A avó Matilde e um tempo anterior à Internet
A minha avó Matilde nasceu tantas décadas antes de existir Internet que nunca me passou pela cabeça vê-la associada a uma petição online. Parecia-me que já pertencia por completo ao território das recordações, de onde agora ninguém a tira - a não ser, talvez, quando eu próprio for velho. Aí, seremos semelhantes.
Até chegar aos cem anos, a minha avó devia ter deitado a mão ao anel do Sauron: à maneira de Bilbo Baggins, havia nela qualquer coisa de sobrenatural que a conservava numa idade sem calendário, mais segura do que a bengala, quase ligeira.
Dizia-me que, quando os imaginava, os dias da semana tinham cores; ainda recuperava o alemão aprendido em criança; e mantinha curiosidade pela história dos reis, pelos grandes nomes - quem matou quem, de que forma, em que sítio. Se tentávamos contrariar um pormenor indo à enciclopédia, respondia que a enciclopédia é que estava errada. No telemóvel, a única coisa que não chegou a dominar foi enviar mensagens.
As irmãs eram feitas do mesmo material: quando a minha avó fez cem anos, se somássemos o tempo vivido por cada uma, voltaríamos atrás até 1621. Foi o ano do nascimento de La Fontaine, e isto tudo me soa a fábula. Não sei bem porquê.
A queda, o mês e meio e a vigília
Aos cento e dois anos, a minha avó tropeçou e caiu. Imagino a cena como um deslizamento de terras, depois de uma vida inteira em que tudo se manteve coeso. A partir dessa queda, deixou de estar inteira: mesmo já no chão, foi como se continuasse a escorregar durante um mês e meio, até parar.
Morrer muito velha, depois de uma vida boa, não é matéria de fábula nem, por si só, assunto para escrita - embora até as vidas boas se sustentem numa tensão que a literatura consegue traduzir. Mas era a minha avó e estava a morrer; e nós sabíamos que ia morrer.
Ela também o devia saber. Sentei-me ao lado da cabeceira, em casa, a velá-la: “velar” é um verbo com uma espera enorme, mesmo quando essa espera dura apenas um mês e meio. O quarto era o mesmo de sempre, mas passara a ter ar de enfermaria: a cama articulada, as caixas dos comprimidos, um silêncio de declínio.
Cuidados paliativos, APCP e a petição online
No meio disto, porém, a minha avó morria com dignidade. Conseguimos que uma equipa de cuidados paliativos nos acompanhasse - isto é, que a acompanhasse a ela e nos desse sossego. O conforto dela era também o nosso; uma serenidade agitada, talvez, mas pelo menos a certeza de que assim é, e de que assim deve ser.
E agora, quase dez anos depois, dou com a minha avó numa petição online promovida pela Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos: pedem mais equipas, mais camas, novos incentivos e o reconhecimento oficial da medicina paliativa como especialidade - cada vez mais necessária.
Todos os anos, neste país triste e envelhecido, morrem oitenta e cinco mil pessoas a precisar de cuidados paliativos. A minha avó dizia que as enciclopédias falhavam muito. Mas a petição da APCP não podia estar mais certa.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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