Depois de a administração da SATA e o Governo Regional terem afastado o único concorrente que tinha avançado no processo de privatização da Azores Airlines - o consórcio Atlantic Connect Group - e de optarem por avançar para uma venda direta, a gestão da companhia admite estar a receber sinais de interesse de vários potenciais compradores.
Em declarações ao Jornal de Negócios, o presidente da comissão executiva e do conselho de administração, Tiago Santos, apontou para a existência de "seis a oito interessados" na privatização da transportadora, num universo que poderá incluir tanto companhias aéreas como fundos de investimento.
Entre os nomes referidos como possíveis candidatos, Tiago Santos indicou a Binter (Canárias) e a Icelandair (Islândia). A Icelandair chegou, no passado, a ponderar participar na privatização da então SATA Internacional e a consultar o caderno de encargos, mas acabou por abandonar essa intenção.
De acordo com o Negócios, poderá ainda entrar no radar o fundo alemão Mutares, especializado em reestruturações. A mesma notícia aponta também a ALM Investment Holding, empresa sediada no Reino Unido e controlada por um único acionista - o português António Moreira - que disse ao Negócios estar disponível para pagar 17 milhões de euros por 85% do capital da companhia aérea, em linha com o montante anteriormente proposto pelo consórcio que juntava Tiago Raiano a Carlos Tavares. António Moreira admitiu igualmente a possibilidade de investir até 500 milhões de euros adicionais, caso venha a existir uma reestruturação da dívida.
Entretanto, o caderno de encargos da privatização - que está a ser preparado pela própria empresa - ainda não foi apresentado (a previsão é que aconteça na próxima semana) nem recebeu aprovação do Governo Regional. Continuam também por divulgar as contas de 2025. Do ponto de vista financeiro, apenas são públicos os números de 2024: nesse ano, os prejuízos atingiram 71 mihões de euros e a dívida chegou aos 470 milhões de euros. Segundo Tiago Santos, não deverá ter havido uma alteração material em 2025, apesar de admitir uma melhoria do EBITDA (meios libertos operacionais). As contas deste ano terão ainda pressão acrescida com o custo do querosene de aviação (Jet A-1); como a SATA não faz cobertura de risco, qualquer subida de preços repercute-se de forma direta.
Candidatos chegam via “encontros e conversas informais”
Ainda não é claro de que forma esses potenciais interessados fizeram chegar à administração da SATA a sua intenção, nem qual o grau de compromisso associado. Tiago Santos avançou publicamente com a ideia de que existe quase uma dúzia de nomes a orbitar a operação, que deveria estar concluída até ao final do ano.
O gestor referiu que os contactos ocorreram através de "encontros ou conversas", de natureza informal, na sequência do anúncio, em março, da abertura de um novo processo de venda. Na prática, sublinhou que não existe formalização do interesse - até porque a SATA Holding ainda não deu início ao procedimento.
No conjunto dos interessados potenciais surge a Mutares, cuja presença em Portugal tem sido associada ao negócio da Efacec: a empresa foi comprada em novembro de 2023 por 15 milhões de euros, numa operação em que o Estado injetou, na altura, 160 milhões de euros, e que agora se prepara para ser vendida. Segundo o Negócios, esta alienação é já apontada como "uma boa candidata a protagonizar uma das maiores vendas da história" do fundo, criado em 2008.
Processo será agora mais claro
Numa audição no Parlamento açoreano, a 7 de maio, Tiago Santos garantiu que "o novo processo será estruturado de forma diferente e com uma clareza relativamente à empresa que não havia no passado, nomeadamente a definição sobre responsabilidades de dívida e questões relacionadas com recursos humanos".
Esta afirmação motivou uma reação da Victorair, empresa que chegou a sinalizar interesse no processo anterior, mas que não apresentou proposta vinculativa. A Victorair acusou o líder da SATA de, na prática, ter assumido que a privatização da Azores Airlines anteriormente conduzida não foi suficientemente clara.
Num comunicado enviado à Lusa, a empresa - que liderou um consórcio interessado na compra de parte do capital social da companhia aérea açoriana e que acabou por recuar, invocando falta de informação - defende que as declarações recentes do presidente do conselho de administração da SATA confirmam os alertas que vinha fazendo. A Victorair considera ainda que o facto de Tiago Santos reconhecer que o novo processo foi “estruturado de forma diferente” demonstra que “as condições do processo anterior eram inadequadas para produzir uma transação robusta, estável e juridicamente previsível”.
Expectativa e prudência
O presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo (CCIAH) disse, na quarta-feira, estar apreensivo com o calendário da privatização da Azores Airlines, embora mantenha expectativa quanto ao eventual interesse de operadores como a Binter e a Icelandair.
“Deixa-nos obviamente expectantes pelo anúncio público destes nomes e com a ideia de que serão propostas firmes e com um interesse efetivo, porque senão não eram anunciados desta forma. Queremos acreditar que desta vez as coisas possam chegar a bom porto, apesar do tempo extremamente curto”, afirmou Marcos Couto, à Lusa. “Fico preocupado que só tenhamos seis meses para finalizar o processo, quando a TAP já está há muito mais tempo a fazer um processo de venda direta. Portanto, vamos querer fazer em seis meses o que a TAP está a levar mais de um ano a fazer”, acrescentou.
Na leitura de Marcos Couto, mais importante do que a quantidade de interessados é o peso dos nomes referidos. “Temos de nos lembrar que no processo anterior também foram anunciados 30 interessados, depois eram dois e acabou em um”, recordou.
O responsável da CCIAH assinalou ainda que a Binter já tinha, anteriormente, mostrado intenção de adquirir 20% da Azores Airlines e que representantes da Icelandair chegaram a deslocar-se aos Açores durante o anterior processo.
Ainda assim, sublinhou que não foram estas companhias a tornar público qualquer interesse no novo procedimento de privatização, ao contrário do que se verificou, por exemplo, com grupos interessados na aquisição do capital social da TAP.
“Para ser dado o nome de uma empresa que é cotada em bolsa, em Espanha, como a Binter, e ser colocado cá fora o nome desta forma, é porque, com certeza, estará muito sólida a proposta”, afirmou.
Marcos Couto insistiu também no impacto regional do desfecho: “É essencial para o equilíbrio financeiro da região que a companhia seja vendida. Sempre referimos que liquidação da empresa terá um impacto que não desejamos nas contas públicas regionais. Portanto, queremos acreditar que desta vez, com um processo que nos parece muito mais ajustado, se consiga vender a companhia”, frisou.
Em março de 2023, tinha sido lançado um concurso para privatizar entre 51% e 85% do capital social da Azores Airlines, no seguimento de um acordo com a Comissão Europeia que, em junho de 2022, aprovou uma ajuda estatal à reestruturação da companhia aérea no valor de 453,25 milhões de euros.
Três anos depois, o Governo Regional dos Açores optou por encerrar essa privatização sem adjudicação, seguindo a recomendação do júri, que concluiu que a única proposta admitida envolvia “riscos inaceitáveis”, um acordo parassocial que permitia reduzir a participação pública e uma equipa com menor experiência no setor da aviação.
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