Saltar para o conteúdo

Depoimento de Pedro Mexia sobre as leituras e releituras de "Os Lusíadas", de Luís Vaz de Camões

Homem de óculos a ler livro numa mesa com vários livros e uma chávena de café a fumegar junto à janela.

Enquadramento

O escritor e crítico literário Pedro Mexia partilha o seu depoimento sobre as leituras - e sucessivas releituras - de "Os Lusíadas", de Luís Vaz de Camões.

Pedro Mexia e as leituras de "Os Lusíadas"

"A minha primeira impressão sobre Camões é igual à que tenho agora. Achei "Os Lusíadas" magistrais do ponto de vista técnico e imaginativo, mas o tema épico não me seduz muito, em contrapartida com a poesia lírica. Gosto particularmente daqueles poemas que são sobre o desconcerto do Mundo.

Não houve nenhuma altura que não lesse a poesia lírica de Camões e em que não sentisse aquilo que sentimos com a poesia - a ideia de que certos poemas falavam para mim ou comigo.

Camões é um dos três ou quatro poetas portugueses, que não eram do século XX, que nunca saíram do meu radar. Mas talvez o tenha lido mais nos últimos 10, 15 anos do que quando tinha 25.

O que me fascinou sempre foi a quantidade de experiência e de pensamento combinados de uma forma absolutamente magistral. Há muitos poetas com uma vida e uma cabeça extraordinárias, mas talvez nenhum, em língua portuguesa, tenha combinado essas duas dimensões, a cerebral com a sensorial.

Há duas discussões clássicas sobre Camões. A discussão técnica, quais os poemas que são dele ou não, e a da relação com o patriotismo, porque o poema tem uma dimensão de louvor da odisseia dos portugueses.

No caso da lírica, a grande discussão é quão platónico era o Camões. Sabemos pouco sobre ele, mas percebemos que tem um âmbito de leitura excecional, e é quase impossível perceber como é que, com uma vida tão acidentada, teve tempo para ler aquilo.

Foi um grande poeta do amor platónico, carnal, mas também fez uma série de avisos de ceticismo, como com o Velho do Restelo. Ele não é simplesmente um poeta tarefeiro. Todos os conflitos que nascem dos Descobrimentos estão lá [nos" Lusíadas"].

Se alguém quer começar a ler Camões, que comece pelos sonetos. Os poemas de amor dizem coisas contraditórias, o que ele faz com um brilhantismo invulgar.

A maturidade faz com que se leia melhor Camões ao longo dos anos, porque com a experiência vem o nosso pensamento sobre a experiência. [À medida que o vou relendo] encontro coisas novas, que pensava que sabia e entendi mal. Camões é daqueles autores que não estão lidos, são para regressar e perceber dimensões que nos escaparam anteriormente."

Iniciativa nas comemorações dos 500 anos de Luís Vaz de Camões

Iniciativa integrada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões

Saiba mais em Camões na Escola

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário