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Onde estão estes milhares de candidatos a professores?

Professora a entrar numa sala de aula vazia com mesas, cadernos, laptop e quadro-negro.

Pergunto - sem qualquer ironia, mas com a urgência de quem observa a realidade todos os dias - onde estão esses milhares de candidatos a professores de que tanto se fala. Faço esta pergunta a pensar nos colegas sobrecarregados, exaustos, doentes e já envelhecidos, que, ainda assim, acabam empurrados para horas extraordinárias que pertenciam a vagas de quem optou por não se candidatar.

Penso, também, nos primeiros dias de setembro: milhares de alunos a iniciarem o ano letivo sem professor, sem aulas, sem aquilo que a escola lhes deve por direito.

O quotidiano nas escolas: quando faltam professores, tudo pesa

Volto a perguntar quando uma direção é obrigada a repartir as horas de um docente que adoeceu por professores que já estão no limite: horário completo, dezenas de alunos por turma e reuniões sucessivas para discutir projetos e mais projetos, precisamente quando a prioridade deveria ser ensinar - e ter tempo para preparar aulas, corrigir trabalhos e avaliar testes.

E, perante isto, insiste-se: onde estavam, afinal, esses candidatos a professor?

O que não cabe em comunicados: a desvalorização da profissão docente

A verdade não se fixa em comunicados; vive-se nas escolas. E sente-se - com empatia, com aquilo que nos define como pessoas decentes - um cansaço que se tornou quase permanente. Vê-se uma profissão que foi perdendo valor, ano após ano, e que, por arrastamento, empurrou o país para o ponto em que está.

Chegámos aqui por causa de regras que mudam sem cessar, de uma instabilidade que não deixa erguer nada de sólido e de uma carga burocrática que desvia tempo do essencial: ensinar. Sei-o bem, porque dou aulas há 37 anos. Sei que há professores que sabem, que querem e que fazem, mas que trabalham abaixo do que seriam capazes, simplesmente porque já não conseguem dar mais.

E, no entanto, os professores portugueses são dos que lideram na pedagogia. É preciso preservá-los. Protegê-los. Cuidar deles.

Candidatos a professores: haver não basta, é preciso ficar

No meio de tudo isto, repete-se no discurso político a ideia de que existem muitos candidatos.

Mas, se são assim tantos, porque é que continuamos a ter falta de professores? Porque é que continuam alunos sem aulas? Porque é que, quando um docente adoece, não aparece quem o substitua?

Talvez porque não chega existir: é necessário permanecer. E para permanecer tem de valer a pena; é preciso conseguir aguentar - suportar o peso, a responsabilidade e o desgaste. Vai-se resistindo por teimosia de quem não desiste, mas isso não se sustenta.

A educação não precisa de números que tranquilizem. Precisa de respostas concretas e de medidas eficazes, que convençam os mais novos a apostar nesta carreira, ao mesmo tempo que aproveitam a experiência de quem tem mais anos de casa. Valorizar quem já está não é opcional: é indispensável. Atrair quem chega não é abrir vagas; é criar condições para ficar. Ensinar não é apenas ocupar um posto. É construir futuro. E esse futuro levanta-se no presente, agora.

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