Se olhar para um mapa que mostra como os oceanos do mundo mudaram ao longo do último século, quase tudo aparece a vermelho, puxado para o lado mais quente da escala.
Essa subida lenta e constante é aquilo que décadas de medições nos habituaram a esperar.
Mas há uma zona que foge ao padrão. Uma faixa do Atlântico Norte tem arrefecido há décadas e uma nova leitura dos registos conseguiu, por fim, identificar o motivo.
A mancha fica mais fria
Os cientistas chamam-lhe mancha fria, uma bolsa teimosa de água mais fria a sul da Gronelândia e da Islândia.
Enquanto praticamente todos os oceanos aqueceram no último século, este canto específico arrefeceu até cerca de 1,0 °C. A origem dessa anomalia foi, durante muito tempo, um enigma.
Uma nova análise liderada pelo físico do oceano Stefan Rahmstorf - responsável pela área de análise do sistema terrestre no Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), na Alemanha - aponta para uma resposta preocupante.
Durante anos, duas explicações disputaram terreno: ou a água estaria a perder mais calor para a atmosfera por cima, ou as correntes que normalmente trazem calor para a região teriam abrandado, fazendo chegar menos energia a essa zona.
Menos calor a entrar
Trabalhos anteriores que favoreciam a hipótese do abrandamento apoiavam-se sobretudo em modelos climáticos. A equipa de Rahmstorf recorreu a medições no mundo real que remontam a 1955.
Um estudo de 2025 já tinha indicado que apenas uma corrente a enfraquecer conseguiria reproduzir o arrefecimento efectivamente observado naquela área.
“A tendência de arrefecimento observada não pode ser explicada por alterações nos fluxos de calor à superfície”, escreveram os autores desse estudo.
Se a mancha estivesse a arrefecer por estar a libertar mais calor para o ar, a perda de calor à superfície deveria ter aumentado. No entanto, aconteceu o contrário: diminuiu.
Além disso, o arrefecimento não se limita a uma película superficial. Trata-se de uma perda de calor que se estende a profundidades consideráveis.
Ao longo de décadas de observações, as variações na mancha fria acompanharam de perto as mudanças na quantidade de calor transportada para norte pelas correntes oceânicas.
Uma corrente que está a perder força
A corrente em causa é a AMOC, sigla de Atlantic Meridional Overturning Circulation (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico).
É um sistema de grande escala que leva água tropical quente para norte junto à superfície e devolve água mais fria e mais densa para sul, em profundidade. É também uma das razões pelas quais o clima da Europa tende a ser mais ameno.
A mancha fria encontra-se precisamente na zona onde este circuito transfere parte do seu calor para a atmosfera. Quando a corrente perde intensidade e empurra menos água quente para norte, esta região é das primeiras a reflectir esse efeito - e o arrefecimento torna-se um sinal visível de uma circulação em declínio.
Outras linhas de investigação, com base em medições oceânicas e simulações computacionais, já apontam para a AMOC a aproximar-se de um ponto de viragem.
Medições da salinidade da água sugerem ainda que o abrandamento poderá recuar a mais de um século.
A aproximar-se de um limiar perigoso
Há muito que os cientistas do clima sabem que a AMOC tem um limiar: um nível a partir do qual pode enfraquecer de forma acentuada e, em vez de recuperar, entrar num colapso.
A equipa de Rahmstorf descreve o conjunto crescente de indícios desse enfraquecimento como uma preocupação séria para a sociedade e para as políticas públicas.
O mais difícil é perceber a que distância está esse limiar - e a resposta, por mais honesta que seja, vem acompanhada de incerteza real.
Ainda assim, em simulações padrão de aquecimento futuro, uma parte considerável das execuções cruza esse ponto por volta de meados deste século.
Um artigo muito debatido colocou a possibilidade de colapso já a meio do século, enquanto outros interpretam os mesmos sinais de alerta com mais cautela. A margem de variação é grande, e é por isso que evidência assente em observações directas ganha especial peso.
Os efeitos de um colapso
Um colapso da AMOC não arrefeceria o planeta inteiro. Em partes do Hemisfério Norte, as temperaturas de Inverno poderiam cair de forma marcada, com projecções para as zonas mais afectadas a apontarem para descidas na ordem dos 10 a 15 °C.
Na Europa, os Invernos tornar-se-iam mais rigorosos. As faixas de precipitação mudariam de posição, as secas poderiam agravar-se no sul da Europa e o nível do mar subiria mais depressa ao longo da costa leste dos EUA.
Nada disto aconteceria de um dia para o outro. O oceano reage lentamente, pelo que um colapso iniciado nas próximas décadas continuaria a desenvolver-se durante gerações.
Mesmo muito depois de a tendência se tornar inequívoca nos dados, haveria impactos na agricultura, nas pescas e no abastecimento alimentar.
Implicações mais amplas do estudo
O que esta análise clarifica é a origem do arrefecimento - e não se trata de calor a escapar para cima.
A mancha fria está a arrefecer porque lhe está a chegar menos calor, e a explicação mais provável é uma corrente oceânica a abrandar.
Assim, a conclusão passa a assentar em medições do mundo real, e não apenas em modelos.
E isso dá à mancha fria um novo significado: esta região oferece uma forma visível de acompanhar alterações numa das correntes oceânicas mais importantes da Terra.
Crédito da imagem: NASA Scientific Visualization Studio/Goddard Space Flight Center
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário