A existência de vontade política para baixar a pobreza e enfrentar a desigualdade de género é determinante para assegurar recursos às famílias e, em particular, às mulheres.
Pobreza e desigualdade de género: alerta de Carlos Farinha Rodrigues
A pobreza e a desigualdade de género continuam a colocar as famílias numa situação de risco acrescido, com as mulheres entre as mais atingidas, tal como as pessoas com mais de 75 anos e as crianças e jovens. Para Carlos Farinha Rodrigues, professor do ISEG - Escola de Economia e Gestão de Lisboa, da Universidade de Lisboa, o caminho passa por agir sobre "duas questões essenciais": "Haver vontade política para implementar medidas que permitam uma redução significativa da pobreza, que afetará homens e mulheres, e olhar pelos fatores de género porque a pobreza em Portugal é muito determinada por esta desigualdade, e combatê-la é condição necessária para reduzir a pobreza" em que elas vivem, sustenta o professor e economista.
Assinalando-se o Dia da Família, Farinha Rodrigues entende que "a comemoração destes momentos serve para lembrar o que falta fazer: reduzir a pobreza e a precariedade social de uma parte muito significativa das famílias portuguesas". O aviso é feito num cenário de subida do custo de vida, que aprofunda fragilidades já existentes, embora considere que o país "tem condições para reduzir" as desigualdades.
A leitura dos dados mostra que os principais fatores de risco têm expressão sobretudo no feminino. "Quando analisamos por grupos etários, a diferença de pobreza maior entre homens e mulheres está acima dos que têm mais de 75 anos", numa proporção que, em 2023, rondava os 27%. Se a análise incidir nos grupos socioeconómicos, "temos taxas muito elevadas no caso das mulheres que vivem sozinhas, mas também nas famílias monoparentais, ambas na ordem dos 30,8%, sendo que a maioria destes agregados é composto por uma mulher com crianças". Segundo estudos da Pordata (2025), existiam oito famílias monoparentais femininas por cada duas masculinas. E, em 2023, só a monoparentalidade reunia cerca de um quarto das crianças em situação de pobreza.
Crianças, escola e apoio direto às famílias
Na perspetiva de Farinha Rodrigues, a prioridade deve incidir sobre os mais novos, "passando do papel à prática na tomada de medidas significativas como, por exemplo, no apoio ao ensino, escola, alimentação". Ainda assim, lembra que "como as crianças não são pobres por elas mesmas, mas porque vivem numa família com essas circunstâncias", torna-se indispensável "simultaneamente garantir recursos às famílias onde elas se inserem".
Pacote laboral vulnerabiliza mulheres
Com a reforma do Código Laboral a avançar para o Parlamento e sem acordo na concertação social, Carlos Farinha Rodrigues afirma não ver nestas alterações "qualquer elemento que permita eliminar a pobreza e a desigualdade em geral". O professor do ISEG sublinha ainda que "a experiência mostra que, quando temos medidas restritivas que põem em causa os direitos sociais, as mulheres são as primeiras a sofrer com elas".
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