Saltar para o conteúdo

Cannes: Pawel Pawlikowski e Asghar Farhadi com “Fatherland” e “Histoires Parallèles”, e a surpresa “Tangles”

Homem em escadaria vermelha de cinema com cartazes de filmes e equipe ao fundo num evento ao ar livre.

Competição: Pawel Pawlikowski e Asghar Farhadi

Na corrida principal, o dia de ontem juntou dois nomes de peso: Pawel Pawlikowski e Asghar Farhadi. O realizador polaco levou a Cannes o austero e breve “Fatherland”, um retrato mais ou menos fiel do regresso à Alemanha do Nobel Thomas Mann. Já o cineasta iraniano deslocou-se a Paris para explorar o olhar voyeurista em “Histoires Parallèles”, sobre vizinhos e relações inventadas a partir da Literatura.

“Fatherland”, de Pawel Pawlikowski

Em “Fatherland”, a visita de Thomas Mann à sua Alemanha - ou, melhor dizendo, às duas Alemanhas - em 1949 é contada com o ritmo de um filme de estrada, atravessado por acusações de traição à pátria e por momentos de reconhecimento público. Pawlikowski parece sobretudo interessado num exercício visual de uma disciplina extrema: o preto e branco que já conhecíamos de “Cold War” e de “Ida” surge aqui ainda mais fechado, quase mais “denso”, do que numa reconstituição rigorosa dos factos.

Embora o filme assente esta viagem de regresso na dinâmica entre pai (Thomas) e filha (Erika), a realidade foi outra: era a mulher de Mann quem conduzia, como nos contou a protagonista, uma Sandra Hüller implacavelmente perfeita como Erika, a filha que auxilia o pai a lapidar discursos com uma ressonância ética que ainda hoje se sente. As imagens e as ideias são, sem dúvida, fascinantes - isso não se discute -, mas a frieza desta Alemanha ferida parece exibir uma solenidade demasiado construída.

“Histoires Parallèles”, de Asghar Farhadi

Em “Histoires Parallèles”, Farhadi bifurca histórias paralelas a partir de uma escritora que inventa, no papel, uma versão ficcionada do quotidiano dos vizinhos da frente. É uma voyeur, interpretada por Isabelle Huppert, que escreve um livro capaz de alterar a vida das pessoas reais que descreve. Cinema puro, carregado de reflexão sobre a mentira da literatura e sobre a falha humana, com inspiração livre em Kieslowski (“Decálogo- Capítulo Seis”).

Não chega ao patamar de “Uma Separação” ou “Um Herói”, ambos premiados em Cannes, mas continua a ser um momento ver Catherine Deneuve voltar a contracenar com Isabelle Huppert. Não acontecia desde 2002 e a imprensa francesa gosta de olhar para as duas como rivais, as grandes damas do cinema gaulês… Ainda assim, estas histórias dentro de histórias, pensadas para Nova Iorque e não para Paris, deixam desconforto. E ficam a ruminar nas nossas cabeças. Está garantido para Portugal.

Sessão especial: “Tangles”, de Leah Nelson

A grande revelação é “Tangles”, de Leah Nelson, uma animação que adapta a novela gráfica de Sarah Leavitt sobre o processo íntimo de lidar com o Alzheimer da mãe. Passou fora de competição, numa sessão especial - e dificilmente poderia ter sido mais especial. Trata-se de animação para adultos, num preto e branco de energia punk, com um coração do tamanho do mundo e uma profundidade “queer” que convoca um certo estado de espírito da juventude norte-americana dos anos 1990.

Na gala, recebeu uma ovação de pé de sete minutos - vale o que vale, mas é, ainda assim, um sinal encorajador. Sente-se que não é descabido chamar-lhe “clássico instantâneo”, e não é por acaso que Seth Rogen e Julia Louis-Dreyfus, nos talentos vocais, fizeram questão de apoiar este lançamento. É o primeiro candidato realmente forte a melhor animação nos próximos Óscares.

Frase do dia

“É um mistério total para mim a forma como as pessoas prosseguem as suas vidas depois de uma guerra. É algo que não consigo explicar da condição humana”

Sandra Hüller, atriz de “Fatherland”, de Pawel Pawlikowski

Ecos do Mercado

Numa praia com o mar inacreditavelmente bravo, a Focus Features, da Universal, ofereceu um cocktail para convencer a imprensa acreditada que 2026 pode vir a ter pérolas como “Hamnet” ou “Bugonia”. O objectivo é repetir o ano extraordinário de 2025 - pelo menos, é essa a ambição do presidente Peter Kujawski, uma das figuras mais influentes do que ainda resta da Hollywood mais séria. Ao Expresso, mostrou-se particularmente entusiasmado com o que Robert Eggers está a preparar com a sua nova visão do lobisomem, intitulada “Werewulf”: “o que o Aaron Taylor-Johnson faz como o seu corpo é digno de acrobacia. Meus Deus! E se ele agora for o próximo Bond!!”. Neste encontro, ficou claro que o estúdio está muito confiante na nova versão de “Sensibilidade e Bom Senso”, assinada por Georgia Oaklaye, e também em “The Uprising”, de Paul Greengrass, sobre o levantamento contra o Rei Ricardo II.

E é também neste Marché que se percebe como os filmes biográficos continuam a receber sinal verde um pouco por todo o lado. Giuseppe Tornatore mergulha na vida de um ícone do luxo, Brunello, em “Brunello - Il Visionario Garbato, e Patricia Highsmith é o centro da nova visão de Anton Corbjin, “Talent for Murder”. A escritora é interpretada por Helen Mirren. Pelas primeiras imagens a que tivemos acesso, podemos dizer que a veterana inglesa segura a personagem com uma malícia divertida.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário