Sobreviventes da Shoah e o peso da memória
Os sobreviventes da Shoah - como Viktor Frankl ou Elie Wiesel - deixaram livros e testemunhos sobre o período mais monstruoso da História moderna: a Solução Final imposta pelos nazis, que visava o genocídio dos judeus e acabou por conduzir milhões de pessoas às câmaras de gás. Escapar a um horror metódico, registado e transformado em procedimento burocrático esteve longe de ser simples. Quando as forças aliadas libertaram os campos, muitos sobreviventes trouxeram consigo culpa e fúria, perderam a fé na Humanidade e chegaram a interrogar-se se fazia sentido ter filhos num mundo que permitira o surgimento de Hitler, Goering, Himmler e Mengele.
Edith Eva Eger: o tempo até contar a própria história
Edith Eva Eger foi uma dessas sobreviventes, mas só muito tarde encontrou espaço para narrar o que viveu. O seu livro “A Escolha: Abraçar o Possível”, publicado em 2017, é o relato de alguém que decidiu orientar o futuro por um caminho diferente. Num documentário, Edith explica que não perdoou nem apagou a experiência por que passou; optou, isso sim, por continuar: “Tenho três filhos, cinco netos e quatro bisnetos. Essa é a minha vingança de Hitler.” Morreu a 27 de abril, na sua casa em San Diego, com 98 anos.
Infância em Kosice e a família Elefánt
Edith Eva Elefánt nasceu a 29 de setembro de 1927, em Kosice, então parte da Checoslováquia. O pai era alfaiate; a mãe, Ilona Elefánt, née Klein, ocupava-se do lar. Como o pai desejava um rapaz, a chegada de Edith - a terceira filha, depois de já existirem duas raparigas - não foi recebida com entusiasmo.
Em pequena, esteve perto de morrer com uma gripe, mas o médico administrou-lhe uma injeção no ouvido e conseguiu salvá-la. Não evitou, contudo, o estrabismo que as irmãs tentavam disfarçar. Quando saíam, colocavam-lhe uma venda para que ninguém notasse os olhos desviados. Mas que ideia faria a vizinhança de uma criança a circular com um olho tapado?
A mãe mostrava-se mais protetora e passou a reservar os fins de semana para estar com ela. Faziam programas culturais, como idas a museus e à ópera. Já no início da adolescência, porém, perante a beleza e o talento musical das irmãs, Clara e Magda, Edith ouviu da mãe: “Ainda bem que tens cabeça, porque não deves nada à beleza.”
A família mudou de casa várias vezes e, em março de 1944, Edith foi retirada de um bairro em Kasha, na Hungria, e deportada para Auschwitz. Tinha 16 anos. A mãe e a irmã Magda seguiram com ela. Clara escapou por circunstâncias raras: fora a única judia admitida no Conservatório de Budapeste e o professor - cristão - escondeu-a até ao fim da guerra.
O pai queria um rapaz, por isso a notícia do nascimento de Edith, a terceira de duas filhas do casal, foi mal recebida
Auschwitz, Josef Mengele e o dia da perda
À chegada a Auschwitz, Josef Mengele estava encarregado de separar os deportados: uns eram encaminhados para o lado das câmaras de gás, outros seguiam na direção oposta. Procuravam saber quem, entre as raparigas, tinha algum talento; alguém empurrou Edith para a frente.
Ela fazia ballet e, antes disso, tinha sido ginasta, tendo treinado com o objetivo de participar nos Jogos Olímpicos. Dançou ao som de Tchaikovsky e Mengele poupou-a à morte. A mãe, porém, foi assassinada nesse mesmo dia.
Transferências, libertação e recomeço nos Estados Unidos
Um ano depois, Edith e Magda foram transferidas para Mauthausen e, mais tarde, para Gunskirchen, onde seriam libertadas em maio de 1945. Para quem sobreviveu, abriu-se então um período longo e exigente de recuperação.
Ainda num hospital, Edith conheceu Albert Bela Eger. Casaram e, em 1949, emigraram para os Estados Unidos, onde ele tinha familiares.
Psicologia, doutoramento e trabalho clínico
Edith não tinha terminado o liceu e, precisamente por considerar que não possuía credenciais para entrar numa faculdade, apresentou-se na Universidade de Saybrook, em Oakland, na Califórnia, para expressar o desejo de estudar Psicologia. Era uma área que lhe despertava particular interesse, sobretudo depois de ter acompanhado alguns doentes durante um estágio no departamento de Psiquiatria do William Beaumont Army Medical Center, em El Paso.
Falaram-lhe na possibilidade de um doutoramento. Edith, que na altura tinha 40 anos, respondeu que só o concluiria aos 50. O professor ripostou que, de uma forma ou de outra, ela chegaria aos 50 anos. E assim aconteceu.
Em El Paso, acompanhou pacientes numa clínica privada antes de se mudar para San Diego, em 1987. Atendia sobretudo vítimas de abuso, militares com traumas e famílias em rutura.
O regresso a Auschwitz e a escolha de continuar
No início da década de 1980, fez uma viagem a Auschwitz para falar a um grupo de 600 militares. Pensou muito antes de aceitar: temia o que aquele regresso pudesse reabrir na memória. Mas o resultado surpreendeu-a. Uma das filhas contou ao “The New York Times” que, naquele dia, a tristeza que a mãe carregava no olhar se dissipou. “Saiu a dançar e a cantar.”
Escolher viver depois de tudo o que lhe aconteceu não foi a opção mais frequente entre sobreviventes, mas está longe de ser uma atitude leviana. Trata-se de aceitar a vida e aceitar-se a si própria, recusando continuar presa aos algozes que a reduziram a vítima. Escolher a vida é escolher não ser vítima.
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