Os exames de ressonância magnética cardíaca (RMC) são pedidos para avaliar o coração. Os cardiologistas recorrem a estas imagens para medir a espessura do músculo, o movimento das cavidades e a eficácia com que as paredes se contraem - permitindo estimar o risco de doença cardíaca antes de surgirem sintomas.
Uma nova investigação que acompanhou mais de 6.000 adultos durante quase duas décadas encontrou, porém, um sinal inesperado nessas imagens.
A estrutura e a dinâmica do coração, registadas com anos de antecedência, associaram-se a quais as pessoas que mais tarde viriam a desenvolver determinados cancros.
Duas doenças ligadas
O Dr. Xinjiang Cai, cardiologista e médico-cientista na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), tem dedicado anos a estudar de que forma o coração e os tumores podem estar ligados de forma discreta. O seu trabalho mais recente dá consistência a essa hipótese.
O estudo foca-se na remodelação cardíaca - alterações pequenas e precoces na estrutura do coração e na maneira como este se movimenta, mudanças que se instalam muito antes de alguém se sentir doente. Em consultas de rotina, estes sinais tendem a passar despercebidos.
Há vários anos que diferentes dados sugerem que as duas doenças podem partilhar raízes biológicas, em vez de ocorrerem em conjunto por mero acaso.
Em modelos animais, demonstrou-se que um coração alterado pode acelerar o crescimento tumoral, mesmo quando ainda não existe insuficiência cardíaca.
Ler o coração
Para procurar esses sinais iniciais, a equipa recorreu à ressonância magnética cardíaca - exames detalhados que mapeiam o músculo e as cavidades do coração com muito mais precisão do que uma avaliação básica.
Em trabalhos anteriores, a evidência assentava sobretudo em análises ao sangue ou em medições da acumulação de cálcio nas artérias.
As imagens utilizadas vieram de um estudo de saúde de longa duração que acompanhou mais de 6.000 adultos, com idades entre os 45 e os 84 anos, sem doença cardíaca conhecida no momento da inclusão.
O conjunto de dados representava participantes de seis cidades dos EUA e de quatro origens raciais e étnicas.
No início, o coração de cada pessoa foi medido e, depois, todos foram acompanhados quanto ao aparecimento de cancro durante cerca de 18 anos.
Ao longo desse período, aproximadamente 790 pessoas desenvolveram cancro, e a probabilidade aumentou de forma consistente à medida que as alterações cardíacas precoces se tornavam mais marcadas.
Massa e cancro da mama
A associação mais forte relacionou a massa da principal câmara de bombeamento do coração com o cancro da mama. As mulheres com maior massa muscular nessa cavidade acabaram por desenvolver a doença com mais frequência do que aquelas com menor massa.
Este padrão manteve-se mesmo depois de os investigadores controlarem os fatores habituais - idade, peso, tensão arterial e outros riscos partilhados.
Até esta análise, ninguém tinha usado imagiologia cardíaca detalhada para evidenciar essa ligação em adultos que, à partida, eram saudáveis.
Outros resultados tornam a hipótese plausível. Alguns estudos indicam que um tumor da mama pode remodelar o coração através de sinais químicos que liberta, por vezes muito antes de qualquer tratamento começar.
Uma contração mais fraca
Um segundo indício surgiu na cavidade superior esquerda do coração. Os investigadores avaliaram quão livremente essa cavidade se move a cada batimento - uma característica conhecida como deformação da aurícula esquerda. Um movimento mais fraco coincidiu com taxas mais elevadas de cancro colorrectal.
Quem tinha uma boa mobilidade dessa cavidade superior apresentou claramente menos cancro colorrectal ao longo dos anos de seguimento. Já uma aurícula mais rígida e lenta apontou no sentido oposto, para maior risco.
Não é claro por que razão estes fenómenos aparecem juntos. Um coração sob stress pode libertar sinais que favoreçam o progresso tumoral, ou ambos os problemas podem resultar do mesmo tipo de lesão subjacente. A ressonância mostra a ligação, mas não esclarece a causa.
Limitações do estudo
Nada disto demonstra que as alterações cardíacas provoquem cancro, e os investigadores são explícitos nesse ponto.
“Estes resultados representam associações e não estabelecem causalidade”, afirmou Cai.
Podem existir fatores adicionais, não medidos, a influenciar parte da relação. Há ainda a possibilidade de as pessoas cujos corações chamaram a atenção médica terem sido avaliadas com maior detalhe, levando à deteção de cancros que, de outra forma, poderiam ter passado sem diagnóstico.
Antes de poderem chegar à prática clínica diária, as conclusões terão de ser confirmadas noutros grandes grupos populacionais.
Trabalhos anteriores desta equipa já tinham associado determinados marcadores sanguíneos ligados ao coração a cancro mais tarde; as novas RMC acrescentam uma observação mais direta do próprio órgão.
O que pode mudar
A novidade aqui está no método. Pela primeira vez, exames cardíacos detalhados - e não análises ao sangue ou tabelas de risco - sinalizaram pessoas que, mais tarde, teriam maior probabilidade de cancro da mama ou cancro colorrectal.
Isto sugere um benefício prático. As mesmas ressonâncias que os cardiologistas já pedem para estimar risco cardíaco poderão um dia também funcionar como alerta precoce de cancro, orientando alguns doentes para rastreios mais próximos e mais cedo.
O estudo também reforça a ideia de que o coração e o resto do corpo devem ser encarados como um sistema interligado.
Controlar a tensão arterial, o peso e a glicemia já protege o coração. Esses mesmos hábitos poderão, de forma discreta, reduzir também o risco de cancro.
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