O Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA) subiu o alerta vulcânico no canal Faial - Pico um nível acima do zero, passando de V0 (sistema vulcânico em fase de repouso) para V1 (sistema vulcânico em fase de equilíbrio metaestável). A região mantinha-se em V0 desde 21 de abril.
Alerta vulcânico do CIVISA no canal Faial - Pico: o que motivou a subida para V1
De acordo com um comunicado do CIVISA, “ocorreu novo incremento da atividade sísmica de baixa magnitude localizada ao longo da linha estrutural de direção NE [nordeste] - SW [sudoeste] que se estende no canal Faial - Pico, desde W [oeste] da Madalena até N [norte] do Lagido, abrangendo o Sistema Vulcânico Submarino do Cachorro, com profundidades que se desenvolvem verticalmente desde os 13 quilómetros até perto da superfície”.
O que implica o nível V1 na escala de vigilância
Este patamar é acionado quando existe “atividade fraca, ligeiramente acima dos níveis de referência, de origem tectónica, hidrotermal e/ou magmática”. Ainda assim, pode ser revisto “a qualquer momento”, uma vez que a sismicidade pode diminuir ou intensificar, e também porque “pode alterar-se o padrão de desgaseificação e/ou podem ocorrer movimentos de vertente, 'lahars' secundários ou explosões de vapor”.
A escala de vigilância tem oito níveis: começa no V0, correspondente a um sistema em repouso, e vai até ao V7, que já significa “erupção magmática ou hidromagmática em curso”.
No nível V1, a área entra numa “fase de equilíbrio metaestável”. Nesta condição, segundo o CIVISA, “se a atividade se verificar no mar, podem registar-se erupções submarinas sem outros sinais premonitores detetáveis pelas redes de monitorização existentes”.
Para já tudo tranquilo
“Esta alteração da fase de vigilância significa apenas uma alteração ao estado de base - ou seja, ao surgimento de atividade sísmica associada ao movimento de magma - mas representa ainda um nível baixo de risco”, afirma ao Expresso o geólogo Fernando Ornelas Marques. O investigador e consultor, com trabalho na área da geodinâmica e da tectónica, lembra que “as ilhas do Pico e do Faial fazem parte da mesma estrutura vulcânica, uma crista comum que, em períodos em que o nível do mar estava mais baixo, chegou a formar uma única ilha”.
Dentro desse enquadramento, sublinha que o canal entre as duas ilhas “não é uma barreira geológica, mas sim uma zona onde também existem estruturas que facilitam a ascensão de magma”. É uma explicação para a sismicidade agora observada, que decorre de “o magma estar a abrir caminho em profundidade, embora isso não permita prever se chegará ou não à superfície”.
Com base na informação pública disponível - e que considera limitada, até porque “os dados do CIVISA não são abertos nem para cientistas” -, o especialista frisa que “há uma probabilidade reduzida de ocorrência de erupção, sendo essencial acompanhar a evolução dos dados nos dias que se seguem”. Evoca, a propósito, o episódio da ilha de São Jorge, em 2022, quando uma crise sísmica muito marcada parecia indicar uma erupção que, no entanto, não se concretizou, evidenciando a incerteza associada a este tipo de processos.
Fernando Ornelas Marques chama ainda a atenção para o facto de, mesmo havendo sismicidade, poder não ser possível “determinar com precisão o local de uma eventual erupção, que pode ocorrer longe da área onde são sentidos os sismos, como sucedeu em La Palma em 2021”. Acrescenta também que o tipo de magma não é igual nas duas ilhas: “Enquanto o Pico apresenta sobretudo vulcanismo mais fluido, o Faial tem evidência de magma mais viscoso, associado a erupções potencialmente mais explosivas e perigosas”. Ainda assim, assinala que, para projeções mais robustas sobre a evolução do fenómeno, seria necessário dispor de informação mais detalhada sobre os sismos e sobre as estruturas tectónicas.
O CIVISA refere igualmente que o alerta “vigorará por um período de oito dias, caso não haja, entretanto, lugar a nova informação”. Em abril, este mesmo nível V1 já tinha sido aplicado no grupo Central açoriano (entre 9 e 21 de abril), devido a uma atividade sísmica “ligeiramente acima do normal” nessa área.
Quanto ao historial eruptivo, a erupção mais recente no Faial aconteceu no Vulcão dos Capelinhos, há 67 anos, e prolongou-se por 13 meses (entre 27 de setembro de 1957 e 24 de outubro de 1958). Na ilha do Pico, a última erupção em terra é do século XVIII (1718). Existe também registo de uma erupção submarina em 1963, ao largo da ilha, a norte do Cachorro.
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