Do Pena Park ao Parque das Nações: o trajecto do Biclaque
Há uma década, no hotel Pena Park, nasceu em Ribeira de Pena o restaurante Biclaque Origens. Seis anos mais tarde, o “passarinho” levantou voo e foi pousar nas margens da ponte romana de Chaves, onde, há quatro primaveras, se mantém o Biclaque Trajano. E, desde há quase um ano, a migração foi bem mais ambiciosa: chegou ao Parque das Nações, com o Biclaque X instalado na avenida D. João II, já a curta distância da Gare do Oriente. É invulgar acompanhar uma marca que se inicia num hotel rural, em plena paisagem transmontana, passa depois para uma cidade média da região e continua a estender-se até Lisboa. Só o arrojo do risco já pede menção.
Biclaque X no Parque das Nações e o desafio da concorrência
A praça de alimentação do centro comercial ao lado capta uma fatia grande de público e, cá fora, o cenário é dominado por vários espaços de inspiração asiática e por comida rápida mais “arranjada”, deixando pouco espaço para outras leituras. A Casa do Frango tem tentado conquistar quem procura cozinha portuguesa, mas, ainda há pouco tempo, o alentejano D’Avis (que tinha vindo do Beato para o nº 46E desta avenida) deu lugar, entretanto, a um restaurante chinês. Aqui, o Biclaque precisa de chilrear afinado para criar fidelização - e os almoços parecem ter melodia para algumas carteiras.
Num dia de semana, avançámos para o “Menu de Almoço” (€19), que inclui entrada, prato principal, sobremesa e bebida. Com café, a conta arredonda para €20 - um patamar que não seduzirá muitos… Ainda assim, a verdade é que, em duas visitas separadas no tempo, a sala, clara e de dimensão média, estava composta ao ponto de cheia.
“Menu de Almoço” (€19): sopa, espetada e tiramisu
Na mais recente passagem ao meio-dia, o alinhamento começou com uma surpreendente e bem conseguida “Sopa de grelos”: talos e espigos verdes bem picados a darem, com um amargor delicado, brilho a uma base cremosa de batata, numa espécie de caldo verde rústico.
Seguiu-se “Espetada de carne”, preparada na casa, com pedaços irregulares de boa carne, alternados com rodelas de chouriço mouro e de carne a pedirem fumeiro. Ficou a sensação de ser uma espetada de tamanho médio, mas o serviço avisou que, se fosse preciso, podia trazer mais um pouco. Uma taça de arroz solto e aromático ajudou a compor o apetite.
Para terminar, chegou uma porção de “Tiramisu” retirada do tabuleiro, com aquele ar caseiro: camadas bem húmidas e um toque licoroso a perfumar o creme de base.
Jantar: menu fixo e pratos de raiz tradicional
Num jantar a meio da semana, escolhemos o menu fixo (também disponível aos almoços), mais centrado em receitas tradicionais. Começou-se a petiscar com a “Língua de vaca” (€17), de textura sedosa e com molho cheio de sabor, embora apresentada em apenas quatro fatias pequenas e finas sobre um puré de batata muito liso.
O recomendado “Estendal” (€15) trouxe, pendurada, uma pequena alheira de rabo de boi e cogumelos, bem tostada e intensa, acompanhada por fatias de bola de carnes.
Nos principais, destacou-se a “Massada do mar” (€32), servida num tachinho médio de cobre: generosa em pedaços de pregado e robalo, envolvidos num caldo de camarão denso e apelativo, com um mar de cotovelinhos firmes de boa sêmola de trigo.
O “Coelho albardado” (€21) apareceu apenas frito (sem passar no ovo - hipótese que soava tentadora), com três cortes de perna e lombo num molho acídulo de pimento e cebola, a lembrar um “pico de galo” sul-americano. À parte, chegaram gomos inflados e gulosos de “Batatas bravas” (€4).
Ícone do Norte, o “Cabrito” (€27) não veio assado: foi estufado lentamente, com carnes tenras e húmidas, a desfazerem-se sem esforço sobre pão torrado, acompanhadas por óptimas migas de enchidos. Para refrescar, juntou-se ainda uma “Salada cítrica” (€5), de perfil mediterrânico, com cubos de laranja e meias-luas de cebola roxa ligados por uma vinagrete de mel.
Serviço, carta de vinhos e sobremesas
O atendimento, conduzido pelo escanção Nuno Frade e equipa, é rápido, atento e cuidado. Já a carta de vinhos, curta, deixa poucas hipóteses em matéria de preços para quem queira aventurar-se além do óbvio.
Na doçaria, há o diferente “Irasshaimase” (€8): gelado de doce de ovos, congelado e depois frito, que sai da órbita chinesa pela gula bem portuguesa do creme de ovos a rechear uma massa estaladiça perfumada com canela. Também muito bom é o invulgar “Pudim de amendoim” (€8), com um creme elegante de amendoim (nada a ver com manteiga americana) sobre o brilho de um pudim firme q.b., com o fruto tostado a rematar em volta.
O passado 28 de abril assinalou-se o Dia do Observador de Aves. O Biclaque X deve ser encarado como uma aposta com valor: os preços ajustam-se ao bom canto das mãos que cozinham, e a sala oscila entre composta e cheia. Alguns itens, porém, trazem porções de rapina e aquecem a conta como a ponta vermelha do Bico-de-lacre. Se acertar o voo - na porção e no foco regional - ainda pode nidificar.
Desde 1976, a crítica gastronómica do Expresso é feita a partir de visitas anónimas, sendo pagas pelo jornal todas as refeições e deslocações
ACEPIPE
Comidas de trabalho virtuosas
No final do século XIX, Luísa Maria Holstein presidia à Sociedade das Cozinhas Económicas de Lisboa. A então 3ª duquesa de Cadaval dificilmente imaginaria que esses refeitórios, espalhados por vários pontos da cidade para alimentar a classe operária, serviriam pratos que hoje parecem uma espécie de novo luxo.
Os samos do bacalhau, o atum curado, as vísceras, entranhas e outras partes gelatinosas - carregadas de sabor, ricas em colagénio e nutricionalmente valiosas - davam saúde e força a quem trabalhava. Até os mais novos recebiam um quartilho de vinho, por ser, na época, uma bebida mais segura do que a água.
Os hábitos mudam, e ainda bem, como aconteceu com a proibição de vinho a menores; mas o consumo de vinho entre jovens adultos está a definhar - para prejuízo do sector - enquanto os preços na restauração afundam o interesse.
À mesa, a corvina, outrora peixe popular vendido pelas peixeiras ambulantes em cada esquina, transformou-se no pescado de eleição em menus de degustação; já cherne, imperador e goraz são miragens de exportação.
As lancheiras entraram no quotidiano durante a crise do FMI, por via do IVA punitivo sobre a restauração que a troika impôs como receita para encurtar almoços e forçar produtividade. As comidas de trabalhador de outros tempos tornaram-se excepção. Hoje, quase todos vivem em dietas permanentes, baixas em calorias, sem alegria - nem alegoria - para as mãos virtuosas que cozinhavam comida de pobre.
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