"Por Todos Nós" e as celebrações do 25 de Abril de 1974
A estreia de uma ópera já é, por si, um acontecimento raro - e ainda mais quando se trata de uma criação portuguesa. "Por Todos Nós" cumpre esse marco em todos os aspectos: é uma produção totalmente nacional, pensada e concretizada por artistas portugueses e ancorada num momento decisivo da história do país, o 25 de Abril de 1974. Integrada nas comemorações dos 50 anos dessa data e feita por encomenda do Ministério da Cultura, a obra assinala também meio século desde a abertura do Teatro Aberto, ocorrida a 25 de maio de 1976. A ópera parte do romance "Os Memoráveis", publicado por Lídia Jorge em 2014, e sobe à cena no Teatro Aberto, em Lisboa, a 20 de maio.
Do romance "Os Memoráveis" ao libreto e à música
Segundo João Lourenço e Vera San Payo de Lemos, num dos textos incluídos no programa de sala, a aproximação ao livro foi inevitável: "impôs-se desde logo no horizonte, não apenas pelo modo como a narrativa articula memória, testemunho e reconstrução crítica da revolução, mas também por a música estar na génese do 25 de Abril". Ele, encenador, e ela, responsável pela dramaturgia, sublinham ainda que, enquanto “obra de arte total”, apenas a ópera conseguiria dar a ouvir "as várias vozes dos memoráveis", permitindo "modos diversos de tratar o tempo, ações simultâneas, monólogos, diálogos, momentos corais, consonantes com a suspensão, concentração e aceleração do tempo que marcaram o Dia da Liberdade".
Transportar para um libreto uma narrativa de grande fôlego revelou-se um desafio. Por isso, explicam os autores, "a escrita do libreto desenvolveu-se principalmente sob a premissa da concisão (relembrada ao longo do tempo pelo compositor) e com particular atenção aos contrastes e às imagens". A composição ficou a cargo de Eurico Carrapatoso - que soma mais cinco óperas no seu catálogo -, a quem coube criar "uma música que vive da coexistência dos contrários: o coral e o íntimo, o épico e o chão, o documental e o onírico", e em que “a multiplicidade das personagens não é dispersão, é polifonia da cidadania, espelho sonoro de um país que só existe porque muitas vozes o reclamam”.
“Uma surpresa e uma alegria”
Para Carrapatoso, "esta não é uma 'ópera de celebração', mas de reaprendizagem". Mais do que evocar, trata-se de "um exercício de escuta - do passado que fala através do presente, do presente que tenta compreender a sua própria origem". A partitura acompanha essa tensão, avançando “entre ruínas e claridades, entre a pulsação cívica e o murmúrio íntimo”. Como explica o compositor: “Na escrita, procurei fazer da diversidade um sistema de ecos: há temas que se ausentam e regressam; há ressonâncias que não pertencem a ninguém e, por isso mesmo, pertencem a todos. Tal como os memoráveis de 1974, também os motivos musicais vivem em permanente recomposição”.
A direção musical fica entregue a João Paulo Santos, que lidera o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa. O cenário é de João Mendes Ribeiro, e o elenco reúne Cátia Moreso, Mariana Castello Branco, Inês Constantino, Ricardo Panela, Luís Rodrigues, José Fardilha, Tiago Matos, Diogo Oliveira, João Rodrigues, Leonel Pinheiro, Tiago Amado Gomes, Mário Redondo, entre outros. E há um detalhe curioso: o título “Por Todos Nós” foi, afinal, encontrado pela própria autora do romance que serve de base à ópera.
Lídia Jorge chegou a essa formulação durante o processo criativo, no qual participou e no qual chegou a sugerir ajustes. “Nunca imaginei que um dia, passados mais de dez anos, um encenador tão qualificado olhasse para esse texto e o imaginasse em figurino de ópera. Tratou-se de uma surpresa, e de uma alegria”, conta a autora de ”Os Memoráveis", distinguida com o Prémio Pessoa 2025.
No seu texto de apresentação, a escritora regressa ao momento da publicação e ao público a quem então se dirigia: “Quando publiquei esse livro, em 2014, dirigia-me em silêncio aos jovens do nosso restrito mundo. Hoje, o destinatário, por via da situação global, alargou-se. Somos todos nós, um amplo nós que ultrapassa em muito o nosso domínio, nós que precisamos de ser lembrados de que há momentos históricos que não podem ficar entalados entre datas comuns. Há momentos marcantes que tentam sair do fio cronológico para serem parteiros de novos tempos”, observa.
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