Quando contou que era bissexual, Pedro ouviu de um padre que só tinha duas saídas: manter-se no sacerdócio ou procurar uma psicóloga. Num país onde as terapias de conversão são crime, continuam a surgir tentativas de “curar” a homossexualidade.
Passadas três décadas e meia desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças, a Lusa reuniu relatos como os de Pedro e de Miguel, ambos confrontados com convites para “tratar” a sua orientação sexual.
Relatos pessoais e pressão para mudar a orientação sexual
No dia em que Pedro Lopes (nome fictício) decidiu falar com o seu guia espiritual sobre ser bissexual, não esperava a resposta do pároco. O padre franciscano disse-lhe que, se quisesse manter essa orientação sexual, deveria “seguir o sacerdócio”. A alternativa, contou Pedro, passava por tentar ser heterossexual com a ajuda de “uma psicóloga católica”.
Pedro diz que se sentiu “castrado”. Recusou a proposta e afastou-se da igreja. E não foi a única vez, num curto período, em que as “terapias de conversão” lhe apareceram como algo admissível. Em 2022, durante uma festa de aniversário, trouxe o tema da bissexualidade à conversa e alguns amigos responderam que “existia solução” para situações dessas.
Nunca aceitou esse tipo de prática, mas ficou convencido de que há quem a procure e quem a ofereça. Na Ordem dos Psicólogos não existem queixas nem denúncias. “A grande maioria das pessoas que possa fazer essas práticas não é psicólogo, psiquiatra, nem profissional de saúde mental, porque sabem que não vale a pena fazer uma intervenção que não vai ter resultados e que, pelo contrário, vai aumentar a sensação de estigma”, explicou Miguel Ricou, da Ordem dos Psicólogos.
Sem registo de casos
O especialista recordou estimativas internacionais segundo as quais cerca de 5% das pessoas LGBTI+ podem ser submetidas a estas práticas, mas o primeiro estudo feito em Portugal aponta para valores bem mais elevados. No relatório “Saúde Mental, Experiências de Terapia e Aspirações de Vida de Pessoas LGBT+”, coordenado por Pedro Alexandre Costa e divulgado em 2023, 22% dos inquiridos afirmaram ter passado por práticas de conversão em contextos religioso, médico ou psicoterapêutico.
Embora estas práticas tenham passado a ser crime em 2024, as autoridades não têm “registo de processos” que tenham chegado ao fim em tribunal nesse ano, indicou à Lusa o Ministério da Justiça.
Nem a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) nem a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) receberam queixas.
A Casa Qui foi a única a registar um pedido de apoio: no final de 2024, uma pessoa disse ter sido submetida a “missas de conversão”, relatou à Lusa Rita Paulos, presidente da associação que apoia população LGBTI+ em situação de risco.
Também não existem registos recentes no Observatório da Discriminação da ILGA, na Rede ex Aequo, na Opus Diversidade ou na APAV. Ainda assim, a psicóloga da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, Joana Menezes, salientou que a ausência de queixas não significa a inexistência de práticas.
Violência familiar, isolamento e medo de denunciar
Rita Paulos partilha a mesma leitura e admite que estas situações continuem a acontecer “principalmente em contexto religioso (...) mesmo que não seja explicitamente como “terapia de conversão”.”
Joana Menezes chamou a atenção para episódios de violência doméstica ou intrafamiliar associados à rejeição da orientação sexual ou da identidade de género, bem como para casos de jovens que acabam expulsos de casa - ou que fogem.
Miguel Salazar é um desses exemplos. Aos 16 anos, aceitou fazer terapias de conversão “com um psicólogo cristão” na tentativa de pacificar o ambiente familiar. Quando interrompeu a terapia, disse que os pais tornaram a sua “vida um inferno, até decidir sair de casa”, recordou, hoje com 26 anos. Contactada pela Lusa, a mãe negou todas as acusações.
Também Pedro Lopes diz conhecer amigos homossexuais que foram postos à margem pela família: “Não são convidados para as festas de Natal nem da Páscoa e, se tiverem uma relação, não podem levar essa pessoa a casa”.
Agravar o trauma
Numa igreja relativamente perto daquela que Pedro frequentava, um outro pároco - que pediu anonimato - sempre encarou de outra forma as alegadas “terapias”. O sacerdote contou ter ouvido relatos de pessoas que aceitaram submeter-se a práticas de “quase tortura psicológica” para deixarem de ser homossexuais.
Segundo esse pároco, conheceu dois homens que, já em pleno século XXI, tentaram “a conversão para a heterossexualidade”, mas as técnicas “não deram resultado, graças a Deus”.
Sessões, registos e um sistema de pontos
Um dos fiéis descreveu que fazia sessões de grupo e consultas individuais, num processo de transformação que se prolongava para lá das sessões.
Numa espécie de caderneta, registava o que ia sentindo ao longo do dia e ia ganhando ou perdendo pontos. “Quando iam na rua, por exemplo, apontavam se tinham sentido ou não atração por uma figura masculina”.
O pároco frisou que as duas histórias não decorreram em contexto religioso: eram acompanhados por “psicólogos ou pseudo-psicólogos, que tinham uma componente religiosa, mas não eram em reuniões de igreja”.
As práticas não tiveram efeito e, segundo os relatos, apenas aumentaram o trauma. Quando lhes foi pedido um testemunho - mesmo com anonimato - disseram não estar preparados, porque “falar no assunto pode levar a uma retraumatização”, explicou o pároco.
Outras duas vítimas chegaram a aceitar falar, mas desistiram pouco antes das entrevistas. Justificaram que ainda não conseguiam tocar no tema e que preferiam manter-se em silêncio.
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