aí uma nesga para construir uma maioria maior.
Disse, mais ou menos, isto: "O nosso Bloco Central não é PSD/PS. É AD/CDS/IL. Saudamos e contamos com a Iniciativa Liberal para lá chegar".
Pouca gente levou a frase muito a sério: os liberais estão magrinhos; a AD não descola nas sondagens; os milhões colocados pelo Governo nas CCDR continuam sem chegar aos estilhaços deixados pelas tempestades de janeiro/fevereiro - e já vamos em abril/maio; e ir abastecer a Espanha só compensa a quem vive na Raia, sendo que na Raia vive quase ninguém.
Somar AD e IL? Para quê, se nas últimas legislativas a AD teve 31%, a IL teve 5% e o Chega 22%?! Só com um salto do “Bloco Central” de Montenegro, só com uma queda do Chega de Ventura, só com um Governo AD verdadeiramente impressionante - mas como, se o reformismo segue envergonhado e os tempos anunciam vacas magras?
PS, sondagens e o regresso do carisma à disputa
Há por aí sondagens que até já apontam o PS a recuperar e Carneiro a discutir o lugar com Montenegro, mas a verdade é que o primeiro-ministro nem precisa de se cansar muito com isso: o PS não quer que essas sondagens sejam verdade.
Pedro Nuno Santos saiu de gatas, mas tem um trunfo que nem todos têm: carisma. E bastou descer de S. João da Madeira a S. Bento com a aura de líder de uma nova esquerda para instalar o caos no partido. Os pretendentes ao lugar de Carneiro aparecem como coelhos de cartola; Carneiro acabou de ser reeleito com quase 100% dos votos, e mesmo assim já se forma fila para o enterrar; Cordeiro, Vieira da Silva, Medina - o PS não dorme.
Mais simpáticas para o “Bloco Central” da AD são outras leituras que mostram jovens a abandonarem Ventura em direção aos liberais. Talvez algum efeito Cotrim, talvez o facto de Ventura poupar polícias violadores, talvez a overdose televisiva do líder do Chega tenha provocado erisipelas.
Se os socialistas continuarem a trucidar-se entre si e Ventura insistir no registo bacalhau a pataco - propor baixar a idade da reforma é gozar com o pagode, e até Pedro Passos Coelho se apressou a afastar-se dessa pouca vergonha -, então Montenegro ainda pode crescer. Depende dele. Depende (voltamos sempre a Passos) de conseguir ou não “para ser competente e tratar do assunto” em vez de se limitar a “gerir o dia a dia como o dr. António Costa”.
Avançar com uma taxa sobre os lucros extraordinários das empresas de energia é uma boa ideia. Já montar um estadão à Sócrates e pôr ministros a entoar o hino para anunciar um plano de médio prazo com inegável potencial reformista é falhar o sinal do tempo: o que se pede é bom senso, não festa.
Não é garantido que Montenegro o consiga. Passos não desaparecerá do palco; diz que se verá “daqui a dois, quatro anos …”. Mas, se por agora há boas notícias, vale a pena festejá-las.
O Chega, por vezes, dá jeito: ao Governo, para regular a imigração; ao PS, para acabar com portagens. Uma coisa, porém, é servir para uma manobra pontual; outra, muito diferente, é assegurar uma maioria estável. O bacalhau a pataco de Ventura não soma com Luís Montenegro. O Chega, no fim de contas, não serve para nada.
Até para a semana.
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