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Desconexão emocional no trabalho: o alerta da Gallup em Portugal

Mulher a trabalhar no portátil com gráfico aberto, colegas a conversar ao fundo num escritório moderno.

O que é a desconexão emocional no trabalho

Não chama tanto a atenção como o esgotamento profissional, que normalmente se manifesta com exaustão evidente, nem como a demissão silenciosa, que depressa aparece nos indicadores do negócio - mas pode ser tão nociva quanto qualquer um destes fenómenos. Há um processo menos ruidoso a deteriorar a vida nas organizações e a inquietar quem lidera: a desconexão emocional. O termo descreve profissionais que continuam a executar as suas tarefas e mantêm níveis aceitáveis de produtividade, mas atravessam, em silêncio, um desgaste emocional contínuo, um afastamento da empresa e uma quebra de motivação.

À superfície, não se notam discussões, não surgem cartas de demissão e, muitas vezes, nem sequer há uma descida imediata de desempenho. Ainda assim, com o passar do tempo, o impacto pode tornar-se claro na produtividade, na capacidade de inovar e na retenção de talento.

O que mostram os dados da Gallup em Portugal

Diversas análises têm vindo a sinalizar um aumento dos indicadores de “desconexão” entre trabalhadores e empresas. Um dos retratos mais recentes é o estudo da plataforma global de carreiras Gallup, intitulado “O Estado do Local de Trabalho Global”. O levantamento ouviu 263 mil trabalhadores em todo o mundo - cerca de mil em Portugal - no ano passado e conclui que o indicador global de compromisso dos colaboradores desceu pelo segundo ano seguido, atingindo o valor mais baixo desde a pandemia: 20%. Em Portugal, apenas 19% dos inquiridos dizem estar comprometidos com o trabalho que realizam. Mesmo assim, o país fica acima da média dos países europeus incluídos no estudo: 12%.

Cerca de 47% dos trabalhadores em Portugal reportaram situações de elevado stresse diário

A Gallup sublinha que o indicador de conexão emocional é especialmente importante por estar ligado “com a produtividade, a inovação, a retenção de talento e qualidade das lideranças nas organizações”. De acordo com o estudo, a maioria dos profissionais em Portugal não está emocionalmente ligada ao trabalho; muitos operam em “piloto automático”, cumprindo tarefas de forma mecânica, sem sentido crítico e sem foco na melhoria. O relatório assinala ainda que existe baixa segurança psicológica nas organizações.

Stresse laboral e risco de erosão emocional

Portugal surge também acima da média europeia e global no stresse associado ao trabalho. Cerca de 47% dos inquiridos no país referem viver situações de stresse diário elevado, um valor que compara com 39% na Europa e 40% a nível global. Este indicador aponta para uma sobrecarga prolongada, pressão emocional persistente e dificuldades em equilibrar vida profissional e familiar. Num cenário em que os níveis de compromisso são baixos, o stresse alto tende a agravar-se: colaboradores cansados mas motivados conseguem recuperar; já trabalhadores cansados e desligados tendem a entrar num processo de erosão emocional.

Sinais, cultura organizacional e prevenção

Cristina Rosa, responsável de recursos humanos na multinacional Eurofirms, especializada em gestão de talento, alerta que “o maior risco é as empresas não reconhecerem estes sinais a tempo e confundirem ausência de conflito com estabilidade”. A especialista aponta ainda para fatores culturais em Portugal que podem facilitar o avanço desta desconexão emocional, “se desenvolva de forma progressiva e pouco visível, como a dificuldade em contrariar hierarquias ou a valorização excessiva da resiliência”.

Na sua perspetiva, o caminho passa por reforçar ligações sólidas e saudáveis entre as pessoas e a organização. “Este é um fenómeno que pode ser prevenido”, nota Cristina Rosa, acrescentando que, “quando existe escuta ativa, proximidade na liderança e um ambiente onde as pessoas se sentem reconhecidas, é possível criar equipas mais envolvidas e resilientes”.

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